Arquivo do mês: setembro 2012

Vamos bater panela ?

Por Marli Goncalves

Contra a mentirada. Contra a imposição de pensamento. Contra usarem religião e botarem Deus em tudo. Contra a corrupção. Contra a violência. Contra a falta de senso. Contra a banalidade, contra a gente não poder comer chocolate todo dia… “Vamobatêlata”!”Vamobatêbumbo!” Contra a censura!

Durante muitos anos e até há bem pouco tempo mantive guardada uma panelinha linda. Ela era daquelas boas, pequenina pero cumpridora, bem antiga, inox sólido, Rochedo, tipo caçarola, e toda amassadinha, de tantas manifestações de que participou, junto de uma amiga colher. Qualquer bronca que aparecia e queríamos protestar, lá ia ela comigo para a janela fazer barulho, durante alguns bons minutos. Funcionava, porque muitas donas de casa participavam, em geral às seis da tarde, e vocês bem sabem que mulher quando entra na brincadeira, aproveita e desconta, fazendo barulho, batendo com força já que não tem um daqueles sacos de treinar luta de boxe…Levanta o braço aí quem lembra disso!

Essa imagem me veio à cabeça esta semana e imediatamente lembrei da minha panelinha e me arrependi duramente de tê-la jogado fora em uma dessas faxinas que a gente tem de fazer de vez em quando, principalmente quando muda e quer carregar tralhas a menos. Acho que pensei que nunca mais iria querer ou precisar usá-la; afinal o país tinha se livrado da ditadura, do Collor (última vez que me lembro de bater panela), do alto custo de vida, de gente dizendo o que podíamos ver ou não. Ledo engano. Esta semana, se eu ainda a tivesse, a teria usado fazendo barulho para alertar a quem pudesse. Ou, se o tal deputado Protógenes Queiróz, do PCdoB, passasse por mim, corria o risco de ele próprio levar uma panelada pra se tocar, por tentar impor a moral de meia tigela dele.
Patrulheiro da moral? Não é que esta pessoa chegou a pedir que o filme Ted, que todo o mundo sabe que é estrelado por um ursinho de pelúcia bem malandrinho, que fuma maconha, gosta de mulher, etc. e tal, fosse proibido, porque o enlatado entalou a mente dele? Tudo porque- desculpem: burro ou sem noção? – levou o filho, o “pequeno Juan”, de 11 anos, para vê-lo? O filme tem classificação correta, de 16 anos.
Protógenes e o pequeno Juan, carregado junto na lama, passaram para a história com seus 15 minutos de chacota como fama. Envergonha ele próprio, o filho, e um pouco mais o partido, PCdoB, que mal ou bem tem um passado de lutas importante a ser citado, e que podia ao menos repreendê-lo, lembrando disso. Até agora, qual o quê!
O assunto é ainda mais sério do que este, do ursinho americano com que o tira deputado implicou. Vira e mexe a censura volta à baila com algum celerado, sozinho ou com uma entidade que nunca ninguém ouviu falar, mas que se arroga a defender “interesses populares”, tentando proibir alguma coisa. A arte e a cultura são sempre os principais alvos, e agora implicaram com meu Monteiro Lobato de novo, por causa de Negrinha, de 1920.
Não ousem tocar nas obras de Lobato nem na de ninguém, nem em parte alguma, incluindo as de gente com as quais eu jamais concordaria. Obra de arte é sagrada, a literatura é sagrada; filmes são sagrados. Toda criação é sagrada, pois. Por uma Primeira Emenda em voga no Brasil de forma mais clara.
Corremos o risco de ver de novo as odiosas tarjas pretas cobrindo até nossos pensamentos, mas não as nossas vergonhas. Urubu querendo controlar a imprensa porque ela descobre as coisas nas quais adoram sentar com seus traseiros gordos, manipulando a informação entre amigos bem alimentados e pagos com verbas oficiais.
Não podemos deixar nem um teco do germe prosperar, sob pena de criarmos exércitos de delatores, X-9, dedos duros. Sob pena de uniformizarmos ainda mais as ideias que a cada dia já parecem mais frouxas, brochas, inodoras.
Vão censurar os escritos nos banheiros da vida. Lá fora (com reflexos aqui) um filme idiota, totalmente idiota, está matando por conta de um fanatismo religioso que tenta se instalar no país da diversidade pacífica até agora. Aqui, o diretor do Google pegou uma cana de algumas horas por conta da reclamação de um político de quinta. Tão caindo de pau na capa da revista que crucificou o Neymar. Mais de uma centena de estudantes de uma escola particular de alto nível em São Paulo foram suspensos apenas porque protestaram contra a imposição de um reality show nas salas de aula, com instalação de câmeras. E os diretores ainda argumentaram que com isso vão coibir …o bullying!
Que tipo de gente queremos formar nas nossas escolas?
Não é saudosismo, mas a pura constatação que muita coisa está deixando de ser vivida pelas gerações que chegam. Às vezes lembro de coisas que fiz (ou melhor, que nós fizemos), das roupas que vesti (que nós vestimos), dos lugares onde andei (onde nós andamos), artes e manhas praticamente impossíveis de ser repetidas. Mesmo nos piores momentos do país buscávamos e obtínhamos pelo menos nossa liberdade. Individual. Cada homem um manifesto completo, no arrojo de um cabelo comprido, uma calça justa, poncho e conga, da lavra do insubstituível Telmo Martino. Há fotos desses momentos no álbum, no fundo de gaveta de muita gente boa por aí, acredite. Éramos ridículos e felizes. Com calça boca de sino. Cintura alta.Baggy. Calça calhambeque. Bota branca. Kanekalon. Bolerinho.
Era possível. Podia nascer Secos & Molhados. Rogéria e Roberta Close, Dzi Croquetes, tanta coisa doida. Hoje não pode.
Éramos felizes e não sabíamos.

