Arquivo do dia: 22/04/2012

Máscaras e biombos

Por Osmar Silva

O que mais ouço dos amigos e conhecidos é a pergunta: o que você está achando do quadro político de Porto Velho? Qual o melhor candidato? Ou, quem acha que vai ganhar? Respondo: não sei. E não sei mesmo. Ando tão desencantado com os políticos… Eles estão tão empenhados na corrida eleitoral, nas negociações com seus partidos de aluguel, nos seus interesses pessoais, que nem se dão conta de que o Brasil está mudando. Não percebem que o eleitor está mudando. Recusam-se a crer num Brasil melhor, mais consciente, mais igualitário, mais soberano. Para eles o que interessa é o Brasil do atraso, da ignorância, da miséria, da mão estendida. Pedinte, dependente. Este é o Brasil que atende aos seus propósitos.

Foi idêntico desencanto que levou o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro a afirmar em recente artigo: “não lembro um só dia, nos anos recentes, em que uma grande tramóia, um desvio de dinheiro espetacular ou um roubo sem precedentes não seja matéria dos noticiários”. E ele tem toda razão. Estão aí o Carlos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres, o foragido Valter Araújo e seus acólitos além de todos os vereadores do Cujubim para não deixá-lo mentir.

Em quem confiar? Na última eleição perdi meu voto para deputado estadual. Macaco velho e gato escaldado, mesmo assim, escolhi errado e ajudei eleger a pessoa errada. Que decepção. Imagina o eleitor de pouca informação! É presa fácil pros bandidos que se escudam nos partidos que selecionam pelas conveniências e não pela qualidade. É ali o primeiro estágio da malandragem. Sobre estas agremiações vejam o que escreveu o ilustre João Ubaldo:

Os partidos políticos não são nada, nem em matéria de crenças e princípios, nem de qualquer outra coisa; não há ideais, há interesses. Não são partidos, são bandos(…), quadrilhas rapineiras que não pensam nos interesses do País, mas na aquisição de poder e influência geradora de riqueza. Mas à frente completa: roubam parlamentares, roubam administradores, roubam funcionários, roubam todos.

Mesmo assim, sou dos que acredita num Brasil melhor. Dos que confiam que o eleitor está, a cada eleição, mais consciente de sua cidadania e do seu papel na construção de uma pátria altaneira. Não foi esta mesma sociedade que construiu a Lei da Ficha Limpa? Não temos uma presidente que enxerga e não tolera o mal feito dos seus ministros e os demite? Não estamos vendo sair do papel uma CPI no Congresso que, no governo Lula iria pra debaixo do tapete? E não vimos a Secretária de Estado Americano elogiar, em conclave público e internacional, a nossa presidente pelo combate que está fazendo à Corrupção?

Estamos começando a enterrar os emblemas por tantas décadas propagadas de “o Brasil não é um País sério” ou “que País é este?” apesar desta turma do atraso, dos políticos com ficha corrida, escondidos atrás de máscaras e biombos. Essa gentalha tem que ser enquadrados nos crimes hediondos. Urge uma medida que inclua os corruptos neste tipo criminal. E os faça apodrecer na cadeia. E uma outra medida acabando esta absurda multiplicidade de partidos que só servem como escola de corrupção e de degradação moral da sociedade.

Osmar Silva
Jornalista
sr.osmarsilva@gmail.com

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As hienas e os corruptos

Por Jacob Fortes

Entre os animais irracionais existem os inofensivos, os peçonhentos, os transmissores de doenças, os asquerosos, e assim por diante. Dentre os últimos, chama atenção, em particular, a desaprumada hiena. Primeiro, pela tendência inata de alimentar-se de carcaças de animais que encontra ou rapina de outros carnívoros; segundo, pela fealdade, de causar repugnância aos olhos; e, terceiro, pela sua fetidez inigualável.

Diferentemente das hienas, há, entre os humanos,  aqueles que, mesmo em aparições raras e fugidias, se fazem notar não apenas pelo perfume que agradavelmente vão recendendo, mas, sobretudo, pelo trajar distinto que os embelezam. Por onde passam lhes são prestados acatamentos e reverências já que suas figuras comedidas e afidalgadas faz parecer tratar-se de pessoas de indiscutível honorabilidade. A plácida postura de cordeiro, que simulam, lhes reforça a crença de serem pessoas de quem não se pode suspeitar. Aludo aos corruptos.

