Arquivo do dia: 11/08/2012

Para-choque de blog

“Quando se corre muito, há que parar e esperar pela alma”. (Provérbio dos índios Guarany)

Deixe um comentário

Arquivado em Para-choque de Blog

Galinha morta

Texto e foto de Valéria del Cueto

Não andou de diligência, mas passeou de carroça e trem com banco de madeira. Atravessou São Paulo de Bauru a Campo Grande, desembarcou em Aquidauana e tomou trecho de estradas sem asfalto até Ponta Porã.  Imagine cair em Pedro Juan Caballero: dois países e uma linha, mulheres de calça comprida e saias por cima. E o guarani. No espanhol se comunicou rapidinho, mas o guarani era uma atração. Na vila militar o monte de regras era uma continuação da terra vermelha sem asfalto, as vacas pastando no campo de polo depois de aperitivarem as rosas dos jardins da mãe, por cima do muro ou entrando no quintal pelo portão que algum desavisado deixou só encostado.

Vacas não fazem parte da fauna familiar. Cachorro, o Quarup, e coelho fazem, além dos animais minúsculos como grilos, besouros e louva-deuses que a irmã, que quer ser entomologista, usualmente carrega nos bolsos dos casacos. Lembra perfeitamente de um de lã vermelha com a bicharada ressecada depositada no fundo do bolsinho.

Foi lá que aprendeu a andar nos muros. Era mais prático que fazer o caminho normal. Passar pelos portões, contornar o quarteirão. Era por eles, os portões mais baixos, o ponto ideal para alcançar os altos dos muros laterais e seguir pela via aérea, de vez em quando beirando o telhado de uma churrasqueira e evitando as passagens acrobáticas por entre as árvores debruçadas sobre os paredões, normalmente mangueiras (fácil), laranjeiras e limoeiros (com espinhos) amoreiras (queimaduras de marandruvás) e bananeiras (formigas). O problema era não matar a vizinhança de susto. Já bastavam as brigas quando a galinha do vizinho resolvia ciscar no quintal alheio e por lá batia as botas, sendo encontrada por uma das crianças, meio comida pelo cachorro da terceira casa. Difícil o alheio explicar para o enfurecido ex-dono do galináceo que não foi o meigo Quarup o responsável pelo assassinato, nem o mesmo foi premeditado, sem amplificar o caso da mordida e dedurar diretamente o cachorro feroz da terceira casa. Afinal se o cão se parece com o dono o que esperar? O truque era estar preparado para pular para o terreno do lado oposto em caso de um avanço traiçoeiro do cachorrão que já latia como se não houvesse uma miríade de felinos passantes pelo local. Nas brincadeiras de polícia e ladrão saber o percurso dos muros era uma vantagem e tanto.

Saber subir em árvores também. O pé de cinamomo que o diga. Incrível como os perseguidores nunca olham para o alto quando procuram suas vítimas. Também é um ótimo elemento surpresa em emboscadas. Foi lá, nessas brincadeiras que aprendeu que se misturar é essencial. Nada só de meninos ou meninas, filhos de militares ou “civis”, brasileiros ou paraguaios, ricos ou pobres. O segredo é o “e”: meninas e meninos, civis e militares,  brasileiros e paraguaios. E! E. E…, e?

Aprendia a ser paraguaio de pequeno, paraguaio do interior, diga-se de passagem. Quando era criança entendia um pouco o guarani. Hoje, nem isso. Mas não deixou de ser leal ao povo que tão bem o acolheu. Foi quando começou pelo começo a entender o pensamento do paraguaio e, para isso, a primeira regra é não pensar como brasileiro. Mudar o foco e, radicalmente, seu ponto de vista. Eles não são o que pensamos ou queremos que sejam. Têm sua história, uma linda e, em alguns momentos, triste trajetória. Não têm por que nos olharem com quem olha seus salvadores. Somos seus algozes, sempre, até que provemos o contrário. E quem se arrisca a isso? Contra a realidade, não há argumentos.

O que para nós é golpe, com reflexos diplomáticos e internacionais, que dão brecha para o Mercosul abraçar o bolivarianismo venezuelano, para eles é uma questão de sobrevivência. Temos que ter em mente que é a história deles e que eles a farão como podem e acham que devem. Que a energia de Itaipu deve reverter em benefícios para a população paraguaia é fato. Lugo reivindicou isso e os preços  de aviltantes passaram a módicos. O novo presidente faz a mesma coisa. Por que afinal, o Paraguai deveria aceitar passivamente o papel de galinha morta do quintal alheio?

