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O bom cabrito que não berrava e o iceberg de titânio

Por Ernande Segismundo

Conheci Ely Bezerra Sales ainda garoto e sua família do bairro do Areal. Participou de um movimento juvenil católico salesiano denominado ‘Amigos de Domingos Sávio’, do qual eu era monitor no Colégio Dom Bosco em fins da década de setenta passada. Seus pais, católicos militantes fervorosos foram seus guias espirituais e exemplos de decência e caráter. Passado algum tempo participamos juntos de grupos de jovens da Igreja e depois perdi contado com ele.
Ao retornar formado da Faculdade em Goiânia em 1990 reencontrei Ely Bezerra no movimento sindical, nas movimentações da CUT e, finalmente, nas fileiras do PT, onde partilhamos lutas e sonhos.
No PT Ely sempre foi um militante altivo e valente, daqueles que não media esforço para nada e não era de enjeitar missões, sempre animado, brincalhão e disposto a dar alguns passos em qualquer salão que tocasse um bom brega, mesmo que fosse em qualquer boteco da beira da 421 ou 429 nos intervalos das jornadas enlameadas ou empoeiradas que fazíamos achando graça.
Nas eleições de 2010 Ely Bezerra participou da direção política e operacional da campanha do nosso companheiro, amigo e irmão Eduardo Valverde ao Governo do Estado e diante da desavergonhada sabotagem do fogo amigo e dos iterativos e desbragados golpes desferidos pelo mesmo fogo amigo contra a campanha de Valverde, Ely Bezerra ficava aturdido e se queixava com Eduardo, exigindo algo como chutar o pau da barraca ante tanta sacanagem. Valverde, do alto da sua peculiar e inabalável serenidade, já plenamente consciente de que aquela jornada não teria volta e deveria seguir silenciosamente para o sacrifício, sempre dizia: ‘o bom cabrito é aquele que não berra’.
Ely Bezerra era assim, um bom cabrito que não berrava nunca. Quando convocado para assumir a Secretaria de Organização do Diretório Regional do PT não vacilou, mesmo acumulando as tarefas com a de Secretário Adjunto do Desenvolvimento Socioeconômico da Prefeitura Municipal de Porto Velho, topou a parada e por absoluta ironia do destino, a 364 ceifou-lhe a vida na sua primeira missão como membro da Executiva Estadual do PT.
Ely Bezerra faleceu em plena luta, em pleno campo da sua batalha pacífica e festiva e por isto mesmo é mártir. Mártir das causas mais nobres da classe trabalhadora rondoniense e das lutas civilizatórias da nossa sociedade.
Já meu nobre companheiro, amigo e irmão Eduardo Valverde, este era um iceberg de titânio de ética política, de decência e de caráter. Digo iceberg porque Valverde era um bloco de água doce flutuando no alto mar da indignidade e da incoerência, de cujo conteúdo a sociedade rondoniense conhecia não mais que 10%.
Valverde tinha algo de Manelão e um pouco de Paulo Queiróz outros dois monstros sagrados do nosso imaginário coletivo que nos deixaram recentemente. Como já dito e repetido inúmeras vezes nas centenas de comentários postados nas matérias eletrônicas, Valverde era de uma radicalidade comovente no trato da moralidade e da ética pública, por isso posso afirmar categoricamente nesta oportunidade para aqueles que ainda não sabem: Eduardo Valverde Araújo, assim como Fátima Cleide Rodrigues da Silva, nunca embolsou para consumo próprio um microcentavo de suas emendas parlamentares liberadas para prefeituras ou quem quer que fosse, nos oito anos de parlamento federal.
Não haveria nada de mais nisso – essa era a sua obrigação, dirão alguns – não fosse a existência de uma prática criminosa institucionalizada no País que é o “mercado negro das emendas parlamentares” e são raríssimos aqueles que não chafurdam nesse latente lamaçal que todos fingem não ver mas sabem que existe. Deputado estadual, federal e senador – via de regra – não faz emenda, vende a 10, 20, 30, 40 e até 50% do que se libera. Este é o preço do atraso ignaro do nosso País.
