Anjos Caídos (Queda)

Por Cátia Cernov

Era uma vez um quintal clandestino:
Camuflado de olhos angulares

Cercado de dentes e mentes armadas
E resguardado por navalhas de carne.
Ali, os sobreviventes da hecatombe da lei,
Reinventavam cercas muros e viadutos paralelos

Nesse quintal não havia culpa, mas também não havia perdão!
Só crianças que precisavam crescer
Roubar, mentir e consumir narcóticos.
Todo sonho era distante, toda imaginação era maculada
E se configurava conforme eram as fatalidades da terra.
Então o universo lhes permitiam habitarem as esquinas
Terem seus corpos subnutridos e deformados pela história…

Compartilhavam dos restos, vendiam os sexos
Riam dos bêbados nus e do tempo que nunca passava
Das manchas que brotavam nos pequenos seios.
A treva se prismava de seus olhos piratas
E as mãozinhas empunhavam estiletes de prata:
Reflexos de bichos em estado de sobrevivência…

Nenhum poder havia deixado de ser experimentado
Todo jogo havia sido blefado
As crianças mergulhavam nas pedras de cracks
Desalinhavam a mente pra reinventar paraisos
Depois acordavam famintas
E deliravam brinquedos no asfalto quente…

Nenhuma ascenção e queda os impediam
Ignoravam moral etica
as filosofias
as ciências direito esquerdo
religião e educação
Sequer acordavam antes das dez!
Bastardos descalços,
As crianças brincavam nos pântanos de wall street
Estendiam suas mãos magras á Apolo 11
Depois despencavam nuas dos céus de outdoors…!

 

1 comentário

Arquivado em Delírio Cotidiano

Uma resposta para “Anjos Caídos (Queda)

  1. norma7

    Beto:
    Esse “quintal clandestino” – esse “Pátio dos Milagres” (“Pois neste pátio que opera milagres//É sempre um milagre sair sem caixão.”) – com palavras tão lindamente tecidas é uma realidade facilmente comprovada em vários ‘sítios’ do RJ, independente da imagem da TV de que tá tudo muito bem – tá tudo muito bom….
    E por mais que o meu racional reconheça o valor lírico da obra, o meu tosco coração diz: Isso não presta! Vais fazer o que?
    ++++++++
    O Pátio Dos Milagres
    O Corcunda de Notre Dame

    Todos ouviram falar de um pátio,
    No qual a ralé escolheu pra morar.
    E vocês dois já conhecem o pátio,
    Que é dos milagres, pois já estão lá.
    (…)

    Sua inocência podemos ver,
    O que ainda é pior,
    Pois então vão morrer.

    +++++++++++++

    Pior que a Poesia ou o cigarro em mãos impúberes – o que me doi mais é o olhar (envelhecido/cansado de ‘ver’) da menininha e as ‘bolsas’ (maquiagem? ainda prefiro!) sob os olhos. Contudo, apesar da dureza do ass., é uma bela poesia. Grata e Boa Sorte.
    Nac.

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