Do que riem as pessoas inteligentes ?

“Transcendendo o tempo, ele se endereçava à totalidade do mundo. Era um riso universal, representado num personagem cuja expressão serenamente zombeteira contaminava o observador. Quanto mais olhava para a figura, menos podia conter meu próprio riso. Num canto do museu Mauritshuis comprei uma reprodução desse menino ridente. Mas só anos depois passei a interessar-me mais de perto pelo pintor e seu modelo. O quadro, com dimensões de 84,5 x 73 cm, apresenta o monograma “JoM”. No catálogo aparece sob o número 705 a informação de que se trata de Johannes Moreelse. Descobrir a sua identidade foi mais difícil do que supus. Seu nome não figura nas volumosas enciclopédias especializadas de história da arte, e mesmo a busca ampliada na máquina Google não fornece nenhuma informação clara. Encontramos sempre apenas Paulus Moreelse, pintor de Utrecht, nascido em 1571 e falecido em 1638. O fato desses dados freqüentemente se encontrarem também ao lado de retratos do filósofo ridente não facilita as coisas. Será que o pintor “JoM” teria errado ao rubricar seu prenome? Mas Johannes existiu, acabando por revelar-se filho de Paulus, nascido em Utrecht e falecido já em 1634, antes do seu pai, sob cuja sombra se encontra até os dias atuais. Podemos encontrá-lo por um desvio, “Heráclito”, um quadro que mostra um homem velho e queixoso, pesarosamente inclinado sobre o globo terrestre, as mãos postas, a fronte enrugada. O mundo pareceu ser um vale de lágrimas a esse filósofo, no qual só restava chorar. Johannes Moreelse pintou seu “Demócrito” ridente como pendant ao Heráclito choroso, pois na indumentária da jovem figura renascentista, que exibe também seu prazer físico, não se esconde ninguém menos do que o velho pesquisador Demócrito, que não foi apenas um philo-sophos, um amante da sabedoria, mas também um philo-gelos, um amante do riso e do humor. Seu pensamento estava sob o signo do gelos divino, do riso diante das tolices do gênero humano. Para ele, o ser humano não se caracterizava apenas por saber rir. Estava também condenado ao ridículo. E só a conjunção desses dois aspectos permite esclarecer o fascínio estranho do Demócrito ridente, cujo riso é a um só tempo sereno e alegre diante da vida, por um lado, e zombeteiramente superior, por outro. Assim como Johannes Moreelse desapareceu por trás do seu pai, Demócrito também se via diante de uma figura imensa. Assim ao menos afirma a história da filosofia, e Nietzsche já se indignou com isso. Pois enquanto a filosofia ocidental estava com Demócrito no melhor caminho para “avaliar corretamente” a existência humana, ela nunca atingiu esse objetivo, “graças a Sócrates” e seu discípulo Platão. Eles introduziram no jogo uma seriedade moral e um rigorismo gnoseológico, que expulsaram o riso da filosofia. Filósofos não riem, ao menos não na tradição inaugurada pelas obras de Platão. Demócrito era natural de Abdera, cidade grega situada na costa norte do Mar Egeu. Abdera localizava-se no país dos trácios, e talvez venha de lá esse riso, tão raro na filosofia ou mesmo devido a razões filosóficas, pois o riso de uma jovem escrava trácia sobre o sábio Tales de Mileto, quando ele caiu num poço por não ter olhado para o chão, mas para o céu estrelado, tornou-se proverbial. Platão descreveu essa cena, na qual se encontraram o sisudo protofilósofo e a protocomediante trácia, que teria sido “espirituosa” e “bonita”. Mas ele condenou o riso zombeteiro da escrava trácia, que só podia resultar da sua burrice. Assim a anedota platônica tornou-se o exemplo canônico da simploriedade obtusa dos incultos diante da filosofia. “A filosofia acontece onde se ri. E as pessoas riem por falta de juízo.” Assim Hans Blumenberg resumiu essa longa história, que começa com a rejeição platônica do riso sobre o tombo de um filósofo e se estende até a atualidade. Só podem ser estultos os que riem sobre a filosofia e seus especialistas. O riso, portanto, não teria nenhum lugar na filosofia? Não existem pessoas inteligentes, que se interessam pela filosofia, mas não aceitam que se lhes proíba rir? Sim, mas precisamos procurá-los, o que às vezes exige visitas às correntes subterrâneas da história da filosofia, pois ao lado do sisudo Platão e dos seus incontáveis sucessores na filosofia acadêmica existe também o Demócrito ridente, que iniciou uma linha de
tradição própria. Recapitularemos essa linha nesse livro com vistas a um período superior a dois milênios, iniciando com Demócrito e Diógenes, passando por Kant e Kierkegaard até chegarmos a Karl Valentin, que potenciou o espanto filosófico diante da linguagem em uma comicidade que nos permite vivenciar diretamente o prazer do riso.”

Excerto traduzido do livro de Manfred Geier, “Sobre o que riem as pessoas inteligentes”, à venda nas boas casas do ramo.

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