Arquivo da categoria: Crônicas certeiras

Com qualquer tinta eu tento…

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se me lês, é por que não foi dessa vez. Não chegamos ao fim do mundo. Mas temos e estamos no inferno na terra de sempre, com uns laivos de esperança para quem tem fé. E olhe lá.
Praia, praia, praia e nada mais. Ou melhor: piscina. Dupla jornada. Hidroginástica. Preparação física à vera. Como não rolava há muito tempo. Juntou a fome com a vontade de doer. E, se é pra ser por que é inevitável, que renda bons frutos físicos e mentais. Esmurrar a água não provoca dor alheia ou maiores danos por ter baixo impacto. Só cansa e faz dormir.
Por que a vida passa, a fila anda e esse não é um bom momento para parar o mundo e tentar descer. Ele passou! E, como já disse, se me lês é por que a porra do mundo não parou quando devia. Agora é que o bicho vai pegar. E ele, o bicho, já está botando as manguinhas de fora, diga-se de passagem.

Nos últimos dias, duas crônicas foram interrompidas por uma mesma razão peculiar em pleno parto (aí, Gabriel Novis!): por falta de tinta na(s) caneta(s). O primeiro impedimento foi na praia e me obrigou a interromper a escrevinhação. Así no más. Terminei o texto direto no computador, em cima do laço para cumprir o horário das editorias (repararam como tenho falado nelas, as editorias e neles, os editores ultimamente?)
Agora, de novo! Lá se vai a caneta. Engraçado é que a única coisa que faço a mão religiosamente é preencher caderninhos após caderninhos de crônicas. Acabarem duas cargas em três manuscritos? Ai, ai, ai…
“>Por via das dúvidas puxo do porta-tudo a caneta comemorativa de São Judas Tadeu que ganhei de minha mãe no dia do santo, 26 de outubro. Aperto o pino e… Nada. Desmonto a caneta. Está tudo lá, inclusive a tinta que havia transbordado da carga, lambuzando minhas mãos. Meleca.
Aí, meu Deus! Mensagem recebida. Meu texto não tem a guarida do santo protetor de quem, acabo de me lembrar, perdi a medalhinha que sempre uso num cordão, junto com um crucifixo e Nossa Senhora..
Parto para a ignorância e apelo para uma BIC. Prateada, como o surfista da história em quadrinhos. Valho-me dos seus superpoderes por que, como já disse, a fila anda e, se eu der mole, perco a levada.
E aí… volto ao ponto: se o mundo ia acabar, não precisaria me preocupar com a próxima narrativa. Era essa e deu! Beijou, beijou, não beijou, beijasse. Danem-se editores.

Como ainda não chegamos ao fim dessa sexta feira, 21 de dezembro, prefiro não contrariar os deuses alterando meu próprio ritual. Crônica e praia, praia e crônica.

Me apego a pedra, meu leme verdadeiro, olhando o tempo – que a tudo espera – a espera do tempo passar…

Está tudo aqui. Meu céu, meu mar. Quase tudo no seu devido lugar.
Menos eu que, como a tinta da caneta de São Judas, apenas escorro entre os dedos do destino deixando algumas marcas croniqueiras enquanto dou adeus ao fim do mundo, como quem diz: “Mais um segundo, uma hora, mais um dia. Outra vida, quem sabe? Não importa. Como meu mar vou para onde o vento me levar. Haja biquíni!”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

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El Cid, a flecha e o alvo Sebastião