Em 2001 Valverde venceu a prévia do PT que disputou com José Neumar para o Governo do Estado. No início de 2002 iniciamos conversações com o PDT de Acir Gurgacz para uma aliança branca para o Governo, depois de estabelecermos que nosso objetivo naquele pleito seria o parlamento. Eduardo na oportunidade não queria mais abrir mão da candidatura própria, já havia tomado gosto pela coisa. Depois de muitíssimas reuniões e debates, conseguimos convencê-lo da estratégia e ele cedeu. Depois foram outras muitíssimas reuniões e debates para convencê-lo a sair candidato a deputado federal e nos últimos minutos da última hora do último dia de prazo, ele cedeu novamente e aceitou a candidatura de deputado federal.
Mas quando dissemos a ele que tínhamos negociado com o PDT uma estrutura especial para a sua candidatura, como puxadora de votos para a chapa, como alguns veículos, combustível, pessoal de apoio e material gráfico, ele radicalizou novamente e disse: “Se é para aceitar qualquer privilégio em relação aos demais companheiros da chapa desisto da candidatura imediatamente”.
Certa vez almoçamos juntos no restaurante do último andar do Anexo IV da Câmara dos Deputados. Ao nos dirigir para seu Gabinete, Valverde tirou o extrato de sua conta bancária em um caixa eletrônico. Ao chegar ao Gabinete lá estava o seu contracheque de deputado federal. Ele abriu e me mostrou o extrato, com saldo de cerca de R$ 35 mil negativos e o contracheque, de cerca de R$ 12 mil na época. Ele disse então com sua assustadora tranqüilidade: “Bem, agora só devo R$ 23 mil.”
Valverde era um eterno endividado e um dos seus grandes defeitos era a absoluta incapacidade de dizer ‘não’ a quem quer que lhe pedisse qualquer tipo de ajuda decente.
Registro, no entanto, que esse bloco de altruísmo que lhe era peculiar, Valverde herdou de outros tantos companheiros petistas rondonienses que honraram com primazia os cargos e delegações públicas que exerceram como os ex-deputados estaduais Nério Bianchini, grande empresário de Cacoal e rigoroso na ética pública; compadre Severino Dias da Silva, agricultor de Jaru e reserva moral absoluta do PT rondoniense; Neri Firigolo, que cumpriu três digníssimos mandatos na ALE/RO; Ruy Zimmer, decente ex-prefeito de Jaru, Inácio Azevedo, ex-vereador, ex-presidente da Câmara Municipal de Porto Velho e dirigente da Eletrobrás Rondônia Distribuição; a ex-senadora Fátima Cleide; João Becker, decente ex-prefeito de Cujubim e inúmeros vereadores e prefeitos petistas de rigoroso caráter pelo interior adentro de Rondônia que cultuam e honram os princípios constitucionais da probidade administrativa.
Afora tudo isto, Valverde nunca jogava para a platéia. Era incapaz de enganar ninguém. Exibia sempre o mesmo rosto sereno e o mesmo olhar na retina. Foi duramente criticado pelos sindicatos e a imprensa karipuna quando relatou o PL da transposição na Câmara dos Deputados, recebendo a pecha de traidor e entreguista, enfrentando os mais diversos debates olho no olho enquanto outros parlamentares rondonienses se transformaram em paladinos da bandeira, agradando os incautos com sorrisos de porcelana e tapinhas de granito.
Participamos de inúmeras rodadas pelos bares afora, brincamos vários carnavais, celebramos a vida inúmeras vezes nos mais diversos lugares do Pais, como na última comemoração do seu aniversário dias atrás e na nossa última Banda do Vai Quem Quer juntos.
Perdemos todos uma grande liderança política, um grande guerreiro da paz, um monumento da moralidade. E eu, em particular, perdi um grande amigo e um irmão espetacular.

