Arquivo do dia: 20/11/2011

Não é refresco essa pimenta

Por Marli Gonçalves

Uma coisa é uma coisa. E dependendo da ordem de onde está para ser posta a famosa pimenta ardida do dito popular, como colírio ou …, as situações mudam de forma impressionante. E viram uma outra coisa, provavelmente até mais cabeluda e difícil de resolver.

Incrível como qualquer mudança de ângulo é capaz de mudar uma história. São os contrapontos de nosso cotidiano. Vou começar de forma radical, do jeito que o diabo gosta, mas deixando claro que isso não quer dizer nenhuma tomada de posição ou de lado. Apenas só mais uma irreal e insana tentativa de entender a realidade.

O terrível magrelo traficante Nem e muitos daqueles seus horrorosos comparsas foram presos. A polícia ocupou a Rocinha. Mas eu vi, ouvi e li vários relatos da população local questionando, preocupada, quem os ajudaria agora. O poder do tráfico é mantido em geral pelas benesses e concessões de favores aos moradores das regiões que ocupam. O pagamento do aluguel atrasado de um, a compra de remédio para outro, a proteção contra um inimigo, o carro para levar um idoso ao hospital.

E como anda bem difícil achar quem ainda acredite em governos e instituições, tanto aqui como na Conchochonha ou Conchichina …Mais fácil acreditar no malaco que se vê todo dia no bar, ou no baile. Isso não é bom.

É um novo populismo, rígido e centralizador, o que se instala, no sentido mais tradicional de assistencialismo e paternalismo, dá-lá-toma-cá, esse tipo de coisa se alimentando sorrateiramente nos morros, favelas, igrejas e prisões, apenas para citar algumas estruturas. Um novo escambo comportamental movido a interesses pessoais; legítimos, mas pessoais.

Hoje eles são mais raros, mais ainda existem no imaginário popular: os agiotas. Porque muitas vezes as pessoas preferem procurá-los do que aos bancos? Provavelmente pela possibilidade de diálogo direto, mesmo que isso possa ser ameaçador e arriscado. É um negócio entre pessoas. Pessoas que não vão pesquisar a vida SPC. Emprestam. Se o cara não pagar, vai se haver feio, na “mano”, muitas vezes até sob violência; mas não com papéis e processos. Uma escolha. Juros por juros, escorchantes, excessivos, parece mais fácil que os bancos. Espero que não me linchem, masficha limpa por ficha limpa, alva, quantos são os que têm? Quem não tem uma pendenguinha pendurada aqui ou ali, mesmo que involuntariamente?

Há vidas e possibilidades paralelas ao longo de todo o nosso percurso. A ideia dos espelhos, igual à da abertura da novela. Nossos pequenos crimes, talvez?

Não sou muito chegada a hipocrisias, embora até às vezes as reconheça como necessárias. Lá vem um outro exemplo da tese de como o é realmente difícil que algo seja bom para gregos (quase ruços, agora na crise braba) e troianos: as cadeias e a tal “facção criminosa que domina os presídios”, como dizem as tevês que agora não ousam mais falar o nome PCC. Antes havia várias; agora, o PCC domina todas as prisões, com alguns sócios no Rio de Janeiro. E digo dominar mesmo, inclusive a moral vigente no interior delas. Percebeu como diminuiu o número de rebeliões? (E percebeu que aumentaram os grandes assaltos, de equipes, até com turnos de ação?)

Igrejas. Igrejinhas. Igrejões. Seitas, seitinhas. Associações, ONGs, agremiações. Todas as denominações possíveis de agrupamentos que, movido por líderes, ou espertos, ou ambos, viram um lar, uma entidade social de apoio, um telhado. Entende por que eles, grupos em torno de uma crença, – todas as religiões – crescem para os lados e para cima com seguidores? Antes eram assim os pequenos e aconchegantes centros espíritas e terreiros de umbanda, mas impossíveis para os bilhões que hoje viramos. Era o “painho”, a “mainha”; hoje é o Padre Marcelo Rossi. Os bispos e pastores das evangélicas que se diferenciam porque estão sempre com as portas abertas, láááá. Sabe ? É uma quebrada que você nem imagina, onde-você-nunca-foi-nem-irá, obrigado, mas onde as pessoas vivem e morrem.

Elas precisam de tudo e de apoio. E essas organizações cada vez maiores e mais poderosas, atuando volumosamente no paralelo, estão sempre por perto, como um “paragoverno”.

Não dá para substituir algumas coisas. Assim como não será a prisão do Nem e seus metralhas que acabará com o crime e o tráfico, fazendo nascer um jardim florido, muito menos naquela favela comunidade castelo da Rocinha. Tão grande que daqui a pouco proclamará independência, solicitando suas credenciais de município fluminense.

Logo, mesmo com a ocupação militar, surgirá um novo líder; não é preciso ser vidente. Só precisamos é rogar para que seja bem mais próximo do Bem do que do Nem.

São Paulo, atenção, em 2011, eles estão vindo para cá, e se instalando  onde quase ninguém nunca vai.

• Marli Gonçalves é jornalista.   De vez em quando mira o mundo, atrás das respostas sobre algumas coisas. Coisas de repórter

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Domingueiras de sempre, do Blog do Confúcio

“Pai-Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha nós o vosso reino e seja feita a vossa vontade….”