Enquanto as hienas, de hábitos noturnos, se comunicam naturalmente fazendo ressoar, na imensidão da noite, seus ganidos ásperos de efeito pavoroso, os corruptos, de hábitos diurnos, são silenciosamente discretos: não se deixam assobiar nem cantarolar, porém, à boca miúda, são excelentes comunicólogos; se fazem entender por mensagens codificadas. Quando não, optam por balbuciar locuções breves, por vezes monossilábicas, uma espécie de confusa linguagem de papagaio: ininteligível para muitos, mas facilmente entendida por seus acumpliciados. Ao serem flagrados em gravações telefônicas não mostram as suas caras, já que são invisíveis, mas por meio de notas injuriadas, vindas do além, denegam tudo e, principalmente, desqualificam quem as gravou. Por essas notas descobre-se que eles têm verdadeira predileção por certos advérbios, sobretudo o de negação: não conheço, nunca vi, jamais falei, tampouco ouvi.

As hienas, no papel de lixeiras, ao consumirem cadáveres, evitam a disseminação de doenças em favor do equilíbrio ecológico. Os corruptos, com sua insaciável gula de esponja, que ultrapassa o exclamar dos seus estômagos e suas ambições inescrupulosas, drenam os recursos públicos mediante o emprego de manobras fraudulentas. Nesse ofício de gatunagem causam o retesamento das rédeas da prosperidade nacional; alicerçam desabrigos; adoentam áreas consideradas vitais para as camadas mais necessitadas da população: hospitais, escolas, infância, velhice, segurança pública; alargam os caminhos dos presídios, defuntam feições; produzem carcaças fazendo crescer o corpo de voluntários, do submundo, que tem procuração para aplicar a pena máxima. No “solo gentil” não existem as poderosas hienas, das planícies africanas, devoradoras de carcaças, mas no “formoso céu”, de prontidão, os urubus monitoram os morrediços. Além de fazerem a recolha do lixo, de brinde, emprestam sua figura para que os rubro-negros a tornem a mascote flamenguista.

Tais quais os passarinhos, as hienas também são animais gregários. Os corruptos, no entanto, preferem viver solitariamente desacompanhados; despercebidos. Reforgem quando sob olhares fixos; repudiam interpelações. Caricaturados de Lombardi, esses escroques dos impostos do contribuinte, ainda que invisos aos olhos de todos, podem ser vistos, ocultamente, por alguns poucos aparceirados de gabinetes que, no silêncio das desoras,  os ciceroneiam   pelos caminhos  atalhados e obscurecidos que levam aos recursos públicos; tão sedutores quanto evidentemente malcuidados. Recursos que exalam o suor dos trabalhadores brasileiros, e, também, o sangue tupiniquim que tanto atrai os vampiros dípodes, os quais, a exemplo dos morcegos, se esquivam da luz do sol. Com tamanha vocação corruptível, de duas uma, ou o país não é nosso, se fosse já teríamos extirpado essa chaga, ou nós não lhe pertencemos; vestimos o que nos dão.

Ao contrário da postura discretamente recatada que singulariza essa espécie de malfeitores, há uma variedade que prefere viver de de maneira ruidosa. São os caraduras, popularmente conhecidos por  caras-de-pau, que recorrem ao populismo e outros expedientes sagazes para, à cretinice e falsa fé,  insinuar que são legítimos emissários da honradez e da ética. Invariavelmente são encontrados no meio político, mormente no legislativo municipal, estadual e federal. Escudados pela legitimidade de mandato eletivo, e devidamente maquiados pelos efeitos acobertadores do óleo de peroba,  se proclamam, em tom de  austeridade, legítimos guardiões da retidão.  Apesar dos seus discursos eloquentes, em favor da decência, alguns de causar arrebatamentos de fazer inveja às imponentes cachoeiras, proferidos do alto das tribunas, não passam, na substância, de embusteiros; desgraçadamente sufragados pelos eleitores. Para esses promesseiros fementidos, o provérbio secular  adverte: “o gato rude que cuida, disto usa”

Contudo, esperançar é dávida natural da vida. Oxalá possa o astucioso progresso tecnológico, inventar máquinas capazes de identificar e caçar almas, visagens, sombras, fantasmas e silhuetas de contornos não identificado que, tencionando surripiar, vagueiam pela penumbra dos erários.

E enquanto as máquinas caçadoras não chegam, esses seres inabordáveis, agenciadores das desditas do povo, vão esvaziando os cofres públicos. Afeitos à desgraça produzida pela voluptuosiade do absurdo, os contribuintes, afrontados, exauridos e vergados por pesados fardos de impostos, se encarregarão —  até que o jumento se torne profeta — de reabastecê-los, sob o amargo ressaibo de que os salteadores permanecerão impunes, inclusive porque a punibilidade não alcança seres espectrais. No entanto, já que o brasileiro tem forte apego a crendices, superstições, mandingarias e benzeduras, que tal o país, unido, valer-se desses expedientes para ver se afugenta esses fantasmas ratoneiros?

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