Os curibocas

Por  Francisco Bezerra Siqueira

Somente as verdades não são suficientes para contar toda a história de um povo, pois cada povo tem sua mentira particular. Esta é, portanto, uma história incompleta, pois será contada somente a verdade – verdade viva e vezeira, a história dos Curibocas. As mentiras serão contadas em uma próxima vez.

É uma história verdadeira, repita-se, contada em todos os seus detalhes. Até os bichos já sabiam esta história no tempo em que falavam. E a contavam aos seus descendentes, como forma de perpetuá-la e para seus filhotes dormirem. Não foi escrita antes, claro, porque os bichos não escreviam, só falavam. Mesmo assim, não há bicho, mesmo os de hoje – que não falam nem escrevem – que não saiba esta história. Eles já nascem sabendo e tudo todos sabem desde que nascem, sem que seus pais precisem contar. São os bichos dos novos tempos! Dizem que é por isto que eles deixaram de falar. Em tempos imemoriais, eles concluíram que a fala é dispensável, já que nada garante e, volta e meia, inventa mentira, pois toda história, antes de ser escrita, é contada – pela fala. Ninguém é capaz de contar (falando) a mesma história duas vezes, sabiam os bichos. Além do mais, para garantir o que diziam, os bichos teriam que inventar papel, tinta, caneta, computador, internet, borracha; criar cartórios, estudar Direito, Gramática e se preocupar com outras invencionices, igualmente perigosas, como jornal e prospecto de remédio. Depois, verificariam que, mesmo escrita, a história nada valeria – era história de bicho, diriam os homens, jogando o papel amassado na lixeira. Aliás, eles nunca quiseram convencer os homens de nenhuma verdade. Eles, que se dizem racionais, que busquem seus próprios rumos – pensavam. Por fim, os bichos tiveram medo que história igual à dos homens pudesse acontecer a eles, pois, certo dia, ouviram de uma sombra sonora:

O que te assemelha aos homens é a fala

O que te diferencia dos bichos é a alma

Então, os bichos calaram. Perderam o dom da fala. Ficaram com os ouvidos para ouvir o que mais tarde com os olhos constataram: grande tropel de cavalos com homens neles montados, em trajes esfarrapados sobre corpos muito fortes, dizendo que era ali, no meio daquele mato, que um dia ergueriam o Reino dos Curibocas; o reino dos libertários, onde “jorra leite e mel”, longe dos homens de leis que, feitas do jeito deles, só a eles vão servir. O reino dos que fugiram da moenda do engenho, do chicote e do trabalho dobrado na casa-grande. Um reino de Curibocas de sangue dosado à cama de índio com preta ardente. Aquele ambiente hostil, de cobras e lagartixas, seria – quem sabe? – um dia transformado em paraíso para os que precisassem conviver em harmonia. E a quem lá chegasse, ninguém se atreveria a perguntar quem já foi, de onde vem ou o que naquelas plagas queria. Bastava se apossar das benesses do lugar, sem ganância e sem orgulho e a todos respeitar, estabelecer convivência sob as regras do lugar – as regras do bem viver! Precisa que algo mais este escriba explique?

Este Reino foi fundado onde o vento fez a curva, onde a chuva nunca andou, onde o cão anda montado num redemoinho açoitado do oco do cu do mundo; onde a justiça passou montada na besta fera, onde o bucho não produz a merda de cada dia. O nome desse lugar? Tente você descobrir, onde fica e como era. Para lhe facilitar, diminuir seu engano, uma pista vou lhe dar: não procure onde tem terra, nem localize num mapa; veja aonde tem gente injustiçada e ganância, aonde não tem partilha e aonde a bonança é pra uns e as mazelas pro resto; saiba que este Reino, não tem vizinho ao lado, sempre esteve oprimido, muitas vezes misturado a outro reino de cima; o que os delimita – estabelece fronteiras – é a riqueza de um em detrimento do outro; é o canto de protesto do reino que nada têm; é a justiça do rico reino todo poderoso sobrepujando o dos pobres; é a diferença da cor do cabelo, olho e pele. Que outros reinos tivessem por lá se estabelecido nunca pra eles foram qualquer forma de perigo. Sabiam de ouvir falar de outros reinos e reis. Que para as bandas do leste havia a Pedra do Reino; que muitos dali temiam um tal de Rei do Cangaço; que o Rei Zumbi dos Palmares morava muito distante. Aplaudido e respeitado somente o Rei do Baião. Misturado tudo isso fica fácil definir o Reino dos Curibocas, do qual estou lhe falando.