1. Domingo é domingo, parar com isto de tanto peso, tocar a vida, ir a Silves no Amazonas, cidadezinha com 100% de Internet para todos, meio dos lagos, onde lutas aconteceram entre índios e portugueses. Dá para ser diferente e pensar grande em qualquer lugar.

2. Quem sabe, logo depois, ir à Cocal dos Alves no Piauí, dar uma olhadinha na paisagem das salas de aulas. E procurar entender como uma cidade tão pequena, criou tanta vergonha do atraso e resolveu mostrar-se ao Brasil , que é possível, fazer mais com menos, como exemplo de educação de qualidade. Além do gosto dos alunos pela matemática.

3. Agora, vou pegar o avião, pousar em Paragominas, onde tudo era devastação. Hoje, não. Prospera lavouras de paricá, refloretamentos a sumir de vistas, quem sabe aqui também segue este caminho. O homem tem esta grande capacidade, que é nos momentos de infortúnio, inflar-se de um sentimento estranho e grande – que é o da reconstrução.

4. Olá Presidente Figueredo, Amazonas, não vou tardar tomar banho nu nos seus lagos e cachoeiras. Onde solidão e a natureza são as roupa que nos vestem. Ir à Festa do Cupuaçu, comer de tudo que tem por lá e voltar mais gordo e feliz.

5. Oriximiná, Alenquer, Crissiumal, Ibirubá, Anori, Eirunepé, Uarini, Inhangapi, mais longe, em Anajás, é por aí Brasil, onde se mistura o índio e tudo mais. Cabral chegou aqui. Fez o registro de nascimento da terra em cartório. O índio é o verdadeiro dono. Salve Abaetatuba e Urucurituba.

6. É o salário que move a riqueza. Quer combater desigualde dê salário. Emprego é o maior instrumento de justiça social. Ninguém pode negar a importância das empresas. Grandes e pequenas. Elas movem a economia e a vida. E as multinacionais, nada contra elas. São criações extraordinárias, movem o mundo inteiro. Nós temos as nossas brasileiras, um orgulho. Vamos Rondônia preparar a nossa juventude porque o Brasil tem emprego sobrando.

7. Eu me lembro que nós brasileiros odiávamos os americanos. Chamávamos de imperialistas, ianques. Faixas nas ruas e muros pintados. Os bolivianos pensam o mesmo do Brasil. E mais outros países vizinhos. Tudo é relativo neste mundo.

9 – A Revista Veja desta semana mostra um abismo. Abismo de esculhambação de cargos em comissão no governo federal. Mas de 20 mil. Na Inglaterra só tem 300. Chile 600. Rondônia mais de 5 mil. Já reduzi 2000 e vou derrubar este castelo de areia. Ficará bem menor. Quem viver verá.

10. Ética é como acidente de trânsito e morte. Parece que só acontece com os outros. Ética também, só para os outros. E nós? Claro que estamos acima do bem e do mal. Os fundamentos de tudo, vem da família, da criação. Os pais sabidos ou não é que transmitem aos filhos regras e princípios. Um deles é o respeito. Outro só fazer para os outros o que gostaria que fizesse com você.

10 – Gente, nem todo mundo nasceu para liderar. Governo de coalisão é uma peste necessária de convivência. Um casamento turbulento. Claro que precisa de enquadramento. O que manda é a filosofia do governo. Não é o que cada um pensa e quer. Porque se for assim tudo se transforma numa Torre de Babel. Tem muita gente boa e sincera, que vê o seu limite, tem a ombridade de colcocar o cargo a disposição numa boa e ir embora.

11 – Viajar com tudo pago pelo governo. Bom demais. Diária e hotel. Beleza. Mas, qual o resultado prático de tudo isto? O que o povo ganhará com sua viagem? Conferência, encontro, palestra. Um turismozinho aqui e ali. A noite um cervejada. Uma dança. Veja pela Internet, bem mais cômodo e barato. Estou cortando na carne.

12. Todo mundo do governo está grampeado. Coisa boa. Com certeza o rendimento será muito maior. E cuidado com aqueles que tem cargos e não trabalham.  Ganhar dinheiro sem trabalho é crime. Além de tudo mais, tem que devolver tudinho corrigido. Estou de olho!

13.Obrigado Professora Raquel pela oração: Ó Espírito Santo,
Amor do Pai e do Filho/Inspirai-me sempre/o que devo pensar,/o que devo dizer/como o devo dizer/o que devo calar/o que devo escrever/como devo agir/o que devo fazer/para obter a Vossa Glória/o Bem das almas
e minha própria santificação.” (Cardeal Verdier)

14. Este poema é lindo demais. De Dylan Thomas, o máximo, veja se escreve outro melhor! – O MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

15. Morte do Tota – dia 18 passado, velho seringueiro e pescador da beira do Rio Jaru, Comunidade Padre Adolpho Rholl. Meu amigo. A primeira vez que o visitei cheguei por lá a pé. Muitas léguas, município de Theobroma. Depois deste primero contato nunca mais nos separamos. Só agora, com a morte. Ano passado tive por lá. Almocei com sua família. O rio estava cheio, a água beirava a casa, fácil de pegar a canoa e pescar.”

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