São Paulo, procurando um megafone para já ter por perto, 2012

Marli Gonçalves é jornalista– Primeiro, dedico a Hebe Camargo, a mulher que nunca ninguém ousou censurar. E lembro que “eles” já tentaram proibir até que usássemos uma camiseta, que era muito comum na época, escrito COCAINE com aquela letra ondulada da Coca-Cola. Claro que uma luta inglória. Tenho a minha até hoje, no meu acervo.

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Para-choque de blog

“O único homem que está isento de erros é aquele que não arrisca acertar” – Albert Einstein

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A mala abalada – ação e reação

Texto e foto de Valéria del Cueto

Onde estava eu? Num lindo início de tarde de sábado, com sol brilhando lá fora e João, do Rei das Malas, a me avisar que, apesar de ter meu contato e prestar serviço para a Web Jet, a mala verde que havia apanhado no aeroporto, ao contrário da minha, simplesmente não tinha puxador, o tal que havia quebrado na viagem Florianópolis/Rio…

Sabe quando você não quer fazer uma coisa, mas tem a sensação de que deve fazê-la para não deixar furo e/ou se arrepender muito depois por não tê-la feito?

Na segunda crônica da série “percalços aéreos 2012” (já houve outra, com outra companhia, antes), mencionei a possibilidade de fotografar a entrega da mala no próximo aeroporto, já que o funcionário havia informado que eu teria que levar a mala até a loja, no centro do Rio, ou entrega-la ali, na hora. Pois então, depois pedir um tempo para montar a câmera e ele concordar em busca-la em casa, senti minha espinha dorsal ser percorrida por aquela sensação do “faça agora ou arrependa-se para sempre”. Tirar fotos mesmo que com o celular da detonação do material reclamado foi um desses casos felizes em que fiz o que deveria ter feito, conforme ordenava minha intuição.

Comprovei o fato no meio da conversa só de um pé e meia cabeça com a loja monárquica de malas, quando lembrei que de checar as fotos feitas no aeroporto, o que confirmou, inclusive, a existência de uma identificação com nome e telefone na parte de baixo da bagagem, entre as duas hastes do puxador gambeta.