Ali nasceu, floresceu e hoje somente arqueja – já que nem a morte quis – a terra dos enjeitados, o mundo dos esquecidos, o inferno que não tem cão, o céu que Deus esqueceu, o lugar onde só vai quem tem mãe e gosta dela. Pois foi lá naquelas plagas – exatamente ali onde tudo parecia desfavorável à vida – que um ferrenho feitor, feio, fraco e fedorento de porte pequeno e pedante, porreta palestrador, destemido e petulante fundou e denominou o Reino dos Curibocas. Um Curiboca da Gema, ele próprio se dizia, depois de verificar que para ter alma salva não precisa renegar quem é ou foi Curiboca. Isto é o que você vai ler no mote e no tema.

Já tem mais de quatrocentos anos que os Curibocas habitam aqueles sertões. Até hoje ninguém sabe, o tempo que pra trás fica, o dia em que o primeiro deles por lá fincou pé. Se era branco ou mulato, preto ou mameluco, fugidio do seu dono, assassino condenado, degredado lusitano. Parece que todos eram aventureiros capazes de qualquer vida infeliz desde que lá tivessem a liberdade, o trabalho e com suas próprias leis julgassem e condenassem; estabelecessem direitos que deles também fizessem donos daqueles sertões. Por todos aqueles anos, cruzaram com índio bravo, com pretos e com cafuzos, com Curibocas também e muitos e outros tantos Curiboquinhas geraram – contados em dúzia, dezena, às vezes, até chegando a uma vintena ou mais. O filho é Deus quem manda e Deus em sua bondade, dá um jeito de criá-lo.  Rejeitá-lo é pecado. É recusar a ajuda que mais cedo ou mais tarde um dia vai precisar – é assim que o Curiboca vê a família crescer.

Viveram em uma terra distante e ignota, sem despertar uma linha de quantos fizeram História. Escribas, claro, vieram (ainda os há por lá) para relatar somente o que cabe por inteiro nas regras dos seus conceitos: sociologicamente, daqueles que dominaram; antropologicamente, das castas que lá formaram. Os Curibocas – Ah! Os Curibocas? – se quiseram ser lembrados e se sobreviverem ao tapete que cobre muitas verdades, terão, por eles próprios, que contar a sua História, sob pena de um dia vê-la desvirtuada, de outra forma contada, quem sabe, até esquecida. Pois aos Galegos de lá nunca interessou contar história “daquela ralé” que pudesse em um só fato, genealogicamente, manchar passado e presente, daqueles que se fizeram, pela força do chicote, novos donos do lugar. Contados em verso e prosa, somente os que carregam W no seu sobrenome ou se lá em Trás os Montes tiver o seu pedigree. Somente os de pele branca, olhos verdes ou azuis e sobrenome lenhoso – Carvalho ou Oliveira – serviram de referências àqueles que escreveram a História dos Sertões. Que me permitam dizer – e sem querer contestar o Jorge de todos os santos, nem o Lins e seus engenhos, o Graciliano da seca, o Euclydes dos messiânicos – mas a história completa dos Curibocas de então – verdade useira e vezeira – foi contada por inteiro, pela mais emocionante forma de literatura que o sertão conheceu – o folheto de cordel. Dele foram autores os mais perfeitos poetas, cantadores e cronistas, destemidos jornalistas, filósofo de toda sorte. Não houve um fato bíblico ou catástrofe natural, acontecimento político, desilusão amorosa que não tenha sido algum dia versado para a linguagem dos Curibocas de lá. Na forma escrita p’r’aqueles, com abc dominado; no canto e no recital, para os desafortunados da leitura e do saber. Se a História Oficial tivesse sido contada pelo dom dos Curibocas, seria a História completa. Que diria que eles são “antes de tudo um forte”; mas se diria também que muitas conquistas lhes faltam, apesar de serem fortes; que apesar das mazelas lá sobra muita altivez, capacidade de luta, pra começar outra vez.