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

1 comentário

Arquivado em Delírio Cotidiano

Opinião : Por que amo Porto Velho ?

Por Osmar Silva

Hoje me perguntaram em que se baseia a auto-estima do portovelhense, de que sentem orgulho na sua cidade. Fiquei mudo. Cacei, procurei, olhei em volta e, nada. Fiquei embassado, grilado. Olhe só, logo eu, que tanto tenho dito que gosto de Porto Velho. Logo eu que tenho 34 anos de Rondônia divididos entre a minha Ariquemes e o meu Porto Velho. Embasbaquei. Mas também isso é pergunta que faça, assim, na lata? Pois é. Mas o fato mais intrigante  é: por que gosto de Porto Velho? Responder a esta pergunta é o desafio deste artigo. Começarei por dizer que, de algo concreto, visível, tocável não tenho do que me orgulhar. Mas também não posso simplesmente dizer ‘gosto porque gosto’ e pronto. Não. Nem eu me contento com esta resposta. É preciso achar o por quê. Não é pela geografia ou simetria urbana, não. A cidade não tem e nem nasceu de um planejamento urbanístico, como Palmas, Brasília, Ariquemes e Rolim de Moura. Aqui, os espaços foram simplesmente ocupados, tomados, invadidos. E o poder público sempre a reboque. Não é pela água que bebemos ou pelo saneamento que carrega nossos dejetos. Não. Embora vivamos na maior bacia hidrográfica de água doce do mundo, não temos água para beber, nem rede de esgotos que leve nossos rejeitos. Vai tudo para as fossas rasas contaminando os poços amazônicos, nossa fonte d’água que, no verão, como agora, secam. Então de que gosto em Porto Velho? Das praças? Que praças? Praça de verdade, acolhedora, com plantas, árvores, fonte d’água, parque infantil, iluminação, bancos e segurança, inexiste. Ainda é um sonho. As que têm por aí, são peladas, parecem terreirões de secar café, transformadas em espaços de alimentação, bebidas e barracas de camelôs disfarçados de artesãos. Onde ir com as crianças e os jovens nos bairros da cidade? Só tem dois lugares: a igreja ou o bar. Este último ganha. Não temos espaços públicos com infraestrutura e garantia de um piquenique e, pelo menos, um chuveirão para refrescar a cuca nestes dias de 39, 40 graus de calor à sombra. Mas eu gosto de Porto Velho. E por quê? Pela saúde e pela a educação. Não e não. A primeira está em processo de reconstrução em meio a tanta dor. A segunda apresenta um dos maiores índices de evasão de um lado e de falta de espaços de outro. Ainda têm muito a ser construído. Então, meu caro, diga-me por que diabo gosta de Porto Velho? Pela limpeza e as árvores das ruas? Também não. Não temos isso. Vivemos na maior floresta tropical do mundo e somos uma cidade pelada. Careca. E de quando em vez ainda surge um secretário doido que corta as poucas árvores que teimam em no dá sombras. E então, por quê? Acho que amo Porto Velho por ter o privilégio de morar na Amazônia. Pertinho dos grandes rios, juntos dos igarapés e próximo da floresta. Uma certa ilusão de estar e ser parte desta natureza. Amo pelo que pode vir a ser se, viermos ter prefeitos e governadores empenhados em construir uma capital com equipamentos e serviços públicos que nos encham de orgulho. Gente capaz de implantar o Parque das Águas e transformar os bairros Areal e Triângulo numa Veneza brasileira em pleno Norte do Brasil. Você sabia da existência deste projeto com dinheiro do PAC garantido e assegurado e, também, devolvido sem aplicação? Mas isso pode a vir ser feito e encher nosso peito de orgulho. Amo pela bela história da Ferrovia Madeira Mamoré; pela epopéia dos soldados da borracha e dos seringueiros. Amo pelo Parque dos Beradeiros que, um dia, alguém terá coragem de implantar e nós presentear com o nosso Central Park novaiorquino em plena Amazônia. Amo pelo que poderá vir a ser.

OsmarSilva – Jornalista – sr.osmarsilva@gmail.com

1 comentário

Arquivado em Efêmeras Divagações