Arquivo do dia: 02/12/2011

Climão de fim de ano alerta

Por Marli Gonçalves

Cuidado. Não adianta mais nada agora. Ele está aí, nem digo para ficar, porque daqui a pouco já foi. Já entrou tudo, ou melhor, já saiu. Como passou rápido esse ano! Esse e os outros que nos deixam os cabelos brancos, ruguinhas, e a sensação de sempre, de que poderíamos ter feito mais e melhor.

Não ria. Conheço um monte de gente que faz igual. Chega dezembro e começa a fazer balanço do que deu para fazer e do que fez até sem dar, o que acontece com muita frequência. Fora os planos que vêm sendo carregados, tal qual fardos – ano após ano – no papel ou no âmbito das frustrações. Tem quem goste de tudo isso, e não é o meu caso, que acho um porre essa época e todos os salamaleques, obrigações e sentimentos que se dispersam na primeira esquina. Todo mundo fica bonzinho – deve ser resquício de quando precisávamos nos comportar para ganhar presentes de Papai Noel, para passar de ano, para o papai-do-céu nos perdoar. É o povo se fazendo de bobo para viver, como se dizia.

Este ano tudo chegou antes: as árvores, as luzinhas. O climão. Quando vi a rua já estava coberta de apelos natalinos, com a visível predominância – repare – de bolas, aquelas frágeis que eu não sei como chamam, e que a gente dependura nos galhos, brilhantes, coloridas, de vários tamanhos. Devem ter sido produzidas ainda mais em massa lá na China, o país que influencia os penduricalhos e a moda de uns tempos para cá.

Você pode até correr, mas difícil vai ser não acabar envolvido com tantos apelos comerciais, de consumo, alguns até para começar a pagar só depois do Carnaval, e ficar devendo o ano inteiro, mês após mês. Sentiu o frio na nuca? Pois olha só o que consegui focando o climão e o que vem junto dele: uma lista de coisas com c. C de casa. C de comida. (O resto é por sua conta).

Chegam as compras todas que você vai ter que fazer, nem que não queira. O cansaço que vai sentir se tentar ir dar um “olá” em todos os lugares para o qual acaba chamado para aquele abraço de confraternização. Fora o cansaço de atender todas as demandas que deveriam ter sido planejadas, não foram e acabaram sobrando, adivinha, para nós,coitados de nós, na última hora. As chopadas, a cambada de livros que lançam, a coleção de amigos que aparecem e de graças a distribuir por aí, para não passar o ano vendo gente de cara feia, como os porteiros, entregadores, entre outros.

Já pensou e comprou as comidas para as ceias? E as cestas? Vai ter festa na firma? Cuidado com os ciúmes – nessa época é difícil casal que não brigue porque um quer ir ali e o outro lá, e quando sozinhos aproveitam para se soltar. Cuidado com os micos das festas, e as cantadas típicas que acontecem quando um monte de gente se reúne e se destrava com bebida e esquece de comer os canapés. E lá vem o cabeleireiro necessário, e mais compras – as roupas que não dá repetir. Convites não faltam. Contas também não e elas são um chute nos sacos, que nem laços têm.

A verdade é que no mundo real – neste que a gente vive, fora da ficção cor de rosa e choque dos governos, passamos 365 dias pulando mais do que pererecas sapecas, e está cada vez mais difícil dançar conforme a música. Todo mundo chamando urubu de meu loiro.

Deve ser por isso que a decoração barata e tímida, racionalizada, dizem – toma conta das ruas. Deve ser por isso que alguns lugares chiques resolveram buscar uma temática animal para seus enfeites, pelo menos aqui em São Paulo. Uma coisa da natureza, de um lado, tipo ecológica; mas também real, como a boca do leão aberta, e a selva. Coitadinhas das renas – até elas andam com medo de ser atacadas na região da Avenida Paulista e aguardam com ansiedade a votação da Lei anti-homofobia ( essa semana) para poder por a cara para fora, sem medo, as coitadas das gazelinhas.

O climão também não está para peixe, o olho da cara, atravessando o verão que também chega este mês, e que é bom para uns; ameaça para outros, com as águas que levam ano após ano suas coisas e suas mágoas.

O climão está aí. E mais uma vez, mais um ano chegará ao fim, sem grandes novidades para contar, e embora eubem mereça, não dá para viajar, parar, descansar. Tem que chegar, sorrir, sumir. Pelo menos nas festas. Já aprendeu a fazer um carão?

