Muito além da saudade

Por Rosane Gutjahr,  diretora da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Voo 1907

Não bastasse a dor de perder o amor da minha vida, conviver com a falta de respostas e da punição para os culpados que o tiraram de mim; a dor de ver minha filha crescer sem o pai é dilacerante. A proximidade com o Dia dos Pais me faz pensar que vida ela teria se o pai dela não tivesse sido tragicamente tirado de nós? Que “consequências” a ausência do pai trará na personalidade dela? São algumas das muitas perguntas que me faço todas as noites. Sim, sei que moro em um país onde é dito que a justiça é morosa e muitas vezes peca falta de punição; mas ainda continuo acreditando na justiça Brasileira e poderei em fim, depois de seis anos dar as respostas que minha filha tanto busca e a paz e o descanso que meu marido merece.

 Sim, nos aproximamos de quase seis anos do talvez maior acidente do espaço aéreo brasileiro, a tragédia causada pelo jato Legacy, que matou 154 pessoas do Voo 1907 da Gol e que ainda espera punição para os culpados. Uma colisão aérea, um fato até então quase inacreditável, tirou meu marido da minha vida. Como não punir os pilotos norte-americanos Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, que estavam no jato Legacy? Já que foi comprovada a culpa por negligência, imperícia ou imprudência. Será mesmo que uma pessoa que entra num avião, sem qualquer responsabilidade não deveria ser condenada por homicídio doloso? Pois aí estava minha primeira grande decepção, já que eles em abril de 2011 foram condenados em primeira instância a cumprir serviços comunitários e a terem os brevês cassados pelo período de quatro anos e quatro meses, além de terem sido indiciados por homicídio culposo.

Aí me pergunto mais uma vez? Essa condenação de primeira instância seria justa para quem matou 154 pessoas? A quem devo pedir ajuda para que os culpados sejam condenados e cassados permanentemente? Será que alguém, além das 154 famílias realmente se importa com as vidas que foram perdidas? Muitas perguntas? Pois é assim que me sinto todos os dias em que vejo que não demos “um passo à frente”, que estamos parados esperando…

E nessa espera dolorosa e angustiante, mais um Dia dos Pais se aproxima. Mais um ano que terei que explicar para a minha pequena, agora com 10 anos, que “agora papai é um anjo” e nos vê lá de cima. Como é difícil para uma mãe ver o sofrimento da filha e não poder fazer nada.  Eu sei que a condenação dos culpados não trará meu marido de volta, mas pelo menos seria uma maneira de dar às 154 vítimas o descanso merecido.

*Rosane é hoje uma das mais engajadas integrantes da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Voo 1907. Os relatos dela e da filha, Luiza (hoje com 10 anos), são muito fortes e impactantes. http://www.associacaovoo1907.com/

1 comentário

Arquivado em Delírio Cotidiano

Uma resposta para “Muito além da saudade

  1. norma7

    É um luto que não ameniza, que a espera por justiça não deixa atenuar, sendo mais um motivo para me solidarizar com a dor das famílias.
    Norma

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