Moc Bar 121213 0111 João tela 01Texto e foto de Valéria del Cueto

Pra variar, engatei a quinta procurando. Só que tem hora em que são eles, os assuntos, por assim dizer, que te atropelam. É isso mesmo. O assunto firmou quando ouvi o antigo hino de São Benedito, aquele, em horário quase nobre na TV. Arrepiei. A seta mirou o alvo e acertou meu coração guerreiro um pouco santo. Sebastião. No Rio, Oxossi, o caçador que me protege e cuida da mata.
A bandinha tocando e eu comemorando. Feliz pela notícia de que o olhar e a sensibilidade de Cid Carvalho alcançaram João Sebastião. Se já estava interessante, agora ficou bom demais! Cuiabá vai chegar como e com quem deve na Sapucaí. Por que anjos e santos se juntaram aos cajus e as onças. E João, aquele que ferveu e agitou nos calientes carnavais de Cuiabá, vai estar ali. Apresentado e representado de alguma forma no cortejo do desfile principal.
Conheci João logo que cheguei em Cuiabá e fui seduzida pela explosão das artes plásticas que refletiam em suas cores o calor da terra. Sempre presto atenção e (re)conheço um lugar por aspectos que me atraem de sua cultura. Me orgulho de jogar nas 11: vou de literatura e poesia à música. Traço escultura, pintura; sou fissurada por grafite, fotografia, audiovisual…, tudo sem titubear. Foi assim com a Califórnia da Canção, de Uruguaiana, a polca e o artesanato paraguaio, é igual com a carioquice (minha cultura) em geral. Ouvi, vi, estudei e ainda pesquiso. De vez em quando, tento e faço.
Volto à Cuiabá e ao João. De quem tenho algumas obras. A menor, uma joaninha vermelha feita de pet que enfeitava minha instalação de natal (chamar aquela galharada de árvore é uma ofensa à natureza). Também tenho uma onça marota olhando à lua, com ar de “te pego”. Mas meu objeto preferido é um pano que deveria ser canga. Porém que, diante da importância da obra, foi ensanduichado e enquadrado. É a síntese de uma linda história. Mostra uma onça inteirinha, sedutora e esbelta, te olhando fixamente. Ela usa um colar com cajus vermelhos ornados com suas folhas verdes. Sob uma das patas dianteiras há uma folha presa, do enorme caju lilás que a olha em primeiro plano já no “laço” para ser juntado aos outros, no colar.
É uma obra original. Primeira e única. No desenho, os traços feitos pelo João, são facilmente reconhecidos. O olhar e as proporções do felino, sua posição. Mas a pintura não é a dele. Nela, há um trabalho primoroso de pontilhismo em parte da tela. Quem pintou minha onça quase canga foi Chico Amorim. Amigo de vida, teatrólogo famoso e meu orientador no doutorado de cidadã cuiabana. São dele pérolas como o dito: “Tudo evolui no mundo, menos a baixaria”; o excitante desafio de “ficar sem fazer nada”; as fugas loucas para as águas límpidas, deliciosamente refrescantes dos rios que cortam a estrada da Chapada durante a semana e outras cositas mais.
Pois a obra ficou tão especial que João fez questão de assinar a tela. É única e tem uma linda história que inclui o autor da surpresa espetacular. É, por que é claro que babei com o presente!
Pois é esse João, o Sebastião, que – soube hoje – vai se juntar a grande festa verde e rosa na avenida. Que me perdoem seus promotores do centro oeste, agora sim, temos um “muxirum” cuiabaníssimo com a cara do que mais amo nessa terra: o povo CUIABANO! Do qual João é síntese e expressão, por meio de suas maravilhosas e originais criações.
Trazidos pelo trem conduzido por Jamelão e coloridos, também, pelo que há de mais autêntico e representativo nas artes plásticas de Cuiabá, os frutos dessa mangueira estarão perpitolas de cuiabanidade!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte das séries “é Carnaval” e “Parador Cuyabano”, do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

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Da janela da alma vem a luz que me acalma

