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Buñuel : um “anjo” ateu

Por Beto Bertagna

Vi na minha distante e fria Porto Alegre praticamente todos os filmes de Luis Buñuel , o mestre espanhol do surrealismo. Na sua autobiografia, “O último Suspiro”, lançada em 1983, ano da sua morte, Buñuel , declara que colocou  uma das passagens que considerava mais bonita da Bíblia (Livro da Sabedoria (2,1-9) em um filme seu ( Escravos do Rancor, 1953)  . Diz ele : ” O autor destas linhas admiráveis as põe na boca dos ímpios (caso contrário , seriam impronunciáveis) . Basta colocar entre parênteses as primeiras palavras e ler :

(Pois os ímpios nos dizem, com seus falsos raciocínios:) Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas; para a morte não há remédio algum; não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos. Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração! Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente! Com o tempo nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Nossa vida passará como os traços de uma nuvem, desvanecer-se-á como uma névoa que os raios do sol expulsam, e que seu calor dissipa.
A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim, porque o selo lhe é aposto e ninguém volta. Vinde, portanto! Aproveitemo-nos das boas coisas que existem! Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude! Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!
Coroemo-nos de botões de rosas antes que eles murchem! Ninguém de nós falte à nossa orgia; em toda parte deixemos sinais de nossa alegria, porque esta é a nossa parte, esta a nossa sorte! ”

O diretor de clássicos como Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro (ambos co-dirigidos por Salvador Dali), Belle de Jour,Tristana , O Discreto Charme da Burguesia e Esse Obscuro Objeto do Desejo sempre reafirmou o seu ateísmo. Porém, tal qual Don Lope ( o rapaz ateu de Tristana) Luiz Buñuel teve nos últimos tempos de vida, como um dos seus grandes amigos um padre, com quem discutia sobre teologia e os mistérios da fé, enquanto bebia e fumava seus “puros”, apesar da diabete, da hipertensão e do câncer de fígado. Quando lhe perguntaram sua religião, ele teria respondido: Sou ateu, graças a Deus !

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Buñuel : um "anjo" ateu

Por Beto Bertagna

Vi na minha distante e fria Porto Alegre praticamente todos os filmes de Luis Buñuel , o mestre espanhol do surrealismo. Na sua autobiografia, “O último Suspiro”, lançada em 1983, ano da sua morte, Buñuel , declara que colocou  uma das passagens que considerava mais bonita da Bíblia (Livro da Sabedoria (2,1-9) em um filme seu ( Escravos do Rancor, 1953)  . Diz ele : ” O autor destas linhas admiráveis as põe na boca dos ímpios (caso contrário , seriam impronunciáveis) . Basta colocar entre parênteses as primeiras palavras e ler :

(Pois os ímpios nos dizem, com seus falsos raciocínios:) Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas; para a morte não há remédio algum; não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos. Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração! Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente! Com o tempo nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Nossa vida passará como os traços de uma nuvem, desvanecer-se-á como uma névoa que os raios do sol expulsam, e que seu calor dissipa.
A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim, porque o selo lhe é aposto e ninguém volta. Vinde, portanto! Aproveitemo-nos das boas coisas que existem! Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude! Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!
Coroemo-nos de botões de rosas antes que eles murchem! Ninguém de nós falte à nossa orgia; em toda parte deixemos sinais de nossa alegria, porque esta é a nossa parte, esta a nossa sorte! ”

O diretor de clássicos como Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro (ambos co-dirigidos por Salvador Dali), Belle de Jour,Tristana , O Discreto Charme da Burguesia e Esse Obscuro Objeto do Desejo sempre reafirmou o seu ateísmo. Porém, tal qual Don Lope ( o rapaz ateu de Tristana) Luiz Buñuel teve nos últimos tempos de vida, como um dos seus grandes amigos um padre, com quem discutia sobre teologia e os mistérios da fé, enquanto bebia e fumava seus “puros”, apesar da diabete, da hipertensão e do câncer de fígado. Quando lhe perguntaram sua religião, ele teria respondido: Sou ateu, graças a Deus !

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