Sinais, sintomas e tais

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Um, dois, três e… já! Respirar fundo e deixar as radiações do sol se expandirem pela extensão da pele exposta ao seu calor aconchegante.

Ao longe a lancha cruza o mar como se fosse beijar a pedra que se projeta na quina do Caminho dos Pescadores. A ilusão perfeita dura apenas alguns segundos até o barco sumir em direção a entrada da Baia de Guanabara.

Acima, quase na linha do horizonte, os navios de grande calado aguardam a maré alta para passarem pelo canal estreito que leva ao movimentado porto do Rio de Janeiro. Abaixo, ondas quase perfeitas são cenários ideais  para os surfistas que deslizam entre os topos de suas cristas.

Hoje está tudo normal.

A bandeira do Brasil tremula em direção ao mar indicando os bons ventos que dominam e limpam o céu pontilhado de gaivotas.

A prancha com o bico cravado na areia e as quilhas projetadas na direção do leme, formato que dá nome à pedra, insinua o alinhamento dos sentidos e sentimentos literários do texto que ora redijo.

Atrás de mim, uma voz masculina com sotaque nordestino recita uma oração (nos dois sentidos) comum aos que, durante as férias, ancoraram nessa paragem: “Ô vidinha mais ou menos… Estou no Rio de Janeiro! Hoje, aqui no mar. Amanhã  vou no Cristo.” Prefiro não olhar na direção da declaração de amor e deixo a imaginação desenhar o dono da voz e suas companhias.  No mínimo, mais uns três, dois homens e uma mulher.

Faça o mesmo, brinque de imaginar como são.

À frente vejo um atleta fazendo abdominal para cultivar sua barriga de tanquinho. O tempo do exercício e a lisura da taboa indicam que ele não é do tipo que não sabe o que faz. Faz, e muito.

Sinto falta dos peladeiros que só adentrarão no campinho mais tarde, depois que as ondas perderem seu formato mais que perfeito. As ondas variam, têm seu sabor e valor, sobem quando querem. A pelada é de lei. Pode demorar, mas rola. É inevitável, necessária e essencial.

Como o fato de hoje ser sexta feira e cá estar eu, enquanto posso, na Ponta do Leme. Estou mais pra onda do que para partida de futebol, com suas duas carcaças de coco verde servindo de traves em lados opostos do campo a beira d’água.

Estou na linha, junto com as pranchas de surf e bodyboard esperando a onda perfeita, entre as sete representantes das séries fortes que se seguem as séries fracas, desde que o mar é mar.

Por princípio e experiência gosto muito da segunda onda da série. Deixo a primeira para os afoitos e suas pranchas maravilhosas e assisto de camarote o espetáculo enquanto sinto seu empuxo nas pernas e localizo o melhor ponto para surfar de peito na próxima que desce, já no embalo da série em questão.

Ela tem o equilíbrio da força inercial explosiva da primeira ondulação e a constância das que virão na sequência. Dá para remar, se jogar, deslizar e descer, ainda com direito a manobras clássicas pelo caminho desimpedido, sob o olhar cuidadoso dos experts que retornam para além da arrebentação para caitituar novas descidas, quem sabe ainda nessa mesma série de ondas fortes.

Onde eu estava mesmo?

Aqui, registrando os sinais que também passeiam pelas nuvens. Rápidos e inconstantes, mas visíveis para quem, deslizando na espuma formada na crista da onda que explode em direção da praia, a da Ponta do Leme, ainda consegue levantar os olhos salgados da água do mar para o céu azul que se esparrama e surpreende com seus desenhos fugazes. Um segundo, um olhar, passou…

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

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Arquivado em Delírio Cotidiano

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