Foi o gênio inventivo dos Curibocas de então que moldou o mais antigo – inusitado também – tipo de convivência de entidades fantásticas, reais e imaginárias de que aquele sertão hoje tem conhecimento. Por anos a fio viveram do que a mãe natureza, ainda que muito ingrata, a eles ofereceu. Pois quando por lá chegaram, se nada consigo tinham, tiveram que tudo inventar; se nada então sabiam, tiveram que tudo aprender. Para explicar o que não conseguiram entender e o que a eles foi impossível aprender, criaram seus deuses pródigos, fartos em proteção e entidades satânicas, misteriosas, malignas, horrendas e vingativas. E foi assim que de tudo, todos eles inventaram: para comer, a buchada, para a comida, o alforje; para montar, o muar, para a cozinha, a trempe; para beber, o aluá, para dançar, o xaxado; para cantar, a toada, para a promessa, a novena; para a morte, a incelência, pra proteger, a arruda; para a fiança, o bigode, para vestir, o gibão; para a boiada, o aboio, para morar, a tapera; para curar, a meizinha, pra competir, a corrida; para fumar, o palheiro, para vingar, a tocaia; para impor, a peixeira, para bicho, a caipora; para esconder, a botija, para dormir, a esteira; pra transportar, o jumento para adoçar, o mascavo; para cheirar, o torrado, para contar, o cordel.

O Reino, por sua vez, foi todo ele prodígio. E todos os Curibocas souberam aproveitar, com tino, engenho e arte as benesses do lugar. Em abundância encontraram: caroá, para amarrar, caldeirão cheio de água, aroeira para linha, urucum para corante, cabaça pra botar água, chapadas para plantar, imbu para tira-gosto, ervinhas para curar, carnaúba pra varrer, lagoas para pescar, malhada pra criar gado, faveleira que fazia rim de bode criar sebo, camaratuba de monte, para o gado engordar, caça de todos os tipos, para a mesa fartar. Que delícia este lugar!

Com as benesses da terra, braço forte e coragem, criaram lá nos sertões os currais do São Francisco. Subiram o Velho Chico, chegaram no Piauí e fundaram feitorias nas fraldas do Araripe. Pulando a serra chegaram ao Vale do Cariri. (Mas isto é outra história pra ser contada outra vez). Nos Currais do São Francisco, criaram boi de tração para o engenho banguê moer cana e produzir melaço de rapadura e mascavo para os D’Avilas açúcar branco fazer. E nos currais das caatingas, longe das águas do rio, produziram boi erado pra boiadeiro tanger nos rumo do litoral. De carnes abasteceram as mesas das capitais e os garimpos longínquos das belas Minas Gerais.  Fizeram roupa de couro, era de couro a cadeira, a cama, a porta, o surrão, o chapéu e a botina, o currulepe, o chicote. Tanto gado produziram, tanto couro utilizaram, que este tempo ficou na História nominado a Civilização do Couro.

No Reino dos Curibocas, todos tinham profissão. Se homem, veja então a lida de cada um: Becisa era vaqueiro, Rufino campeador, Luizão bom curtidor, Zé do Baixão o ferreiro; Juvenal era roceiro, Adalberto carpinteiro, Anísio bom sanfoneiro, Totonho o pescador; Tião era funileiro, Agostinho bodegueiro, Zezinho bom zabumbeiro, Terêncio o pistoleiro; Benedito era seleiro, Agostinho sapateiro, Deno bom violeiro, Valdemar o cantador; Bento era rezador, Galdino amansador, Claudivar bom alfaiate, Lourival o repentista; Josué era vaqueiro, Severino lavrador, Claudionor bom roceiro, Juventino o coveiro; Luiz era carvoeiro, Sebastião curador, Cazuza bom tangerino, Clementino o oleiro; Pedro era pedreiro, Cipriano tecedor, Santinho bom sacristão, Lourival o cantador; Justino era barbeiro, Osvaldino zelador, Odilon bom varredor, Valdivino o castrador; Josias era sineiro, Cipriano tecedor, Celestino bom vigia, Jeremias o capanga; Manuel era queijeiro, Jesuíno garrafeiro, Lucas bom lenhador, Arlindo o morador; Elias era marchante, Severiano feirante, Afonso o bom tropeiro, Otoniel o feirante; Juvenal era mascate, Aureliano leiteiro, Lucas o bom cerqueiro, Francisco o serralheiro.   Não era ofício de homem fazer roupa de mulher; e mulher ir para o eito era uma covardia de marido preguiçoso, o que lá não existia.

