Diz a lenda – Águas do Madeira

Por Beto Ramos

Madeira.
Madeira.
Veio dos Andes as tuas riquezas, tuas águas preciosas.
Águas barrentas misturadas ao suor do caboclo.
Remos e peixes perdidos nas barragens que mudaram o teu leito.
Canoa virada, na margem tão triste.
Madeira.
Madeira.
Curva do rio na paisagem cheia de concreto.
Perdem-se nos cem anos a lembrança da fumaça do trem.
A Maria Fumaça está mergulhada no fundo do teu leito.
As estrelas verde oliva fizeram-te cemitério de máquinas.
Madeira.
Madeira.
A fome do progresso fez-te engolir o marco de Rondon.
Descendo o rio apenas banzeiro.
Troncos de árvores centenárias ficarão apenas na lembrança.
Madeira.
Madeira.
O monstro de concreto fez a piracema parar.
Peixes perdidos, na mudança do ciclo da natureza.
O barranco foi engolido, levando tudo.
Os caboclos esperneiam.
Mudam de lugar.
Madeira.
Madeira.
Restam as palavras.
Restam as fotografias dos dias em que pesquei nas tuas cachoeiras.
Santo Antônio do Madeira.
Teotônio.
Vai Madeira, segue teu destino.
Leva nas tuas águas as nossas lembranças.
Segues desbarrancando a nossa história.
Transformaram tuas águas no monstro do impacto.
Amanhã muitos esquecerão.
Mas, quem tomou banho nas tuas margens e ficou com a perna tuira, jamais vai esquecer a poesia do teu silêncio.
– Ei poeta, olha o boto!
– O que rima com mandi?
– Sílvio, será que São Carlos vai alagar?
– Tatá, será que o desbarrancamento vai engolir Calama?
Madeira.
Madeira.
– E o mastro de São Sebastião?
Compensação, só às boas lembranças das pescarias e do campeonato de pesca.
Lá vem o pintado.
Tem surubim.
Pacu de senhora.
Piau da cabeça gorda.
Jandiá e jatuarana.
Esconde bem a garrafa de cachaça, que é pra mãe não ver.
Faz o fogo entre a s pedras.
Cachoeira não existe mais.
Madeira.
Madeira.
Quem te viu com o Leopoldo Peres, se assusta com os fora de estrada que modificaram o teu caminho.
Existe meia dúzia que manda por ai, que nunca pescou, mergulhou ou parou para observar as tuas belezas.
São estes que destroem.
São insensíveis, investem em outras paragens além das tuas águas que são doces.
Madeira.
Madeira.

Diz a lenda

1 comentário

Arquivado em Efêmeras Divagações

Uma resposta para “Diz a lenda – Águas do Madeira

  1. norma7

    Bonito isso.
    Mais que ser a memória viva de um lugar, de um tempo, o acima é a memória da emoção do instante (sagrado?) vivido. Melancólico e cruel (pelas circunstâncias vigentes), mas inestimável – não tem preco.
    Grata por compartilhar.
    +++++++
    Beto,
    Matizando de cor-de-rosa uns pensamentos cinza-chumbo que a agonia do Madeira traz, o que me alegrou nos últimos momentos foi os anúncios/comerciais que o I.Bergamn (até 10/06 – retrospectiva no CCBB – RJ) dirigiu para TV sueca em 1951 – sabonete Bris.

    Tá certo que ele ainda não era o ‘amado’ Cineasta ( com C maiúsculo) e que a vida não é só “dura” para à bailarina (pensão alimentícia de 2 ex-mulheres).O que que era aquelas bactérias???
    Ri à solta.
    Porém, ri bem menos do que uma tarde, qdo fiz uma operação de guerra para matar à aula do curso de inglês, descolar um $$$ extras para comprar o ingresso num cine-club decrépito, que não ligava para essa ‘bobagem’ de faixa etária do pagante, para enfim, descobrir que o ansiado Morangos Silvestres era falado em suéco e sem legendas, …. A minha “angústia existencial” era páreo duro com a do Dr.Isak Borg … =P
    P.S.: Acho que a minha paixão por imagens começou ali (só vendo ‘figurinha’ MAS que figurinha…- rs).
    .

    Fique Bem.

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