Texto e foto de Valéria del Cueto
Tudo igual. Constato passeando pelo bairro, no caminho entre a padaria e a Pedra do Leme, onde vejo a bandeira tremulando a meio mastro. Mas diferente.
Vinha procurando um assunto quando passei embaixo da janela do meu antigo apartamento, a “casinha” (o novo ainda não tem nome), no primeiro andar. Aquela onde, quando fui para lá, há mais de dez anos, achei ideal para receber serenatas.
É, sou do tempo e de lugares de serenatas na janela. Para desespero do meu pai, milico ainda, que precisava acordar cedo para trabalhar. Como somos duas filhas, a Gisela e eu, as homenagens românticas eram múltiplas, muito mais pra Gi do que pra mim.
Em Bela Vista, naquele tempo Mato Grosso, serenata era assunto muito sério e recorrente, principalmente nas férias, quando a garotada baixava na princesinha do Apa. Tinha que agradecer, abrir a janela…
A ordem dos fatores alterava todo o produto. Era uma romaria crescente por que quem recebia a serenata costumava se juntar a turma para ir cantar noutra janela, depois noutra.
Nunca fui de ir atrás das violas enfeitiçadas. Primeiro, por que meu pai não deixava. Segundo, por que nossa casa sempre ficava por último, mesmo que fosse visitada noutra altura da ronda musical. Afinal, eu namorava Preto, o violeiro – mor, peça quase fundamental para o sucesso da empreitada (sem tirar os méritos dos dedilhados e doces palavras do Vanderley, do Gão do Bermudes e, por que não incluí-lo, pelo esforço frequente, o Tadeu Palmieri). Eu não me incomodava mas, meu pai, sim. Não foi nem uma nem duas vezes que recebeu as românticas caravanas ameaçando premiá-las com panelas cheias d’água. Isso, lá pela terceira ou quarta serenata. No meio da semana!
Quase infelizmente no prédio da Gustavo Sampaio nunca recebi uma serenata. Também nunca pedi, por achava que o mimo deveria vir de forma natural, sem forçar a barra.
A vida é assim, não nos dá aquilo que pedimos. Porém… De vez em quando, nos chega um presente muito melhor. Acontece que a janela do meu quarto era só um pouco acima do nível da rua. Não precisava de gritos para que eu ouvisse se alguém me chamasse.
E, assim, nos últimos 10 anos, passou a ser feito. Todos os domingos e, algumas vezes, durante a semana. “Maria Valéeeeeria, Maria Valéeeeeria…” Aos domingos, depois da missa, um pequeno desfio de caminho, permitia que minha avó me desse o melhor despertar do mundo, o mesmo que tive durante os anos que morei com ela, (naquele tempo acrescido de um copão de Nescau morninho).
Não importava meu estado matinal ou o peso da janela de guilhotina que me fazia me xingar mentalmente, temendo dar um mau jeito nas costas levantando o janelão. Como a cama ficava colada, a segunda dificuldade era encontrar os óculos pra poder dar um tchauzinho pra minha amada e combinar o almoço de domingo. Simples assim.
Tive a minha serenata por uns de dez anos. Até precisar mudar de apartamento, no último mês de maio. Mudei pra perto, para a rua de trás e entrei no caminho natural de dona Ena para a igreja. Só que… Fui morar no segundo andar. Muito mais difícil de ouvir meu mantra de bom dia. Passei a colocar o despertador e, tal como Januária, esperar que a maré cheia do meu mar de amor me alcançasse. Ficou mais difícil e por contingências da vida, o costume não firmou.
Hoje, na minha janela, sou apenas Carolina, a que não viu o tempo passar. E, dizendo mentalmente nosso “segredo”, junto com ele prometo: nos meus olhos, agora, fundos, não vou guardar a dor. Uma rosa pode morrer, a festa acabar, um barco querer partir. Nossa história não merece o sofrer, amada. Não faz assim quem foi só carinho, amor, tanta alegria! É Sem Fim…
*Valéria del Cueto, neta de Dona Ena, que sempre vai viver no SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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Na dúvida, cante, sambe e celebre