Se mulher, assim vivia cada qual, em cada qual, na lida de cada dia: Dora era cozinheira, Dulcinéia costureira, Santinha a benzedeira, Zefa era lavadeira; Lurdes era passadeira, Terezinha fiadeira, Carolina a doceira, Marinalva era copeira; Socorro era parteira, Albertina costureira, Carlota a carpideira, Luzia era rendeira; Graça era professora,Sebastiana a vidente, Arlete a merendeira, Vilani era babá; Rosa era ama de leite, Iraídes bordadeira, Iraci a varredeira, Camila era boleira.

Que outro ofício houvesse – vez por outra aparecia – sempre tinha um Curiboca capaz de ser o seu mestre. Claro, menos aquele, que não combina com homem, quanto mais se ele for, Curiboca de valor, o que todos de lá são.

Viviam em harmonia, sem se negar a favores. Em mutirão resolviam o que um só não podia. Nem a seca resistia ao trabalho em união: mandacaru para o gado, cacimba para beber, botar vaca no jirau, curar bicheira de boi, eram trabalhos de todos, quando a seca inclemente a todos vinha atingir; comida, roupa e calçado, era tudo dividido. Sabiam que sofrimento quando é compartilhado pra cada um sobra pouco. E “pouco com Deus é muito”, costumavam repetir, em inabalável fé. Curiboca nunca foi de deixar ninguém na mão, mesmo não tendo sobras para atender ao pedido. “Seu pedido é uma ordem”, era a resposta de sempre, a qualquer necessitado.

A seca, sempre inclemente, chegava todos os anos – mais branda ou mais cruel, como acontece até hoje. Era desígnio de Deus. Não há como recusar aquilo que Ele manda. Enquanto a água não vinha pelos riachos correndo, nos seus leitos arenosos perfuravam as cacimbas. Como se fosse um milagre, brotavam das profundezas os fartos veios de água – veios que são as lágrimas da terra tão generosa. Não tinham desesperança: sabiam que por debaixo daquela paisagem cinza, com cheiro e cor de morte tudo teima em renascer na hora que santo Pedro abrir as portas do céu. É esperar para ver: pasto crescendo e gado engordando; caatinga florando e imbuzeiro botando; açude enchendo e sapo cantando; bezerro nascendo e leite jorrando; a asa branca voltando e o vaqueiro aboiando. A seca? Ora, qual seca? Uma lembrança distante. Dali pra frente somente trabalheira prazerosa: campear, curar, ferrar; ordenhar, coalhar, curar; roçar, queimar, coivarar; cercar plantar, limpar; colher, bater, soprar; consertar guardar, vender. Na festa da ferra do ano, a buchada a carne seca, o requeijão, a coalhada, o milho verde, a pinga, o riso solto, o sossego.

Tiveram na honradez a pauta de suas vidas. Nunca se viu Curiboca dever a alma ao diabo, dever aposta de jogo, dever honra de menina, dever cachaça na esquina, dever favor a amigo, dever a bênção à mãe, dever pecado ao padre, dever o coito a quenga, dever dinheiro emprestado, dever sem se desculpar. Foi dispensável cartório e juiz pra resolver pendências e compromissos. Pra eles o que bastava era a palavra de homem. Nem um fio de bigode precisava empenhar – para um cabra da peste o que conta é sua honra; não fique desconfiado quando ele lhe falar que tudo está combinado. Mas tinha a faca peixeira, o rifle, o bacamarte pra todo cabra safado que não sustenta a palavra; que bole com moça virgem sem a bênção do vigário ou sem pedir ao juiz. Se não tinha o vigário ou o Juiz de Direito, que fosse um Juiz de Paz. Não podia era ficar o feito pelo não feito. Quando mais tarde visse o santo Frei Damião celebrar suas mões, a bênção do matrimônio tiraria do pecado aqueles amancebados. Pois casamento de fato, só era considerado o que era celebrado com padre e sacristão.