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Eduardo Valverde: o Senhor da Aliança

Com Tatá e Mara, Valverde na Banda se despedindo do Manelão foto: Basinho

Por Antônio Serpa do Amaral Filho

Na curva da vida dois militantes do Partido dos Trabalhadores encontraram a morte: Eduardo Valverde, uma das maiores lideranças do PT no Estado, e Ely Bezerra, um dedicado e histórico militante, com muitos serviços prestados ao partido e suas bandeiras de luta. Seus corpos, moribundos e quixotescos, exibidos sensacionalisticamente por alguns jornais virtuais, espalharam uma nova onda de dor e sofrimento à comunidade rondoniense, como se fosse o reciclo de uma funesta tsunami revirando de cabeça pra baixo os corações de nossa gente. Morreram como dois construtores de novos horizontes, dois organizadores de comunas, politizadores de trabalhadores do campo e da cidade, dois sonhadores, dois caminhantes, sem dúvida, mas não eram cavaleiros tão errantes assim. E até eram, na medida em que misturavam nos seus corações poções de utopias que antes se tinha por irreconciliáveis: política e religião, o cristianismo e o marxismo. Deus no céu e o homem na terra como único fazedor da sua História. A fé da devoção e a prática histórica da transformação.
A ação política em busca do justo obrigava Valverde e Ely a peregrinarem pelos mais diversos recantos do Estado. E foi assim, como socialistas cristãos, acendendo uma vela pra Deus e outra para o marxismo-leninismo, que os dois tombaram na curva da estrada, em meio ao caminho que os levava ao exercício da política, uma cachaça com sabor de credo que lhes embriagava a alma e incendiava seus corações de agentes transformadores da realidade humana.
Faleceram em missão como dois soldados da democracia, dois leais escudeiros do PT, dois brasileiros procurando as pessoas do povo, seus iguais, camaradas, companheiros e companheiras, campesinos e campesinas, rondonianos e rondonianas, para compartilhar com eles o pão da esperança por dias melhores – melhor para o homem e para a mulher que têm a garganta ressecada pela sede de justiça social, melhor para o trabalhador e para a trabalhadora que mercadejam, de sol a sol, para sobreviver, o ânima de seus corpos explorados, utilizados como matéria-prima na produção dos bens da vida.
Quando a lâmina das ferragens retorcidas feriu de morte os dois peregrinos da política, um grito lancinante ecoou da planície amazônica até o planalto central do Brasil. Sensibilizada com a perda de um grande quadro do partido na região norte do país, a presidente Dilma Rousselff fez menção ao falecimento do deputado petista e falou da importância de Valverde para o cenário político nacional, onde se destacou por seus méritos e competência política muito acima da média brasileira. Seu legado como homem público atuante toma corpo na sua atuação parlamentar, partidária e intelectual. Valverde não era um sujeito carismático, não sabia empolgar nem às massas nem à militância do seu próprio partido. Queria ser governador de Rondônia, não foi. Queria ser prefeito de Porto Velho, e já não pode ser. Na política, desejava ser um executivo, mas sua excelente performance parlamentar parecia sinalizar para o eleitorado que ele não tinha cacife para tanto.Parecia esculpido para o ofício do parlartório, não para comandar máquina administrativa. De Lula pra cá, o Partido dos Trabalhadores mudou muito e Eduardo Valverde, embora inteligente e analítico, parece não percebido a mudança conjuntural de sua agremiação partidária. O clássico romantismo vermelho cedeu lugar a um fenômeno que vem metamorfoseando o PT: uma onda de pragmatismo maquiavélico, no bom sentido, misturada com pitadas de personalismo e desbotamento das tonalidades vermelho, vermelhaço, vermelhão da utopia socialista. A fogueira das vaidades vem assando a batata de muitos correligionários do prefeito Roberto Sobrinho. Tem petista amando mais ao poder que ao projeto partidário; têm militantes pousando de médicos quando na verdade não passam de práticos de farmácia; tem fogo de monturo ameaçando destruir o patrimônio partidário que os petistas históricos edificaram e lutam para mantê-lo intacto.  O PT que deu combate acirrado aos mandos e desmandos de Jerônimo Santana, Osvaldo Piana e José de Abreu Bianco já não é mais o mesmo e por isso precisa se reciclar e se reencontrar, até para fazer jus à exemplar e ilibada conduta política que Eduardo Valverde deixou de herança, tanto para os petistas como para todos os segmentos da sociedade karipuna. O nobre parlamentar não fez da política um palco – lugar de show. Nem fez da sua atuação um teatro do bom mocismo – para agradar ao público em geral. Na sua luta pela melhoria da qualidade de vida para todos, na pólis, ele escolheu a dignidade, a ética, a transparência e o diálogo como condutores fiéis de seu destino.  Com sua áurea franciscana, sabia como ninguém manusear a arte da composição e da conversa. Levou consigo para o túmulo, quem sabe, a decepção de não ter visto a companheirada vestir a camisa da sua candidatura ao governo, na proporção e intensidade que ele imaginara para sagrar-se vitorioso nas urnas – coisa que só o bom e velho Nicolau Maquiavel sabe explicar.
E para quem pensa que a palavra Valverde decorre de uma composição por aglutinação e significa vale verde, pode tirar o cavalo da chuva, já que, com sua morte, ele nos obrigou a descobrir que seu nome, do hebraico, derivado de baal-berith, quer dizer literalmente Senhor da Aliança – o que de fato ele foi na sua trajetória existencial, no parlamento, no partido, no carnaval, no templo, no Mercado Cultural, no amor, na lida, na vida e na morte, para a sorte de todos nós, seus admiradores e herdeiros.

