Arquivo do dia: 18/09/2012

Pranto Geral dos Indios

Cel Rondon e seu jovem amigo Tacuatépe

Chama-te Maíra
Dyuna
Criador

seria mentir
pois os seres e as coisas respiravam antes de ti
mas tão desfolhadas em seu abandono
que melhor seria não existirem
As nações erravam em fuga e terror
Vieste e nos encontraste
Eras calmo pequeno determinado
teu gesto paralisou o medo
tua voz nos consolou, era irmã
Protegidos de teu braço nos sentimos
O akangatar mais púrpura e o sol te cingira mas
mas quiseste apenas nossa felicidade

Eras um dos nossos voltando à origem
e trazias na mão o fio que fala
e o foste estendendo até o maior segredo da mata
A piranha a febre a queixada a cobra
não te tratavam o passo
militar e suave
Nossas brigas eram separadas
nossos campos de mandioca marcados
pelo sinal da paz
E dos que assustavam pendia o punho
fascinado pela força de teu bem-querer
ó Rondon, trazias contigo o sentimento da terra

Uma terra sempre furtada
pelos que vem de longe e não sabem
possuí-las
terra cada vez menor
onde o céu se esvazia de caça e o rio é da memória
de peixes espavoridos pela dinamite
terra molhada de sangue
e de cinza estercada de lagrimas
e lues
em que o seringueiro o castanheiro o garimpeiro
[bugreiro colonial e moderno
celebram festins de extermínio

Não deixaste sós quando te foste
Ficou a lembrança, rã pulando nágua
do rio da Dúvida: voltarias?
Os amigos que nos despachaste contavam de ti sem luz
antigo, entre pressas e erros , guardando
em ti , no teu amor tornado velho
o que não pode o tempo esfarinhar
e quanto nossa pena te doía

Afinal já regressas. É janeiro,
tempo de milho verde . Uma andorinha
um broto de buriti nos anunciam
tua volta completa e sem palavra
A coisa amarga
girirebboy circula nosso peito
e karori a libélula pousando
no silêncio de velhos e de novos
é como o fim de todo movimento

A manada dos rios se cala
Um apagar de rastos um sossego
de errantes falas saudosas paz
coroada de folhas nos roça
e te beijamos
como se beija a nuvem na tardinha
que vai no rio ensangüentado

Agora dormes
um dormir tão sereno que dormimos
nas pregas de teu sono
Os que restam da glória velha feiticeiros
oleiros cantores bailarinos
extáticos debruçam-se em teu ombro
ron don ron don
repouso de felinos toque lento
de sinos na cidade murmurando
Rondon
Amigo e pai sorrindo na amplidão

Carlos Drummod de Andrade

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