São Paulo, arrematando 2011 

(*) Marli Gonçalves é jornalista. Jura que tem sido muito boa “menina”, se comportado direitinho. Espera poder ganhar pelo menos alguns dias de papo para o ar, mas tem muitas dúvidas se os pedidos feitos chegarão ao correio dos seus bons velhinhos.

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Vai meu samba de Porto – o melhor samba, o que mais gosto e o que mais quero

Por: Altair Santos (Tatá)*

Ufa, pensei que não ia dar tempo! Hoje eu não podia deixar de falar pro meu samba. No apagar da luz, cheguei cansado da apressada e repleta agenda de hoje e, sem refrescar, vou direto ao assunto. Ainda é quinta-feira, mas logo será sexta-feira e com ela amanhecerá o sol de 2 de dezembro – Dia Nacional do Samba, dia do meu, do seu, do nosso tão querido e inesgotável samba de ontem de hoje, de amanhã e de sempre. O samba que, como nenhuma outra música ou ritmo, identifica, embala e representa tão bem o povo brasileiro, é o nosso DNA musical. Por isso, vai meu velho e bom samba! Te esquiva, faz cintura no requebro da mulata e sai miudinho, passa limpo, ligeiro, faceiro, sem perder a cadência, passa leve e solto, vai bonito e envolvente pelos pés do passista e permeia por entre essa enxurrada de mau-gosto e coisa ruim que a indústria cultural derrama, às toneladas, todo dia contra os nossos quengos e sai lá na frente, bem adiante e, como sempre, levanta ileso, fiel a ti e aos teus. Podem pensar que não, mas, aqui nesta nossa urbe, o samba também é maravilhosamente arrebatador, envolvente. O rufar do surdo, sob os acordes do cavaco, chama um saculejo e propõe um ziriguidum de moral. Pandeiro e ganzá se misturam a vozes e batidas na palma da mão e pronto, tá feito o samba. Aí vão-se as horas e o samba – leia-se balanço sabor Brasil – se apossa de nossas vidas, despe as nossas almas e veste nelas as indumentárias de Babá e Neguinho Orlando, Bola Sete, Leônidas Carol O’chester, Ari Barroso e Noel Rosa, Cartola e outros mais.   Acho – desculpem a imprecisão de dados – mas os dois extremos do samba aqui em Porto Velho estão, numa ponta com João Henrique Manga Rosa, na a letra e melodia: “triângulo teu passado e tua glória, tuas cabrochas, tua história, tudo isso há de ficar…” e no outro extremo, o Mercado Cultural com a Fina Flor do Samba, onde ecoam os sambas dos nossos autores locais e de outros ícones nacionais. É o samba, o homem e o tempo colecionando valores, fazendo história, escrevendo a memória. Em pontos eqüidistantes – entre Manga Rosa e o Mercado Cultural – estão ainda vivas algumas escolas de samba da capital, além de velhos e novos baluartes e personagens. Nos arriscamos a incorrer na omissão (por esquecimento) de alguns nomes, mas não nos furtaríamos de fazer especial ressalte aos bambas Ernesto Melo, Waldemir Pinheiro da Silva (Bainha), Sílvio Macêdo dos Santos (Sílvio Santos) e Antonio Chagas Campos (Cabeleira). Há quem não os goste. Porém, negá-los, é renunciar em somatória, mais de 200 anos de experiência, em se tratando de samba, distribuídos entre o quarteto de bambas. A partir deles, quanto samba bom, quanto samba! Mais, quanto sambista bom! E não paramos: Dentre as escolas de samba, as resistentes, as novas e as que não mais existem, todas ainda nos reconduzem ao ânimo. A Caiari há tempos se foi mas ainda é igualmente linda como a Castanheira, que também não mais está. A cidade porto que abriga tribos culturais de várias linguagens, acomoda-se nas tardes de sábado em temperadas rodas de samba. Seja no Asfaltão (tenda do tigre ou bar do Calixto), seja no Mercado Cultural, nas casas, bares e outros redutos de paticumbum, formamos uma confraria cujo mote é fazer e se permitir ser parte ou todo, do samba nosso de cada dia. Hoje não tem jeito, é pegar a amada pelo braço e, com jeitinho, riscar o salão escrevendo um samba ode à sua majestade, do dia, o próprio samba. Aos sambistas de Porto, todos eles, sejam cantores, compositores, intérpretes ou aficionados, a nossa homenagem e saudação.

(*) O autor é músico e Presidente da Fundação Cultural Iaripuna / tatadeportovelho@gmail.com

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