Mas teve herói Curiboca. Daqueles que não suportam usurpador de poder. Em busca da liberdade, correu mundo defendendo quem precisava de bala pra se fazer respeitar. Inspirou-se em Jenipapo, conspirou em Juazeiro, defendeu Pau de Colher. Foi capanga de Silvino, coiteiro de Virgulino, trocou tiro com milico no dia Nove de Julho. Acompanhou a Coluna, lutou pela Intentona, resistiu em Trinta e Sete, foi preso do Estado Novo. Aliou-se a Julião e combateu com Lamarca. E até na Grande Guerra Curiboca defendeu a liberdade e a paz. Só não lutou na FRELIMO nem no MPLA. Perderam-no os que ganharam aquelas guerras de lá. Na volta para o sertão, quanto verso de cordel a sua história compôs!

Nas artes, se destacaram. Criaram cultura própria. Seus gêneros musicais, seus ritmos e suas danças, são formas de expressão não vistas até então. A poesia popular, na forma de verso e música é um dos mais belos ecos dos belos cantos jograis. O Baião e o maxixe, cantiga de roda infantil, forrobodó e o xote, cordel cantado e falado, história de caipora contada em boa prosa, desafio de viola improvisado na hora. Que delícia é o canto do martelo agalopado! E belas bandas de pífanos, com zabumba e reco-reco, pra novenas festejar; e o livro de cordel que lhe conta a fiel história de Lampião; e o canto de viola que lhe conta em verso e prosa como vive o catingueiro: de promessa o ano inteiro. Nas rodas de São Gonçalo, onde ponteia a viola, pagam promessas com cantos, danças e muita comida. Tudo isto e outras tantas manifestações de raiz – como diz o folclorista – de beleza engenho e arte, forma o caldo cultural – como diz o reticente – dos Curibocas de lá dos sertões do São Francisco.

Ainda hoje, autores – poetas e literatos, artistas bem renomados – têm suas inspirações em temas lá dos sertões. Pesquisam e lá encontram – em inesgotável fonte – motivos pra recriar em formas, motes e temas, façanhas do Nego D’Água, histórias de Caipora. Todas de pura verdade. E ai de quem duvidar – e quem duvidar verá: Nego D’Água virar barco, Caipora espantar caça. É pena que o machado com sua fome de lenha e de madeira de lei tenha tudo devastado, ficando a Caipora sem lugar para morar. Com tanta ingratidão, ameaça se mudar.  Que o assoreamento não expulse o Nego D’Água das águas do Velho Chico. Valente como ele é, não tarda em procurar outro rio pra morar. Um rio de águas claras, fartas e sem esgoto – se é que ainda tem tão gostosa moradia. Por enquanto vai ficando, disse ele a um pescador – um pescador que não mente.

O Pastoril no Natal, a festa dos três Reis Magos, Semana Santa e São João, são festas nacionais, que lá no sertão também, já eram comemoradas nos tempos dos Curibocas. Com folguedos festejavam os santos daqueles dias. Mas a festa de São João – aquele do carneirinho – ficou sendo a principal. Fogo de Zé Fogueteiro, dança de par e quadrilha, casamento de mentira, compadrio sem afilhado; e as comidas do milho de tanta variedade – bolo, canjica e pamonha, cuscuz, angu e curau; pra completar o banquete, beiju de coco e cocada. A cachaça de cabeça rola solta a noite inteira, sanfoneiro animado só toca xote e baião, pra dançar apertadinho. Sem falar no namorinho no escuro do oitão.  Se faltar par, ora essa! Dança mulher com mulher.  Se faltar mulher então, tem rixa certa no baile. Pois Curiboca não dança nem só nem com outro homem, nem é de ficar em baile parado pensando asneira. De carnaval nunca ouviram, naqueles tempos, falar. Se ouvissem, tenham certeza, seria considerada a festa de satanás.