Definitivamente, a mala de lá não é a mala de cá, João decretou, após comparar sua hóspede com a foto que mandei por email no início da tarde daquele sábado radioso, segundo o texto que aqui reproduzo (para não acharem que essa narrativa é apenas fruto da minha  imaginação): “A MALA QUE ESTA AQUI NA MINHA LOJA NÃO É A DA SENHORA. DEVE TER VINDO ERRADA, VOU A AEROPORTO PEDIR MAIORES INFORMAÇÕES. ABRAÇOS JOÃO FARID. VOU COMUNICANDO A SENHORA DO ANDAMENTO”

E nada mais aconteceu no final de semana, além de umas tuitadas para a Web Jet passando o número do protocolo e pedindo providências. Eis a resposta: “@delcueto Envie um e-mail para o falecom@webjet.com.br, informando o localizador e número de RIB, para que possamos verificar o ocorrido”. Traduzindo: “continue trabalhando para nós, trouxa”. Preferi ignorar e aguardar os acontecimentos. Na terça pedi notícias por email à loja. Fui informada que João havia entrado de férias e que ainda não havia notícias do rastro da mala. Nesta mesma tarde – vejam que sintonia – recebi uma ligação em que perguntavam quando poderiam entregar minha mala. Pelo que pude entender era a moça da primeira loja, de onde a dita cuja nunca havia saído e se mantinha alheia ao drama que protagonizava e aqui descrevo…

Assim teria terminado a novela não fosse o ato final da Brasil Malas, a que havia vindo buscar a original, nem primeira, nem única. Quando ela chegou  veio coberta por um camada de poeira, tipo de rua.  Muito suja. O puxador que motivou o desenrolar de metade da quase novela desta praticamente indescritível aventura que é voar pela Web Jet, não é mais o mesmo, substituído por um genérico, com um shape bastante diferente do tragicamente danificado, com menos possibilidades de regulagem. A fixação não ficou exatamente encaixada, o que deixa um vão de alguns milímetros perfeito para enganchar objetos em momentos de confusão aeroviária. Em contrapartida colocaram uma ponteira de zíper no fecho que estava faltando. Cansada, aceitei a entrega. Tudo ficaria bem se o rapaz não me pedisse para assinar um termo que terminava assim: ”…razão pela qual dou pena quitação a MALA BRASIL Comércio e Serviços para nada mais pedir ou reclamar em juízo ou fora dele a esse respeito”. Fiquei com a mala abalada, mas não assinei o termo.

A vida é assim, o momento em que vivemos: as eleições. Aqui e aí localizo os mesmos elementos: vítimas, algozes, ações e alguma possibilidade de reação. Dessa, que nunca devemos desistir! Falta uma semana…

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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Gente que encontrei por aí… Fátima Cleide

Fátima foi atuante na Comissão de Educação, acumulou experiência no Senado e  trouxe muitas emendas para os municípios de RO,  principalmente Porto Velho. Hoje ela é  a candidata do PT  para a sucessão do atual prefeito e tem muito prestígio entre as galeras da educação e da cultura.  Autora da PEC da Transposição, amiga pessoal de Lula e da Presidente Dilma, em tempos das mulheres no poder,  Fátima pode ser a mulher que Porto Velho precisa prá ser reorganizada.  Fátima é ficha-limpa e seu nome inspira respeito e admiração, pois tem uma história de lutas e de conquistas.

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De repente. (via Entre todas as coisas)

Por 

– Tá, mas começa do início… Isso foi do nada? De repente, você olhou pra mim e percebeu que as outras pessoas tinham se tornado desinteressantes? Ou essa é só mais uma das suas crises de orgulho ferido, amor ferido ou como quer que você queira chamar?

– Você nunca sentiu isso? Aquele estalo que dá quando você começa a enxergar alguém de um modo completamente diferente? É meio que assim… Num dia desses, eu tava do teu lado na aula de inglês. Aquele babaca que sempre vem te cantar tentou fazer isso pela décima vez só essa semana. Ele disse que trocaria um jogo de futebol por você – na tentativa de ser fofo. Você riu e dispensou. Quando você virou pro lado, eu disse que pararia por você.

