Arquivo do dia: 16/09/2012

Koágulos de Psikodelia

Foto: Z. Santos

Não podíamos vislumbrar os desejos do tempo
mas podíamos acessar os desenhos do espaço
onde esse tempo estava contido.
Tínhamos atalhos, malícias alquímicas, pastilhas de lisergia…
e mergulhávamos nos desígnios do caos
por amor á todas as dimensões…
Lá, os deuses de marfim dançavam
riam de nossa inércia subatômica,
E nós, que superamos os deuses, riamos de nós mesmos
Pois não podiamos evitar nossa auto-desprogramação nuclear
nem conter nosso multiuniverso posto á prova.
Por nossa própria vontade abdicamos do ego
e só nos restou a habilidade de contemplar as moléculas
de cada uma daquelas galáxias errantes…
Tínhamos cinko horas de tranze,
para rir da passagem das eras
e se masturbar com a própria nudez…
Modulavamos nossas ondas de pensamentos
para observar, tão somente observar,
as legiões de divindades que destruíam e criavam universos…

E quando despertamos
Numa morning glory
Os deuses eram só koagulos de luz…
assim como nós.

Coletivo Editorial do CCP

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Diz a lenda – quem se lembra do cheiro da casa da sua avo ?

Por Beto Ramos

Hoje, senti saudades da casa de minha avó.
Senti o desejo de chegar e abrir aquele portão barulhento, rangendo junto com o latido do cachorro Veludo.
Senti saudade de chegar à janela de madeira, bem larga, e pedir a benção de minha avó.
Na casa antiga, construída por meu avô, existia de tudo.
Lembro-me do pequeno fogão sempre cozinhando alguma coisa.
No centro da cozinha, uma mesa quadrada com uma farinheira de madeira, uma fruteira sempre com muitas bananas prata.
Dentro da petisqueira, a garrafa de café bem forte.
Na parede um antigo quadro do Sagrado Coração de Jesus.
Perto da janela sempre respondendo com bom humor, ficava minha velhinha numa cadeira de balanço, pra lá e pra cá.
Senti saudades do cheiro da casa de minha avó.
Ela sempre usando os vestidos largos e coloridos, com anágua.
Amarradas na alça do califon, as chaves que abriam os baús da casa.
Somente ela abria tudo.
Sempre no ar um cheiro de Vick Vaporub .
E ali ficava o paraíso que hoje me faz tanta falta.
Quando minha avó substituiu o pote pelo filtro, o sabor da água mudou.
Hoje, guardo na minha casa o filtro que era da casa da minha avó.
Não me desfaço dele por nada.
Muitas vezes minha avó ficava lendo algum livro ou revista por muito tempo.
Detalhe: A revista ou o livro de cabeça para baixo.
Mas, ela já vinha com a resposta pronta.
– Quem sabe ler, lê de qualquer jeito!
Nos jogos do Brasil, quando apareceu televisão por estas bandas, minha avó torcia muito.
Acendia vela, rezava e soltava alguns palavrões ao mesmo tempo.
O engraçado é que após muito tempo do jogo começar ela perguntava:
– Pra que lado o Brasil está atacando?
Hoje senti saudades do cheiro da cama da minha avó.
Dos perfumes usados no domingo quando éramos obrigados a frequentar a missa.
O tempo passou tão rápido.
Estranho é ter que fechar os olhos para lembrar coisas tão simples e que fazem tanta falta.
As ruas continuam iguais, e não existe mais a casa rodeada de plantas e pés de frutas de todo o tipo.
Hoje, vejo minha neta entrar na minha casa sorrindo.
Será que a minha casa possui o cheiro da casa de minha avó?
Será que minha netinha vai guardar lembranças do que sou?
Como diz o Toquinho em uma de suas canções, “Só não me esqueça num canto qualquer”.
Aqui na minha casa pode faltar tudo, menos café.
Café forte durante o dia inteiro.
Talvez seja uma forma de trazer para dentro da minha casa o cheiro da casa da vovó Raimunda.
Será que sou um bom avô?

Diz a lenda

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TED is bullshit -Walter me trocou por uma moca (via Epimenta)

– Eles estão invadindo!

— Hum?

— Eles estão pilhando, estuprando e envenenando as águas do reservatório!

— Mama, go sleep… As suas palavras cruzadas…

Minha mãe está demente. Ontem pôs cinco vestidos, um em cima do outro, desceu o elevador e marchou sem destino pela avenida Sumaré até cair com o rosto no chão e ser atendida por uma unidade móvel de socorro. Foi depois levada para uma unidade de tratamento intensivo, de onde já saiu. Minha mãe, uma mulher soberba que possuiu metade das propriedades do Jardim América. Hoje reluto em entregá-la a uma casa de repouso. Casa de repouso. Porque se não for isso terei de ficar com ela todas as horas do dia até a sua morte — a genética indica que ela pode atingir os 117 anos.