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não sei se peço ajuda aos santos, apelo para meus orixás, adoto a postura de meditação dos budistas, entoo um mantra hindu ou tudo ao mesmo tempo. Assim, junto e misturado que é pra fazer efeito.
Estou igual a minha canga, toda embolada quando tento acomodá-la nas areias cálidas da minha praia recém saída de um longo período de quase uma semana de chuva fina e/ou tempo nublado e/ou tempestade, a escolher no período a que me refiro. Estou como o mar, querendo se ajeitar, amansando seus desejos e rompantes mas, ainda, turvo com os resquícios da chuvarada.
Respiramos fundo, o mar e eu, procurando dominar nossos instintos mais selvagens e profundos, cuspindo o lixaredo que tentam nos impingir. Corpos vivos seletivos que ambos somos.
Cheguei aqui com uma história carnavalesca na cabeça, mas relutante em conta-la esta semana. Preocupada com meus assíduos leitores, talvez cansados do meu eterno carnaval. Minha anti-auto-censura argumentando que nunca fui nem serei escrava das efemérides ocasionais para tratar de qualquer assunto. É claro que procuro não desagradar meus editores e, antes de qualquer observação nesse sentido, lembro que o público tem o direito de tomar conhecimento de que carnaval se faz o ano inteiro. O que, inclusive, explica essa verdadeira cachaça cultural do brasileiro.
O gran finalle é lembrar que estamos no Dia Nacional do Samba, em pleno 2 Congresso Nacional do dito cujo na abençoada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
E aqui, faço dos versos do samba da Gres. Mangueira 2012 as minhas orgulhosas palavras: “Respeite quem pode chegar onde a gente chegou…” E se prepare, acrescento eu, sem nenhuma pretensão poética, mas cheia de moral profética: Aguarde, por que o céu é o limite e as estrelas nossas guias nessa viagem que, cada vez atinge mais lugares no mundo, agregando novos e apaixonados adeptos.
Somos a maior vitrine da cultura popular brasileira, alavanca de signos e tendências nacionais. Pela festa e para a festa expomos e traduzimos em arte nossa pra gringo ver, opiniões, mazelas e orgulhos, discutidos e esmiuçados em forma de enredo.
E isso não se faz só na temporada do “vamos falar de carnaval”. Tá bom que também é preciso descanso, uma pausa para respirar, um tempo para tirar a fantasia do carnaval que passou e começar a imaginar o que será o tema da festa que virá, antes de cair de boca na sua produção. Isso é lá pelo mês de abril e já com algumas escolas de samba tendo anunciado seu enredo seguinte.
Esse é um dos segredos do sucesso do carnaval carioca: um calendário de trabalho. Nem que seja imaginário, por ele só se torna real com as entradas de dinheiro para sua execução. E chegamos, assim, ao próximo ponto. O patrocínio que acaba possibilitando o desenvolvimento e o crescimento da festa é o mesmo que interfere e aprisiona as temáticas e enredos das agremiações que o recebem.
Olho pro alto. Enquanto escrevia o tempo fechou sobre o céu da minha canga esticada na marra. O espaço ficou exíguo no meu minifúndio semanal de duas laudas para desenrolar essa história!
Por isso, informo que, as séries “Ponta do Leme”, “Parador Cuyabano” e “Fronteira Oeste do Sul”, a bordo no Sem Fim… acrescento uma nova linha.
“É carnaval” vai juntar o que escrevi, desde 2005 sobre o tema e o que, com a concordância dos meus leitores, a quem peço humildemente passagem, ainda relatarei sobre a parte que mais amo na folia: o fazer carnavalesco.
Salve o Dia Nacional do Samba, dedicado a todos os bambas que fazem da festa nossa de cada dia uma eterna folia!
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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Quem te viu, não pode mais ver..

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Existem coisas que os olhos não devem mirar, aquelas que pra entender… Sei lá, não sei não, por que não cabe explicação.

Foi assim na homenagem à Delegado, lendário Mestre Sala e Presidente de Honra da Estação Primeira de Mangueira, no sábado seguinte da sua partida. Tudo era igual, mas muito diferente.

Na abertura da noite, a imensa bandeira mangueirense que cobre o fundo da quadra, se abriu ao som da Surdo Um, a bateria comandada por Mestre Aílton. Como sempre… A roda se armou, os segmentos se posicionaram e abriram espaço para que as baianas pudessem iniciar os trabalhos.

Todos sentiam a falta de Delegado, sempre sério e compenetrado com seu bastão, apito, chapéu e a faixa de Presidente de Honra da escola para a qual trouxe, durante tantos carnavais, as notas máximas no seu quesito. Estava nos olhos de cada um, assim como nas vozes que, em uníssono, louvavam o amor maior do Mestre Sala. Era um canto forte, um canto alto. Para ser ouvido por todo lado. Inclusive lá onde, agora, Delegado se encontra cercado de bambas que fizeram a história da festa que virou o maior espetáculo popular da terra.

Era do lado direito da quadra, numa mesa de pista que ele costumava acompanhar os ensaios, antes e depois de comandar a roda. Ali, agora, só Suluca, sua irmã, cercada de crianças e adolescentes da família, até ser convocada para receber as reverências, depois de Ézio, um dos filhos de Delegado, cantar um samba (é claro!) inspirado em Hegio, que virou Delegado por “prender” as mulheres. Era hora de homenagear!