Na culinária então, que sabores têm lá! Paçoca socada em pilão, buchada e sarapatel, miúdos de bode assado, macaxeira cozinhada – assada, então, que delícia – servida com carne frita.  Feijão verde temperado com farinha misturada na raspa daquele tacho onde foi cozido queijo de coalho ou de manteiga, rapadura e alfenim, são delícias que têm cheiro das cozinhas das caatingas. Pra temperar e dar gosto, cebolinha e pimentão, cebola que faz chorar, tomate coentro e salsinha, colhido verde e fresquinho na horta lá do quintal. Pra preparar tudo isso, um belo fogão de lenha, panela de barro e tacho.

Mas chegou a exaustão – coisa que este escriba nem gosta de se lembrar – pois durante quatro séculos tudo tiraram de lá. Sem nada repor, a terra, a flora, a fauna e os rios começaram a definhar e com eles, claro, os Curibocas também, pois “o martírio do Homem, ali, é reflexo de tortura maior… nasce do martírio secular da terra” – já dizia, sabiamente, o nosso Euclydes da Cunha. E os pastos rarearam, as madeiras se acabaram, as aguadas, quase secas… Veio o êxodo rural – inexorável seria – para constatar o que Joaquim Nabuco dizia: “poucos são os netos de agricultores que se conservam à frente das propriedades que de seus pais herdaram”. Também ficou confirmado, segundo o mesmo autor, o adágio popular: “pai rico, filho nobre, neto pobre“.  Os sinais de esgotamento podem ser detectados pelas desigualdades que foram aprofundadas entre as classes sociais, pela escassez crescente dos recursos naturais e pela degradação daqueles ecossistemas. É desolador o abandono de tantas fazendas de gado dos sertões dos Curibocas, como de resto ficaram todas de lá do Nordeste.

Nem todos se retiraram – não viraram retirantes em terra distante e alheia. E os que lá ficaram, muito arraigados à terra, tocam a vida pra frente, no rumo de seus abismos – abismos que eles próprios sempre souberam evitar, conhecedores que são da vida lá dos sertões. Há ainda os que trocaram a chuva do santo Pedro, pela chuva que os homens fazem jorrar dos seus canos. E vejam só que ironia: tem Curiboca colhendo fruta fresca no sertão para fartar europeu que nem sabe que ele existe…que no sabor dessas frutas está também embutida toda uma história de vida.

Tivesse sido este reino cercado e bem conservado, por certo seria um bem para ser visto e gozado e pra servir de exemplo pra muito homem malvado. Não precisava de cerca feita de mourão e vara e nem arame farpado, que não havia por lá, precisava ser usado. Bastava a cerca da Vida: a cerca que, destruída, sempre teima em renascer.

………………………………………….

Referências Bibliográficas

Euclydes da Cunha – Os Sertões. Livraria Francisco Alves. 27ª edição, p. 43, 48

Joaquim Nabuco – O Abolicionismo. Nova Fronteira p. 162

Francisco Bezerra Siqueira – Editora Verano – Rumo Reverso

1 comentário

Arquivado em Crônicas certeiras

Uma resposta para “Os curibocas

  1. norma7

    Ahhhhh… Por favor, conta mais…vai, só mais um pouquinho!

    Assinado: Todo o Reino dos Curibocas (os nascidos e os na ‘prancheta’), os ‘gigantes da literatura bras. citados (e os por ti esquecidos), os Reis Magos e São João, os que não sabem ler nem escrever, porém são dotados de excelente bom gosto auditivo e…eu.

    Em tempo: os ‘doutores’ formados em ‘o homem e sua terra’ e vice-versa e os (ditos) conhecedores do espírito do homem, do bicho, da planta que cura e/ou que enfeita (que tb é uma forma de curar) e afins, também assinam….
    Nac

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