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Conviver com Eduardo foi um privilégio

Por Fátima Cleide

“…Sentinela sou, do corpo deste meu irmão que já se vai, revejo nesta hora tudo que ocorreu, memória não morrerá. Longe, longe, ouço esta voz que o tempo não levará” (Milton Nascimento)

Desde o dia 11 de março o mundo girou aos meus pés. Agradeço em nome de minha família (Silva e Valverde) e da família PT/RO o carinho e o reconhecimento de todas as entidades da sociedade civil, de personalidades políticas e civis, dos amigos e militantes do PT quanto ao meu querido amigo, companheiro e dirigente EDUARDO VALVERDE, esse que para mim sempre será parceiro das práticas corretas, da ética e dignidade na Política.

Valverde, além de companheiro de Partido, de lutas e de sonhos era também um membro da minha família, casado com Mara Regina, minha prima de primeiro grau. Minha vida ao seu lado foi trilhada por décadas com base na solidariedade, no respeito às diferenças e na construção de uma sociedade justa e igualitária.

Minhas palavras, portanto, serão sempre poucas diante da intensidade de nossa relação política e, sobretudo, de parceria e de muita amizade.

Juntos a Anselmo de Jesus, por 8 anos representamos com muita dignidade o Estado de Rondônia e nossa sigla no congresso Nacional.

Defendemos com garra o Projeto de Nação que transformou o Brasil. Fomos fiéis e solidários ao Governo do Presidente Lula. Nos momentos mais difíceis, a coragem e altivez de Eduardo Valverde foram destaque no Congresso Nacional. Ajudamos a eleger sua sucessora, nossa Presidenta Dilma Rousseff.

Com Eduardo, dividi não apenas sonhos mas a luta para concretizá-los. Assim foi com a PEC da Transposição. Ela é Lei Regulamentada hoje, graças ao trabalho articulado de Eduardo como Relator na Câmara e também a nossa credibilidade junto ao Governo Federal.

Tenho orgulho de nossa atuação, hoje reconhecida por prefeitos e pela sociedade civil.
Juntos, articulamos recursos e somamos emendas para garantir que todos os municípios do Estado tivessem acesso aos recursos Federais, transformando-os em benefícios para toda a população.

Juntos, caminhamos na direção de construir e fortalecer o PT em Rondônia, na Amazônia Legal e no Brasil. Juntos, lutamos por Democracia em nosso Estado. Juntos, denunciamos atrocidades cometidas contra o erário público e cobramos Justiça. Juntos, lutamos por direitos sociais de idosos, mulheres, negros (as), índios, crianças e adolescentes, jovens e LGBT’s.
Eduardo foi um político de alma feminista. Compreendeu desde sempre a necessidade de mudarmos o rumo das relações de gênero em nossa sociedade. Atuou como protagonista em todas as nossas lutas.