Do lado oposto, embaixo do palco, a Porta Bandeira Marcella Alves recebeu o pavilhão da Mangueira e saudou seu par, Raphael Rodrigues. O casal atravessou bailando o espaço aberto no meio da roda. O público vibrava, cantando e dançando sambas que fizeram de Delegado a lenda por todos cultuada.

Estranho não encontra-lo, mãos estendidas para o alto, o bastão apontando o céu, antes de cruzar os braços sobre o peito e baixar a cabeça para saudar, com um beijo, o pavilhão que sempre apresentou e protegeu.

O teto retrátil da quadra estava aberto. O detalhe foi notado apenas por que, quando o casal se aproximou para saudar o grupo, uma garoinha começou a cair, quase imperceptível. E rapidamente aumentou… Ivo Meirelles, presidente da escola gesticulava, pedindo para que o fechassem. Mas não era isso que os deuses do samba e seus representantes celestiais queriam. O sistema não funcionava. E a água, que lavava corpos e almas dos mangueirenses saudosos, só apertava!

O piso molhado era riscado pelos pés ágeis, num bailado possuído pelas forças da Mangueira que se juntavam no céu e na terra. Cada gesto, cada voleio de Marcella e Raphael passou, literalmente, a ter um peso diferenciado. O pavilhão encharcado ganhava uma nova força. Nele, se concentrava o encontro dos bambas do passado com os sambistas do presente da verde e rosa. E ele voava nas mãos da Porta Bandeira, seus súditos aspergidos e abençoados com chuva que, agora, despencava do céu, sem dó nem piedade…

Muitos viram. Não sei quantos sentiram o momento em que, ao som cada vez mais forte e apaixonado do cantar do Morro da Mangueira, fomos todos elevados à categoria de uma nação. Um povo que, diante da perda de um baluarte, se une, supera e celebra seu mundo, o do samba, através da música, da dança e do amor por sua história, ali reverenciada.

As lágrimas corriam, misturadas ao suor, e se diluíam com a chuva redentora, mensageira e pacificadora. A dor da ausência aliviada pela mensagem celestial.

De alma lavada, o peso da perda ficou mais leve diante da beleza dos reflexos da água da chuva nos corpos e  gestos do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira que, ali, representava e cultuava a arte maior de Delegado, o Mestre Sala nota dez da Mangueira.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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Quem semeia sonho colhe carnaval

 

Texto e foto de Valéria del Cueto

Na apresentação das agremiações elementos obrigatórios e também as inovações são julgados pelos jurados que escolhem a escola campeã do Carnaval Carioca.

Mas como se constrói o sonho apresentado no desfile, que, em seus quesitos, bota em julgamento a Porta Bandeira e o Mestre Sala, que carregam e zelam pelo estandarte do pavilhão da escola, a Comissão de Frente, grupo que a apresenta para o povo, a bateria responsável pela cadência dos desfilantes, e tantos outros?

A parte plástica dos carros alegóricos, alegorias, adereços e fantasias, usadas pelos foliões, é feita com o esforço conjunto de ferreiros, carpinteiros, pintores, aderecistas, costureiras, escultores e outros artesãos que trabalham meses a fio (olha ele!) na construção da proposta imaginada, planejada e desenvolvida pelo carnavalesco no barracão da Cidade do Samba. É o corpo pulsante por onde circula o sangue da folia bombado pelas centenas de trabalhadores que transformam materiais primários, brutos, em elaborados trabalhos artísticos para  retratar o enredo proposto pela escola de samba e apresentado na Sapucaí.

O projeto do desfile é criado, desenvolvido e construído com muita disciplina, criatividade e técnica. Da criação à finalização do trabalho uma série de etapas tem que ser vencidas de forma mais ou menos sincronizadas, mas com data marcada para  brilharem na passarela carnavalesca.

A Cidade do Samba, na zona Portuária do Rio de Janeiro, próximo ao Sambódromo, é, desde 2006, a conquista mais significativa para a evolução da festa. Nela, estão reunidos os 12 barracões das Escolas do Grupo Especial. Projetados para transformar em realidade com tecnologia e num espaço apropriado os sonhos e delírios dos criadores do espetáculo.

