Garotos de Aluguel.(via Entre todas as coisas)

Nunca soube dar um nó na gravata. Essa coisa me aperta o pescoço e me faz sentir sufocado. Nem de frente pro espelho eu acerto um nó. E que gravata é essa que ela me deu? Vinho. Falta terminar uma taça ainda antes de sair. O colete não combina com o resto do paletó, mas que se foda. Meu cabelo não anda lá grandes coisas, mas pelo menos fiz a barba. Ela não gosta de sentir arrepios. Nem no rosto, nem no corpo. Acho que isso explica muito sobre como são as coisas que ela vive e os presentes que me dá. Uma gravata ou uma coleira. Ela só quer saber que está no controle da situação. Custe o que custar. Quem paga por isso sou eu.

O problema é que não tem espelho ou gel de cabelo que me façam parecer melhor. Eu sou sempre a velha cópia arrumada que sorri pros amigos dela, e que a leva pra casa em segurança. O velho amigo das noites de insônia. O único telefone ligado nas madrugadas da cidade. E essas olheiras não são de trabalho, nem de preocupações. São todas por conta dela. Que divide a cama comigo, a janta comigo, a tela do cinema comigo. Mas não se divide. No fundo, eu me sinto como um daqueles garotos de aluguel que são pagos para fazer companhia. Só sentar e conversar e acabar com a solidão dela. Só atender ao telefone e sair. Sem tocar nos assuntos ou nas resistências dela. Sem mexer nas feridas ou nas cascas dela. Eu sou um amante indolor que ela escolheu pra passar o tempo. Eu mendigo um espaço num quarto-e-sala da sua vida pra não faltar carinho. Ou você acha que eu pediria açúcar uma vez por semana à toa?

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