Arquivo do dia: 17/06/2012

Para-choque de blog

“A vida é uma pílula que nenhum de nós consegue engolir sem dourar.”(Samuel Stevenson)

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A voz de Deus

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Por Valéria del Cueto, texto e fotos

Será que amanhã vai ser novamente como era antes? Pensava ontem antes de dormir já antecipando acordar como havia acontecido de manhã pela voz maravilhosa da Fátima, uma ex-moradora da comunidade da Babilônia.

Antes, era o tempo em que na casa da minha avó aqui no Leme, despertava ao som das cantorias religiosas (nada é perfeito, não é?) da ambulante livreira do bairro descendo pela escadaria do morro que dá na Gustavo Sampaio para ir trabalhar. Quando me mudei para o Rio, tive a sorte de alugar um apartamento justamente por onde ela passava. E seu canto foi uma espécie de reconhecimento de que estava no meu lugar, no meu Leme.

Sempre fui freguesa da “livraria” e, com o tempo, Fátima passou a me contar um pouco dos seus perrengues, sonhos e do cotidiano no morro. Sua banca era múltipla. Começou vendendo discos (LPs) e passou para  os CDs. Na medida em que o vácuo provocado pela inexistência de livrarias no bairro cresceu, junto com ele se expandiu o negócio ajudado pelos moradores intelectuais do canto do Leme. Eles passaram a abastecê-la com os volumes que não cabiam mais em seus apartamentos. Dela, comprei excelentes livros, alguns mais velhos e outros visivelmente nunca manuseados. É claro que quando me mudei foi no seu “sebo” que foram parar meus amados companheiros que não tinham mais lugar nas estantes da nova casinha. Sabia que eles estavam em boas mãos.

Vou resumir a importância da banquinha lembrando que foi a ela que um músico instrumentista entregou para serem passados adiante seus violino e violão. Fátima vendeu o violino. Mas quis ficar com o violão interessada em aprender a tocá-lo. Com aquela voz divina e poderosa, nada mais justo.

Como dá para ver, nossa amizade é antiga e com isso venho acompanhando suas agruras pessoais. Nascida e criada na comunidade foi uma das “contempladas” uma merreca quando sua casa foi desapropriada. Como o valor irrisório que não lhe permitiu comprar nada no Chapéu Mangueira nem na Babilônia acabou sendo “removida” para uma periferia distante.

Manteve a banca. Seu mundo é o Leme. Mas, para minha tristeza, já não cantava feliz todas as manhãs louvando o dia e a Deus pelo que não era mais seu caminho de vida. Vi Fátima ficar triste e doente. Vi moradores tentando ajudá-la. Vi sua música emocionante deixando nossos despertares, assim como ela havia sido obrigada a deixar seu lar.  Vi e ainda a vejo lutando para sobreviver com sua banca na esquina.

O tempo passou. Anos, na verdade. Acabei me mudando também. Graças a Deus ainda para a minha Ponta Leme. Vim morar ao lado da ladeira, a outra entrada da comunidade. Passei a ver e ouvir a vida do meu bairro por outro ângulo. E, por saber que o que estou vivendo, graças as obras de saneamento que muda nossa rotina com o vai e vem de máquinas e trabalhadores “estrangeiros”, é um momento longo, porém passageiro, acompanhado e registrando com muito interesse os acontecimentos da vizinhança.

Pois não é que ontem, fui despertada pela voz de anjo poderoso da Fátima descendo pela ladeira? Sabia que aquilo era o prenúncio de um bom dia! Sonhei que hoje e sempre voltou a ser assim. Mas foi só ontem… Hoje amanheci – e permaneço enquanto escrevo – envolvida pelo zumbido ensurdecedor do superdesentupidor de esgotos que tenta limpar mais uma barbeiragem da obra.

Isso poderia contaminar minha crônica. Não fosse esta dedicada aos justos, aos mansos e àqueles que, como eu, tinham e de vez em quando ainda têm, o privilégio de escutar a voz de Deus ao ouvir  Fátima cantando a plenos pulmões pela vida a fora!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

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Perdão, essencial na escola e na vida

Por Erika de Souza Bueno

Há pessoas aprisionadas e amedrontadas dentro de si e que, dia a dia, tentam se acostumar com a ausência da liberdade e da paz. Há aqueles que se negam a dizer a verdade por medo da repreensão e, por isso, vivem amargurados e inseguros. Há aqueles que fogem dos próprios pensamentos, pois estes insistem em apontar fatos dos quais tentam se esquecer. Há gente que não sabe o que é dormir tranquilamente, pois vive em meio a pesadelos com chances razoáveis de tornarem-se reais.

Se desde a infância fôssemos ensinados a dizer somente a verdade, talvez essas pessoas hoje estivessem, simplesmente, felizes. Se tivéssemos aprendido a revelar – em vez de esconder – nossas fraquezas e se, com isso, não tivéssemos sido ridicularizados, talvez as clínicas médicas hoje não estivessem tão cheias de pessoas com enfermidades advindas de angústias do passado.

Infelizmente, nem mesmo a escola conseguiu nos ensinar que a liberdade também depende da nossa coragem e disposição de nos enfrentarmos e de encararmos as consequências dos nossos próprios equívocos. Ainda hoje, há relatos de crianças que, quando tiram notas baixas, são acusadas, acuadas e, consequentemente, acometidas de um sentimento de inferioridade. A partir disso, essas crianças se acostumam, assim como nós, adultos, a maquiar a verdade, a omitir fatos e a não confessar o erro, pois, aparentemente, é mais simples escondê-lo.

Conhecedora de tudo isso, a escola pode fazer diferente. Pode, por exemplo, incentivar uma postura de autoconfiança nos alunos, de modo que entendam que são maiores que o erro e que, por isso, podem vencê-lo. A escola não pode ser omissa quanto a esse assunto, não pode mostrar apenas um lado da moeda, não pode supervalorizar aquele que sempre acerta em detrimento daquele que tem uma postura inadequada.

Na sala de aula, é preciso sensibilidade e clareza por parte dos professores para ensinar que se livrar da culpa e do engano, entretanto, não é tarefa fácil, pois não é unilateral, há mais pessoas envolvidas e não é sempre que se pode contar com a compreensão delas.

De qualquer modo, mesmo que haja poucas possibilidades de se obter o perdão e a compreensão de outra pessoa, é essencial que ele comece com a parte que, por um acaso, tenha errado em relação a alguém. O perdão, assim como tantas outras habilidades, é ensinado pelo exemplo e, por isso, o professor não pode trazer à memória erros que alunos tenham cometido em outras ocasiões na escola.

É necessário aprender que quando um aluno comete uma indisciplina, ele não é para sempre indisciplinado, ele está ou esteve (estado passageiro) em indisciplina, pois, assim como qualquer um de nós, o aluno também precisa de pessoas que estejam dispostas a dar mais uma chance, a não desistir dele.

Com isso, aumentam as chances de dias melhores e de nos envolvermos com pessoas que sabem confessar o erro, pedir perdão e que, beneficiadas dele, sejam capazes de o fornecer sem mágoas e ressentimentos, acreditando que tudo vai, de fato, melhorar.

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