Conviver com Eduardo Valverde foi um privilégio, um presente de Deus para mim e para tantos que tiveram a oportunidade de desfrutar da sua convivência.

Escrevo estas linhas, tomada ainda por forte emoção. Perco um irmão, um amigo, um companheiro e grande parceiro na liderança do PT em RO. Minha dor é também a de milhares de pessoas que, como eu, queriam muito bem a Valverde. Sinto-me agradecida por ter, por diversas vezes, publicamente, na sua presença em vida, falado tudo isto que hoje é reconhecido por todo o Estado de Rondônia e pelo Brasil.

Ele se foi, mas a sua ação política ficará registrada na história de Rondônia e do Brasil. Ficará marcada para sempre em nossos corações e nos fortalecerá na luta pela construção de uma Rondônia justa e ambientalmente sustentável.
Neste momento de dor, agradeço a Deus a oportunidade de ter convivido com Eduardo Valverde. Peço a Deus que nos conforte e que lhe dê o descanso dos Justos.

Vai Valverde! Descanse em Paz meu irmão!
“…eu fico com a pureza da resposta das crianças: É a vida! É a vida!”
(Gonzaguinha, também carioca e vítima prematura de acidente automobilístico)

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Relações entre cultura e desenvolvimento

Por Mariangela Aloise Onofre

De acordo com Bosi (1992), “cultura é o conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência social” (pág.16). Ainda de acordo com esse autor, nas sociedades urbanizadas a noção de cultura foi associada a melhores condições de vida, fato almejado por todas as classes e grupos sociais.       A partir do séc XVIII a cultura foi associada à noção de progresso tecnológico, fazendo com que a cultura passe a desempenhar um papel central no que tange ao desenvolvimento das nações mais pobres.         O ser humano, enquanto ser biológico possui funções orgânicas de alimentação, repouso, respiração, entre outras, que garantem sua sobrevivência. A forma como essas funções serão desempenhadas será dada, em última instância, pelas relações que se estabelecem entre o ser biológico e o ambiente, o que significa dizer que a permanência dos grupos humanos em seus ambientes será mediada pelo conjunto de significados, crenças, valores, formas de fazer e estruturar pensamentos e atitudes reunidos sob a noção de cultura.      O processo de globalização envolve o progresso tecnológico dos sistemas de comunicação, possibilitando o acesso a diferentes sistemas de significados. A lógica da dominação econômica torna-se a lógica da dominação cultural, fazendo com que a o modo de vida dos mais ricos seja legitimada ideologicamente através da circulação de bens e produtos culturais desses paises pelos grupos economicamente mais pobres, que passam a rejeitar e marginalizar seus próprios sistemas de significação e conhecimento, pondo em risco as diferenças identitárias entre os povos, o que levou a elaboração da Agenda 21 da Cultura que afirma que a diversidade cultural é tão importante para a humanidade quanto a diversidade biológica, fator que nos remete imediatamente a uma necessidade de pensar sobre as culturas amazônicas como elementos a serem incluídos dentro da polêmica discussão sobre desenvolvimento sustentável, cujas contradições conceituais não nos cabe discutir neste ensaio.Segundo Loureiro (1995), a expressão cultural que usualmente é identificada como cultura amazônica, é aquela de predominância rural, localizada entre as populações ribeirinhas, repletas de imagens da floresta. No entanto, há que se considerar  que a cultura urbana das cidades localizadas na região amazônica possuem  peculiaridades diretamente relacionadas ao processo de ocupação da região e sua situação geográfica. Assim, entendemos que aquilo que chamamos de Amazônia não existe como unidade cultural e que os processos colonizatórios estabeleceram, a nível local, as mesmas relações depreciativas com a cultura nativa, da mesma forma que a cultura dos paises ricos se legitima em detrimento da cultura dos paises pobres, a nível global. Tal situação gera implicações na geração de emprego e renda, na formação de mão de obra, nos sistemas educacionais e na própria maneira de se relacionar com o meio ambiente. Além disso, a ausência de políticas  que valorizem a produção cultural local, aliada a crescente expansão da televisão que  passa a privilegiar como de melhor qualidade a produção dos grandes centros brasileiros torna a cultura urbana das cidades amazônicas profundamente marcada pela ausência de expressões culturais que delimitem os traços identitários que possibilitem traçar parâmetros para as ações de desenvolvimento sustentável, referenciado pelos números de crescimento econômico. Em um mundo em que a facilidade tecnológica torna os  produtos  cada vez mais semelhantes, somente as culturas que conseguem estabelecer o seu próprio diferencial (sua própria identidade) conseguem consolidar  seu espaço competitivo no mercado.        Finalmente, a leitura desses índices deve ser subsidiada pelas informações qualitativas, acrescentando à  idéia de que a sustentabilidade deve contribuir também para a legitimação dos diferentes modos de vida das comunidades.