As instalações dos barracões aprimoram o processo produtivo. Ele evolui do desenho para o projeto técnico, ferragem, madeira, empastelamento, pintura, adereçamento, iluminação e o deslocamento para o local do desfile, no caso dos carros alegóricos. Nas fantasias, do desenho para o desenvolvimento dos protótipos, modelagem, corte, costura, montagem, adereçamento, embalagem e sua distribuição para os componentes.

Precisei de 1200 imagens para traduzir, em sessões, a evolução da construção de um único carnaval de um só barracão, o da Mocidade Independente de Padre Miguel. Também fotografei os ensaios técnicos e o desfile da escola no Sambódromo. Estas, são outras tantas centenas de imagens.

Dissequei o processo seguindo uma norma: nunca interferir, dirigir ou compor as imagens a serem captadas. Apenas explorar numa sequencia semi-ordenada (a ordem no espaço se modifica com o andamento dos trabalhos), em 16 visitas, cada centímetro dos 7 mil metros quadrados dos 4 andares do barracão que construía o enredo de Cid Carvalho, A PARABOLA DOS DIVINOS SEMEDORES, apresentado em 2011.

Outros já exploraram os barracões. Poucos por tanto tempo. Nenhum, acho eu,  com tanta regularidade e tão detalhadamente.

É um mundo. Quente, suado, com cheiros fortes das resinas, colas, fibras e tintas. Surpreendentemente caloroso e amigo depois que os artesãos se acostumam com a peregrinação semanal pelos setores de trabalho e começam a interagir com a câmera fotográfica.

É a vida plena, absoluta em seu momento catártico de explosão e construção criadora. Ingrata e inconstante por, a cada ano, trocar de enredo e fantasia para seduzir seus foliões.

Dizem que esse trabalho é um “acervo imagético”. Prefiro dizer que é um imenso e delicado tecido composto por fios tramados pelo amor e a dedicação do incrível e generoso povo do samba carioca. Maravilhoso, como a minha cidade!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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Nossas intimidades mudando de nome

Por Marli Gonçalves

Antes a gente dizia: “Quer aparecer? Amarra uma melancia no pescoço!” E dava risada com a ideia improvável de ver essa cena. Hoje, ao contrário, há controvérsias. O cara pode seguir o conselho. E coitadas das frutas, hortaliças e legumes! Agora entraram definitivamente no descritivo de partes do corpo humano. Não bastassem as mulheres fruta, melancia, pera, morango, homem berinjela, essa semana apareceu a mulher couve-flor, ou melhor, a mulher com uma couve-flor. Ops, mais: a mulher ex-couve-flor.