– Eu sei, eu me lembro disso. E você me surpreendeu. Quer dizer, não é como se a gente nunca tivesse tido nada. Mas você sempre foi aquele meu amigo colorido… Achei que sempre tivesse sido assim. Quando a gente tinha nada pra fazer, a gente ficava junto. Temporariamente. Até você soltar a minha mão ou me ligar contando sobre uma dessas meninas que vão partir o seu coração em duas semanas.

– Ou até você contar de novo como é o homem dos seus sonhos – e eu reconhecer, mais uma vez, que eu não me encaixo no seu arquétipo ideal. Mas isso não me importou muito. De repente, eu olhei pro lado e vi que sentia ciúmes de você. Eu já não gostava muito desses caras durões com quem você saía, e passei a odiar cada um deles por te chamarem pro cinema no meio da tarde. Eu me vi num daqueles jogos de resta um – você podia ser a companhia de qualquer um deles, mas eu sempre ficaria sozinho. Não ser o tal cara da sua vida era penoso – mesmo que fosse na minha cabeça…

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São Paulo está chata demais (via Pensamentos de Ovelha)

foto: Daniele Queiroz

foto: Daniele Queiroz

Está cada vez mais difícil viver em São Paulo. E digo isso sem nem entrar em tópicos como o o ônibus e o metrô custarem abusivos três reais, passarmos quase dois meses sem chuva em pleno inverno ou favelas praticamente fazerem uma misteriosa autocombustão. O meu ponto é que não está  fácil levar uma vida mansa em SP. Daquelas onde “ninguém mais bebe bebida que não tenha um bocadinho de matéria alcoolizante, a Coca-Cola é relegada ao olvido e cachaça e cerveja muito, que é bom pra alegrar a vida”, como sonhou Vinicius de Moraes. Que me perdoem os paulistanos roxos, mas SP, além de moralista, ta ficando chata demais.

Claro que a gente acorda cedo, claro que trabalha e claro que paga um monte de conta todo dia 20, mas que mal há em beber um bom vinho ou rachar uma porção de batata regada à cerveja numa sexta-feira de calor? Depende. Se você quiser fazer isso na calçada do bar, verifique antes se o local tem alvará. Caso não, você corre o risco de ter sua mesa arrancada às pressas, porque a polícia está vindo, como aconteceu comigo semana passada, na Augusta. Desafiando as teorias de Einstein, eu pisquei e minha mesa tinha sumido, mais rápido que a luz. O garçom se explica, aflito: “os homi tão vindo, não pode ter mesa na calçada, ta difícil”. E o pessoal fica ali, em pé mesmo, esperando por tempos melhores. Mesmo se o bar tiver alvará, juntar mesa e fazer um grande happy hour só lá dentro. Lá na parte fechada, aonde não se pode mais fumar. Aliás, você pode dar mais um passinho pro lado, por favor? Só pode fumar depois da linha amarela. Aqui? Não, mais pra lá. Agora ta bom? Isso, aí quase caindo na rua acho que está ok. Esses dias, na mesma ex-malandra Augusta, um garçom foi à nossa mesa dizer que não pode fumar sentado, mesmo na parte aberta. “Fumar pode, mas só em pé”.

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Pensamentos de Ovelha

Está cada vez mais difícil viver em São Paulo. E digo isso sem nem entrar em tópicos como o o ônibus e o metrô custarem abusivos três reais, passarmos quase dois meses sem chuva em pleno inverno ou favelas praticamente fazerem uma misteriosa autocombustão. O meu ponto é que não está  fácil levar uma vida mansa em SP. Daquelas onde “ninguém mais bebe bebida que não tenha um bocadinho de matéria alcoolizante, a Coca-Cola é relegada ao olvido e cachaça e cerveja muito, que é bom pra alegrar a vida”, como sonhou Vinicius de Moraes. Que me perdoem os paulistanos roxos, mas SP, além de moralista, ta ficando chata demais.

Claro que a gente acorda cedo, claro que trabalha e claro que paga um monte de conta todo dia 20, mas que mal há em beber um bom vinho ou rachar uma porção de batata regada à cerveja…

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