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Amazônia em Chamas : primeiro livro de Cátia Cernov

Por Beto Bertagna

A escritora Catia Cernov faz o  lançamento em São Paulo, neste dia 14 de Setembro as 19:00 horas do seu primeiro livro, Amazônia em Chamas,mais um livro da coleção Selo Povo, representando a Literatura Marginal,ao preço de apenas R$ 6,00.   Para quem estiver em Sampa, o endereço é Rua General Jardim 660 – Vila Buarque. O telefone para mais informações é o 11 3151-2333.    Catia Cernov publicou seu primeiro texto pela revista Literatura Marginal Ato III, da Caros Amigos. Ela escreve, edita, imprime e distribui seus contos de forma independente em bancas de revistas, livrarias e sebos. Também é envolvida em manifestações e lutas ambientais.
Nas palavras da autora “A minha ecologia, que se reflete na literatura (quando assim o tema exige), acontece de forma mais direta, na pratica. É no não consumo de coisas danosas, de ensinar aos filhos o amor á terra, de criar filhos-pessoas e não filhos-consumidores, de não tratar plantas ou animais como propriedade, de entender a importancia de todas as formas de vida, rompendo com antropocentrismo, que trabalho ecologia dentro de casa.”
Nasceu no Paraná e migrou para o norte, mora há muitos anos em Porto Velho-RO.O que mais aprecia nesse estilo de trabalho é a possibilidade de interagir pessoalmente com seus leitores. Seus contos são experiências do pensamento, fruto de devires que nascem de seu universo em movimento.

Trecho do livro, uma pequena degustação do prato principal…

Condomínios

É o medo que nos faz ficarmos presos aqui dentro, acossados feito bichos ameaçados. A possibilidade da perda nos apavora. A existência do desconforto nos aterroriza. Nos escondemos da miséria, construimos jardins ao nosso redor, para não lembramos que ela existe. Não comemos nada do que são plantados nesses canteiros e bosques privativos, apenas o contemplamos. Temos gostos nobres, exportamos o que comemos, tratamos a água que bebemos, e sempre poderemos pagar para que alguém de fora venha cortar as ervas daninhas que ameaçarem nossos jardins. Mas depois das flores estão as grades. E depois das grades tudo é prejudicial, violento, feio, desordenado, incapaz, doentio…
Estamos ficando cada vez mais dependentes destas muralhas. Ocupamos grande parte de nossos dias trabalhando lá fora para nos manter aqui dentro. Quase toda nossa inteligência é utilizada para fabricar dispositivos de segurança, sistemas de vigilâncias, satélite de rastreamento, para treinar os guardiões dos portões. Damos duro para projetar os comportamentos desejáveis e gerarmos mais emprego: pois temos de evitar os desocupados que caso queiram pisar em nossos jardins. Nossas flores nos são muito caras.
Também estamos ficando cada vez mais pálidos, corpos mais frágeis, adquirimos doenças do pânico, depressão, solidão. Mas não nos importamos muito com isso, concordamos com preço, podemos encomendar os remédios e muitos de nossos filhos estão estudando a cura. Aqui dentro nascemos aprendendo sobre o desprezo ao outro. E com o tempo desenvolvemos o desprezo sobre nós mesmos. E o medo nos une, o medo é que nos possibilita este isolamento, que projeta esses muros e justificam essas câmeras observatórias. Não ousamos enfrentar esse medo, porque pode haver um medo muito maior lá fora. Pois sempre há alguém, algum ressentimento, que ouse invadir nossos dispendiosos jardins.
Aqui, a guerra não nos comove, não nos diz respeito. Rascunhamos máquinas, projetamos projéteis, fazemos as leis, construímos os presídios, fechamos os negócios e determinamos as fronteiras. Mas a guerra não nos diz respeito, não está em nossos quintais, são só temas da tv a cabo, delírios de videogame. Mantemos o exercito porque é preciso defender nosso território, nossa muralha, nosso direito á privacidade, ao bem estar, ao futuro de nossos filhos e a uma previdência decente.
A segurança é a certeza de nosso destino. Depois disso nada existe, nada mais deve ser visto…

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