Eu já estava cansada, era tarde, quando fui dar uma espiadinha no Twitter, ver o que rolava, quais eram os assuntos do dia. Ao ver nos trending topics, (termos mais comentados) o nome da Geisy Arruda, a rosácea loirosa sempre em busca de retorno à fama, que lhe é sempre efêmera porque bate mais a cabeça do que a usa, e ir saber do que se tratava, fiquei meio em choque com a insanidade humana. Dei de cara com uma foto dela, deitada, toda estropiada, cara remendada, olho inchado. Acompanhava uma entrevista na qual o QI de sempre-viva amarela anunciava ter feito de uma vez só várias plásticas, inclusive uma íntima. Mas logo definiu o termo “cirurgia íntima”.  Informava exatamente que tinha operado a vagina porque esta parecia uma couve-flor, ela a achava feia, emboladinha. Que os lábios eram todos grandes, muito volumosos, e por isso até pedia para que seus parceiros não olhassem. Socorro!
Nem preciso dizer o nível dos comentários gaiatos que se espalharam, dos quais me absterei. Mas não posso deixar de pensar que o conceito de intimidade mudou completamente. Terá ela combinado com o médico que a operou que daria uma declaração dessas, “todo mundo” ia comentar e ela pagaria assim as tais cirurgias que duraram sete horas – verdadeira imolação; quase mutilação?
Se for, não há mais limites mesmo.
Mas boba eu, né? Já faz tempo que ninguém precisa mais da melancia para aparecer. Basta se deixar fotografar assim como quem não quer nada. Viu as fotos da tal Nana Gouveia posando de bonita no meio da catástrofe nos Estados Unidos? Pode-se também soltar a voz sem pensar. Distrair-se sem calcinhas.
Ou aparecer como Lady Gaga que, depois de ver que nem tinha tanto brasileiro otário para comprar ingresso para o show megalomaníaco dela, chegou aqui que só faltou, sei lá, dar no meio da rua, num lance e golpe de marketing surpreendente. Chegou dando tchauzinho. Foi pro hotel e começou a tuitar que nem louca. Botou faixa I Love na fachada. Apareceu de topless coberta só com uma toalha. Deu mais tchauzinhos para os coitados que estavam lá embaixo. Jogou lanche daquela rede americana pela sacada. Pôs peruca cor de rosa. Subiu no salto plataforma. E, claro, foi para a favela ver os pobres. Jogou bola. Tô dizendo: faltou dar; inclusive uma de Madona, sua rival, e arrumar um namorado brasileiro instantâneo. Um Maomé podia ele se chamar, talvez, para ser irritante com o Jesus que a outra usou e jogou por aí.
Mudaram também o sentido de exótico.
As tais redes sociais que se expandem a cada dia devem ser culpadas. Só podem ser. Tem gente que precisa tanto dar satisfação do que faz, que passa o dia dizendo “vou até ali…”, volto tal hora, comi isso aqui ( e taca foto do sanduíche horroroso,porque comida tem que ter fotografia especial para ser atrativa), meu cachorro piscou, meu cachorro dormiu. Já vi caso de gente xingando a mãe, postando documentos jurídicos, juro! Isso sem contar na manipulação de relacionamentos. Eu te excluo se rompo com você, para você saber, para sofrer – me explicaram como funciona.
Lembrei-me de uma professora, Claudia, que amava muito, do primeiro ano da faculdade de comunicação, e que dava aula de Teoria da Informação. Como se fosse hoje, recordei da aula sobre espaços íntimos e o comportamento humano. Os espaços sociais. Entendi ali os comportamentos dentro de um elevador, quando a gente não sabe para onde olha, o que faz, quando está com mais alguém estranho. Esse é o espaço íntimo, do grudado, até uns 15 centímetros, nossa couraça, que a gente fecha e só deixa entrar quem quer, se possível for escolher. Dos 15 cm a 1m20 é o espaço pessoal, pode ter toque, avaliação física, uma conversa mais particular. O espaço social vai de cerca de 1m20 a 3m60, para interações com mais pessoas ou palestras. Já o espaço público, distância de 3m60 ou mais de nosso corpo, serve para reuniões com estranhos ou mesmo para fazer discursos. A gente aqui e a plateia lá.
Essas novas subsubcelebridades estão subvertendo a coisa e o que é pior, isso está pegando. Basta correr os olhos nos portais. Ver os motivos dados aos papparazzis, esse pega para capar e fotografar. O importante é ser notado.
Nessa mesma semana, por outro lado, foi aprovado um projeto importante de punição para crimes cibernéticos, garantindo a inviolabilidade de certos meios e penalizando quem se enfia em espaços íntimos – digamos, não liberados. Condena quem calunia e difama por meios eletrônicos, quem invade sistemas, seja para o crime, com uso de senhas, seja para o roubo de informações, como foi o caso das fotos da atriz Carolina Dieckmann, que inclusive dá nome à lei, que só andou porque ela gritou mais alto. Repercutiu.
Pensando bem, quem sabe essa lei também não possa nos proteger – a nós todos – de informações e imagens como essa da couve-flor?
Senão, teremos de nos mobilizar rapidamente para incluir uma emenda garantindo a nossa sanidade diante da loucura. Loucura que fez virar fichinha o girassol da lapela do Falcão, as roupas e a buzina do Chacrinha, as perucas da Elke Maravilha.
Esse povo novo quer que a gente saiba coisas muito internas deles, até se usam ou já usaram, como virgindade leiloada em praça pública. Internas até demais.

São Paulo, sacolão, 2012
Marli Gonçalves é jornalista Descobriu que tem um site http://desciclopedia.org/wiki/Deslistas:Nomes_populares_para_a_vagina– que listou quatro mil nomes para o órgão sexual feminino, do qual muitas das próprias tem vergonha e, pasmem, muitas nunca nem olharam para a sua própria. Nem para compará-las a qualquer hortifruti.

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