Enquanto isso, tenho pensado bastante sobre os dezessete minutos. Os dezessete decisivos minutos. Parece pouco, mas não é, sobretudo nesta época de plateias ansiosas. Não é a brevidade superficial dos quinze e tampouco avança sobre o terreno movediço dos vinte, que inconscientemente é como se fosse meia hora e aí andamos já no incerto reino temporal dos bocejos. Por isso o mágico David Blane prendeu a respiração em seus dezessete e todo mundo ficou eletrizado.

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Assalto ao alto

Теxto e foto de Valéria del Cueto
Depois de embarcar naquela, os percalços dessa. Na saída de Floripa foi sorte que não estar chovendo. Depois de desfilar pela pista do aeroporto só os privilegiados da porta da frente tiveram direito a cobertura na escada que leva à aeronave. Ao povo da porta de trás, das poltronas com numerações mais altas, restaria a chuva mesmo…
No alto da escadinha uma mocinha aponta a arma: um folheto com os simpáticos preços de qualquer coisa que você venha a consumir a bordo.
Nem passarinho, nem macaco, somos mais. Como nos tempos das barrinhas de cereal ou pacotinhos de amendoim. Animais não sabem usar o dinheiro, lembra?
Agora somos vítimas de um absurdo achaque. Uma aguinha custa R$4,00. Assim como um cafezinho, inho. Refri em lata é 6 “real”. Já o combo de sopa/água (argh) é de dez mas, se trocar por um refrigerante, pula pra 13. Os sandubas, que beleza, saem de R$14. Todos com carnes voadoras. Filé de frango ou peito de peru. Não come carne? Pague e tire. Os combos minis, líquido mais sandubinha, todos com presunto, custam de 10 pratas pra riba. Cerveja (oba, dizem) com 15 gramas de amendoim ficam por 7.
Não vai aguentar o voo sem pelo menos uma àgua?  Saque o cartão e reze para passar na maquininha. Moeda só a nossa. Essa é a (in)grata realidade. ÁGUA DEVERIA SER DE GRAÇA,  dona companhia. Chamem a ANAC!
A crueldade que fecha o embrulho pra presente com laçarotes de fitas de seda é o energético de 10 pilas. Aquele plus pra quem se encontra no interior de uma aeronave a alguns mil pés de altura. Pode pirar, pode surtar, pode agitar. O produto se chama I-N-S-A-N-O!
Assim como o atendente para quem havia solicitado um assento em que pudesse ir fotografando a costa e me colocou do lado oposto, onde meu horizonte é o Atlântico entre nuvens. Tudo poderia ter ficado assim, pelos ares. Já teria rendido uma crônica. E pronto.
Prontos ficamos nós passageiros que, no Santos Dumont, tivemos que ficar pacientemente esperando na pista –  no sol junto a aeronave – enquanto o ônibus embarcava a primeira tropa, levava os passageiros ao terminal de desembarque e voltava para buscar a segunda turma que se refugiou nas sombras das asas do avião. Isso, nunca tinha visto. Mas há sempre uma primeira vez.
E uma segunda ou muitas outras também, quando o assunto é mala danificada no voo. Não deu outra. Quando fui pegar a bagagem, o puxador estava quebrado e ela meio lanhada do lado. Cheia de experiência procurei o funcionário da companhia que fez o registro da quebra do puxador, mas disse que a detonação era do “manuseio no terminal”.
Ele me explicou que a mala seria arrumada, mas que “era praxe da companhia” que o passageiro levasse a mala até a loja, no centro do Rio de Janeiro. Não precisei demorar muito a convencê-lo a mandar buscar a mala na minha casa. Não foi o argumento lógico de que o custo do transporte de ida e vinda seria muito maior que o conserto da mala que o convenceu.
Quando perguntou se, então, eu poderia entregar a mala para ele ali, na hora, disse que poderia sim. Só precisava que ele tivesse paciência e esperasse  até que tivesse tempo de montar minha câmera ou chamasse uma televisão que se interessasse em registrar a cena “non sense” das roupas amontoadas no piso do terminal. Antes da publicação desse registro diz a lenda que a mala estará no abrigo do meu lar.
Entrei de gaiata nessa viagem surreal, como disse na primeira parte dessas incríveis aventuras no bolicho voador!
Vale registrar: de tudo a venda na birosca só achei um produto desejável e aproveitável. Na contra capa, junto com dois livrinhos da Disney, na parte infantil, havia um aviãozinho de borracha para bebes por módicos seis reais. Na próxima vez, pela Web Jet, só nesse eu  quero voar. De preferência na banheira lá de casa…

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM.delcueto.cia@gmail.com

 

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