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Grande Angular

foto : B. Bertagna

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Fidel : 2 meses

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Apoio à agropecuária e a segurança alimentar

Por João Guilherme Sabino Ometto, vice-presidente da Fiesp e coordenador do Comitê de Mudanças Climáticas

O ano de 2011 inicia-se com uma pergunta chave, que dominará os debates sobre a política macroeconômica ao longo dos próximos meses: como se comportarão os preços dos produtos alimentícios, após terem contribuído com 39% do IPCA, medido pelo IBGE, em 2010? A questão, alinhada ao tema mundial da segurança alimentar, certamente não encontrará unanimidade entre os experientes analistas do mercado agropecuário, pois o ano passado foi prodigioso no sentido de “furar” as mais embasadas previsões.

Um bom exemplo é a carne bovina. A oscilação de seus preços decorreu de duas causas: a redução da quantidade disponível para consumo nos principais produtores, como Argentina, Estados Unidos e Austrália, em função do maior abate de matrizes, iniciado em 2006; e o crescimento da massa salarial do brasileiro, de 34% nos últimos cinco anos, que pressionou a oferta já combalida. Como resultado, o preço testou vários patamares ao longo ano, chegando a um aumento acumulado de quase 30%, surpreendendo a muitos.

Outros itens, como o leite e o feijão, encontram nas intempéries, como as secas prolongadas ou as chuvas em excesso, grande parte das explicações pela elevação dos preços. Embora se possa prever com relativa confiabilidade a ocorrência desses fenômenos, dificilmente acerta-se na sua intensidade. No caso do açúcar, a Índia continua sendo o grande fator de desequilíbrio de um mercado internacional demandante.

É muito provável que, para alguns segmentos do agronegócio, as majorações gerem estímulos ao incremento da produção, com impactos positivos nos vários produtos que compõem a cesta “alimentos e bebidas”, monitorada pelo IBGE, como o feijão e o leite. Entretanto, as intempéries, os desajustes da produção mundial e o aquecimento econômico dos países em desenvolvimento, com destaque para o Brasil, podem contrariar essa lógica.

É justamente nesse cenário de pressão de preços de alimentos, resultante da demanda esticada e da oferta curta, que é enfático o papel do Brasil como um dos mais importantes supridores. Temos respondido com eficácia ao incremento de oferta, com ganhos sucessivos de produtividade, como no emblemático caso dos grãos: desde 1990, esses foram cerca de três vezes superiores à média internacional, o que contribuiu para que o mundo acumulasse um tênue, mas importante superávit nesse grupo de produtos. O exemplo estende-se, como é sabido, a vários outros setores.

Dado o papel de protagonismo do País nesse sensível equilíbrio em termos de abastecimento mundial, fica o alerta de que necessitamos dar seguimento aos ganhos massivos de produtividade. É por essa razão que parece mais lógico o Governo Federal olhar para o produtor brasileiro antes das safras, para entender a sua realidade e atender às suas legítimas necessidades, como um seguro agrícola eficiente e acessível e um forte incremento dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Tal atitude seria muito melhor do que constatar, nos futuros índices de preços de alimentos, que poderia ter feito algo a mais pelo setor, pelos brasileiros e pelo mundo, pois nosso país é o que tem as melhores respostas para a prioritária questão da segurança alimentar.

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