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Vasectomia – um “textículo” que virou conto

Por Aparicio Secundus

Primeiro quis saber o significado de Vasectomia: um método contraceptivo através da ligadura dos canais deferentes no homem por meio de uma pequena cirurgia feita com anestesia local em cima do escroto. Depois de muito matutar, sondar, pesquisar e entrevistar amigos que fizeram vasectomia resolvi encarar o processo e parar de vez  as angústias que advinham justamente na época do período fértil da minha mulher: fazer contas, usar camisinhas, ejaculação  postergada, verificar calendários e coitos interrompidos quando descobríamos que estávamos avançando o  sinal vermelho  em pleno colóquio amoroso e os corpos engatados num abraço suado de poros esfregando-se. Fabriquei  seis filhos varões os mais recentes com 5  e 4 anos de idade.  Deduzi então que, pela fabricação em série de machos, os meus espermatozóides masculinos de tão rápidos atravessam o canal seminal de Boeing e os femininos vão de Fusca. Daí, por certo, não ter tido nenhuma filha embora sempre meu desejo. Agora é contentar-me em curtir as netas quando chegarem (se é que virão… já tenho um neto no pedaço, o Vinícius). Após os procedimentos de praxe, pedido médico, documento assinado  pelo casal com reconhecimento de firma em cartório e aguardar  60 dias para não haver arrependimento, resolvi encarar de vez o processo e acabar  com a dúvida. Posterguei até onde pude. Muitos fizeram pilhérias dizendo que o cabra fica brocha, que não vai mais ejacular, que perde a vontade de “transar” , que afina a voz, que diminui o tamanho do pênis e outras sacanagens similares. Resolvi encarar o processo e marquei a cirurgia para uma fatídica terça-feira. Minha mulher acompanhou-me em apoio moral e para ser testemunha quase ocular do processo de esterilização  que eu iria me submeter.Numa sala pequena, deitei-me na cama olhando para o teto (meno male) e a enfermeira pediu para eu baixar as calças até os pés. Passou um líquido amarelado na região escrotal e na área pubiana já desprovida de pêlos,  raspados na véspera por orientação médica. Travei tudo que não passava nem grão de alpiste embebido em azeite. No período que fiquei só no quarto, num relance de minutos, passou-se o filme  de toda a minha vida de fabricante de espermas desde a primeira masturbação sem esperma,  a primeira com um pingo despontando do canal para minha alegria e satisfação,  concursos de punheta (esperma à distância),  romances feitos e desfeitos, casamentos, filhos, até chegar ao coito da noite anterior regada a  carinhos especiais e com direito a uma ejaculação farta com os últimos espermatozóides a dar-me  um adeus melancólico numa despedida final e sem sucesso na derradeira empreitada. Essas reflexões deram-me uma sensação de impotência que foi superada pela certeza de não querer mais filhos e de fazer do instrumento peniano um objeto de prazer sem nenhuma preocupação conceptiva. Em meio a essas reminiscências sentimentais e bucólicas chega do Dr. Eduardo todo sorridente, e, cheio de gracejos,  fala para um  enfermeiro que estava ao lado: – “Veja aqui, temos mais um  candidato a virar mocinha… Prepare os instrumentos e vamos fazer a incisão…”Só não o mandei para aquele lugar repleto de outros adjetivos que o momento propiciava tendo em vista que minha situação, prostrado e indefeso  e com o órgão que mais quero bem à mostra, prudente era ficar caladinho.- Doutor, você está bem, não bebeu nenhuma ontem à noite, suas mãos não estão tremendo? Foi o que consegui responder ao gracejo dele.- Tá tudo bem, respondeu. Fique tranquilo que esse procedimento é rapidinho e indolor. Começou o processo sem maiores delongas. De cara apareceu com uma baita de uma seringa que parecia que ia anestesiar um cavalo no cio. Segurou um dos bagos e eu disse:- Doutor, não vai doer enfiar essa  injeção toda  nos meus ovos, vai?E ele,  meio que rindo, sarcástico:- É só uma picadinha de formiga… E começou a injetar o líquido no meu bago esquerdo. Gritei e retruquei:-  Doutor, tá doendo prá caralho!!!E ele na maior tranquilidade:- Não é no caralho é nos ovos mesmo. E quando eu disse que era só uma picadinha de formiga, a formiga é das cabeçudas… E começou a rir o sacana. Começou a cirurgia, fio cirúrgico prá lá, agulha prá cá e perguntou-me quantos filhos tinha eu. Quando respondi que tive seis filhos, todos varões,  ele retrucou, comentando com a enfermeira que agora estava na sala:- Seis filhos? Se eu soubesse disso antes, ao invés de cortar seu saco eu tinha era tirado seus ovos… E começou a rir novamente.Terminada a cirurgia, mostra-me, em uma das mãos, duas tripinhas de aproximadamente dois centímetros cada, com diâmetro similar ao de um macarrão normal.  Sem nenhum constrangimento ou remorso joga os antigos canais da minha fertilidade na lata do lixo, o que me deu, novamente, uma sensação de vazio na alma.Já no consultório,  ele orientou-me na presença de minha mulher:- Gelo no saco 3 vezes ao dia,  anti-inflamatório por 10 dias, 15 dias de abstinência sexual e 20 ejaculações com o cuidado de usar preservativo no período fértil da sua mulher e posterior espermograma para constatar a esterilidade. Vejo você daqui a 10 dias.Pensei em lhe dizer: – Doutor, 15 dias sem dar “umazinha”? Melhor ir logo pro Tibete e virar monge…Pensando bem, acho que o primeiro cara que fez essa cirurgia tinha o nome de Zé. Metido a machão resolveu fazer a cirurgia… Um amigo assim lhe falou: – Vai Zé, que tu mia…

VASECTOMIA…

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O princípio da senilidade

Por Aparício Secundus

Já haviam me falado que depois dos cinqüenta, a descida é vertiginosa e triste. É colesterol, ácido úrico, taxa de glicose, triglicérides (está mais para “pentaglicérides”, imitando o Brasil) tudo nos píncaros, fora de controle.

Não se pode comer mais gordura, e tudo tem que ser “light”, “diet”, leve. Daqui a pouco estaremos comendo sopa de isopor ou de algodão…

A próstata dilatada sugere exame semestral (vou procurar um proctologista japonês….) e o mini-estupro torna-se, mais uma vez, inevitável.

A coluna, coitada, é um emaranhado de bicos-de-papagaio, escolioses, e hérnias de disco em c4/c5 e c5/c6. O nervo ciático é o único nervo que endurece sem que eu me preocupe nem tenha que me concentrar .

Por conta da glicose em 120, 130, 140 km/hora,  igual ao Roberto Carlos nas curvas da estrada de Santos, fico fugindo até de abelha.

Os zumbidos no ouvido lembram cigarras insistentes que com seus sons ininterruptos parecem anunciar a chegada da chuva, do sol, da noite e do dia.

Ainda bem que a labirintite só me ataca de vez em quando. A gastrite  e a  esofagite estão dando uma trégua, mostrando compreensão e companheirismo.

Minha mulher mesmo é que sempre fala: ainda bem que você não está com “paumolite”…

Vou ao médico de insistente, só para fugir da rotina e ouvir o mesmo blá-blá-blá. Já sei do diagnóstico e da receita de cor e salteado. O subconsciente, mais que consciente, já o diz e orienta sobre o tratamento adequado: caminhar, fazer exercícios, reduzir consumo de álcool, dormir cedo, etc, etc, etc.

Já havia ido ao trabalho com sapatos trocados e fui alertado por um amigo na porta do Banco. Ainda bem que os sapatos eram de pares marrons.

Às vezes não me lembro onde deixei o carro: no estacionamento do Banco ou na quadra residencial? É melhor do que não saber mais onde mora ou mesmo chegar em casa e falar pra esposa: eu lhe conheço de algum lugar…

Ontem aconteceu fato inusitado: diante do cansaço do dia de trabalho não houve prévias na relação amorosa que intentei junto a minha mulher. Foi meio na base do “abre alas para a minha bandeira” mesmo diante do bagaço em que me encontrava.

Não era lá aquela bandeira tipo  “independência ou morte”, mas estava desfraldada a meio mastro. Tinha que honrar a firma e atualizar um pouco o débito amoroso de caixa.

O preservativo clássico entrou no esquema, mesmo a contragosto, para evitar concepção indesejada (já temos, desse casamento, um bacurizinho de 1 ano e sete meses e outro de 4 meses. Fora os 4 marmanjos anteriores de outros carnavais…)

Depois do coito, saciado e detonado,  o guerreiro conversou duas ou três abobrinhas com a comadre e, na terceira abobrinha, caiu placidamente nos braços da deusa do sono que o autor desconhece o nome.

Por volta das duas da manhã, senti vontade de ir ao banheiro. Cambaleante ainda, meio que sonâmbulo, marquei o rumo do vaso e o banheiro  continuou no escuro para não acordar o bebê que havia requisitado a invasão de nossa privacidade na base do berro.

Comecei o processo entre dormindo e acordado e, instantaneamente, caí na real: Não ouvi barulho da urina caindo no vaso. E nem no ambiente ao redor do vaso. Passei as mãos pelas pernas com receio de estar urinando em mim mesmo e nada.

Foi aí que peguei no “possante adormecido” e vi que ele estava ainda encoberto pelo preservativo da farra de horas antes e eu estava urinando dentro da camisinha. Comecei  a rir. Falei para minha esposa que se bolou de rir também. Duas da manhã e eu enchendo a camisinha de urina que se misturava aos espermatozóides enjaulados e sufocados.

Pensei no prenúncio do fatídico e triste começo da senilidade, que descamba para a velhice irreversível e sem retorno.

Cada minuto precisa agora ser vivido como se fosse um século  e pedir sempre a Deus para esperar um muito mais antes de me chamar para o outro lado da ponte.

Curtir esposa, filhos e netos como se fosse a primeira vez. Gastar mais que economizar, pescar, reunir-se com os amigos sempre e não se preocupar com futilidades mundanas e passageiras.

Bem, voltando ao me ocorreu ontem, resta-me sair na esportiva e pensar:

É bem melhor mijar na camisinha que borrar as calças.

(NR:  Não conheço o Aparício pessoalmente, mas acho que fiz um amigo. Recebi seu texto por e-mail de uma outra pessoa, e imediatamente saí à sua procura para pedir autorização para publicá-lo neste bravo e eclético blog/site.

Acho que todos merecem ler o Aparício com seu  texto leve e primoroso. Diante das agruras do dia a dia,  Aparício, fica o apelo público! Manda mais coisa que nossos heróicos restos de fígado precisam de textos assim para se recomporem. Tenho dito! )

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