Laio

foto : S. Ramos

A semana começa mais triste com a notícia da morte do Laio (Francisco Lázaro) , beiradeiro de Calama, músico, ex- integrante dos Anjos da Madrugada, irmão do também meu amigo Serginho Santos. Laio além de grande músico era produtor, e pelas mãos dele passou a maioria dos CD´s gravados em Porto Velho. As informações dão conta que seu corpo será transladado de São Paulo para Rondônia nesta segunda-feira. E o velório e sepultamento ocorrerão no cemitério “Jardim da Saudade “. Laio fez parte do antológico CD “Amazônia em Canto” , uma seleção de músicos regionais que mostraram o seu talento para o Brasil e o mundo. Laio também participou da trilha sonora do meu primeiro documentário feito por estas bandas “Latitute 8 º 46´Sul – Porto das Esperanças” , que acabou se tornando um LP e um show que foi mostrado até na Sala Cecília Meirelles, da Funarte no RJ. A arte de Rondônia, definitivamente,  está de luto com a perda deste guerreiro.

Laio – O silêncio do Uirapuru

Por Altair dos Santos(Tatá)

Um dos uirapurus da Amazônia silenciou de vez. O Laio rasgou a cortina do tempo, estufou o peito, soltou a voz e foi cantar lá no céu. Cantava como poucos, de forma emocionada. O criativo compositor e cantor tanto fez que ultimamente já não habitava os raios dos holofotes da cena cultural e emprestava o seu melodioso em forma de oração para o movimento da Renovação Carismática Católica entoando, de quando em vez, orações musicais que iam alojar-se direto nos corações das pessoas. Por entre rios e florestas, quis o imã do registro histórico que buscássemos agora, em simbólico mergulho nas barrentas e apressadas águas do Madeira, o menino Laio, conterrâneo nosso lá da Vila de Calama (hoje distrito). Sem receios, mas aboletado na sua curiosidade beradeira, um dia aportou no Cai N`Água, pruma vida de prosa cultural e fé católica na cidade porto. Abriu o paneiro e passou então a exibir os bribotes da sua criação e invencionice musical, melódica e poética. O Laio cantou pro botos e pras araras, cantou pras matas e pros pássaros, pros índios e pros brancos. Se permitiu ser e fazer árvore fértil, prenhe de pura seiva, deixando gotejar, com fluidez, do seu tronco-peito os poemas, os versos e os cantos, cujos quais, podemos, definir como mantras amazônicos. Sua marcante voz se vez ouvir pelos brados dos Movimento Cultural Grito de Cantadores, ecoando nos longes do Teatro Amazonas (Manaus), Praça da Sé (São Paulo), Sala Cecília Meirelles (Rio Janeiro), Museu da Imagem e do Som (Belo Horizonte). A voz do “caboco” foi longe e exprimiu a força do nosso verde e o multicor da nossa verve criativa. O Laio também hasteou a bandeira do nosso cultural aqui e noutras paragens. Não bastando em si, criou com seus pares, Tatá, Monteiro, Nazareno e Roberto Matias, o ainda hoje atuante grupo seresteiro Anjos da Madrugada. Com os Anjos ele também cantou pra cidade e pras pessoas, pro amor e pra alegria de viver, como quem, dissesse ser a vida, uma dança mágica. Do epicentro de sua explosão criativa saiu vestido com o chapéu de fitas e se fez o amo do Bumba Diamante Negro. Antes, porém, já houvera brincado nos improvisos do fama Rei do Campo. Pensava rápido e compunha com maestria. Em suas autorias constam versos marcantes em defesa do vôo livre das asas azuis e vermelhas (música Por Deus, Por Nós). Disse que “cantar bumba e a alegria do povo, é ser feliz de novo, na Flor do Maracujá” (música Toadas). Cantou a fronteira do roçado com a floresta versando: “és coração como acero, se da mata és o início, do roçado és o fim” (música Acero). Fincado em suas raízes e sentimentos animou a brincadeira popular cantando “quem corre cansa, quem anda alcança, boneco duro, rouba bandeira, brinca de roda, da machadinha e bela condessa.” (música Terreiros). De tanto lutar, viver, cantar e compor, lá se foi o Laio, um desses uirapurus amazônicos que nos deixa o legado de homem bom e de boa fé. Na prateleira da existência, deixa uma história de vida ornada por sua obra. No peito da família e dos amigos fica um vazio com o nome saudade. Antes que esta dor se nos encha o peito, fechemos os olhos e imaginemos o Laio a nos embalar com ânimos para vida adiante com estes versos: “quando alguém tiver de se desesperar e quiser sentir no coração a poesia, a fantasia, a certeza de um tempo, é cantar é compor. Cada verso que eu escrevo é fantasia, é a vida que me deixa assim, mas parece até que é coisa do destino, cada verso é um pedaço de mim.”

8 Comentários

Arquivado em Delírio Cotidiano

8 Respostas para “Laio

  1. SANAUA

    SANAUA
    SAUDADES… PAI.

    TATA, MUITO LINDO O QUE VOCE ESCREVEU… PARABENS E OBRIGADO.

  2. Paula

    Meu paizinho, meu tudo, o que farei sem vc agora ???
    Nossos últimos dias juntos, naquela cidade, noites de tv, noites de frio, e agora??!!!Só me resta te encontrar de novo, não sei quando, como, mais metade de mim se foi com vc!!!Forever Pai!!! A saudade doi, me sinto sem chão , sem rumo…E sozinha!!!Mas breve iremos nos encontrar meu velho!!!Amarei vc Eternamente Pai!!!Meu pai!!!
    Paula

  3. Lara

    Pai,meu eterno herói !

  4. Lara

    Pai, meu eterno herói. Lara

  5. tizá

    PAI muitas saudades…

  6. tizá

    muitas saudades…

  7. Luiz Alfredo Nunes de Melo

    Laio

    Vivemos muitas viagens
    atravessamos muitas estradas
    comemos banana sprit em Ji-Paraná
    mergulhamos em muitos igarapés
    curtimos muitos por do sol no mirante
    na beira-mar em Fortaleza
    você foi meu primeiro professor de violão
    meu parceiro preferido
    você era mestre nos acordes
    nos versos
    você foi meu diretor de teatro
    grupo Terra
    muito Tomita
    muito Pink Floyd
    éramos da mesma vila de Calama
    você nativo
    eu implantado
    moramos em Porto Velho
    pena que o destino nos afastou
    sempre tive saudades de você
    porque eras uma poesia viva
    amavas a vida
    amavas a Deus
    o violão parecia tua parte
    eras nos acordes um artesão
    na harmonia uma poesia
    na criação um artista irreparável
    saiba meu amigo
    que morreu um parte de mim
    e em mim permaneceras vivo
    saiba que o sabia
    o uirapuru e o peito-roxo
    estão de luto
    saiba meu irmão
    que tua canção está no meu coração
    sei que a morte faz parte da existência
    faz parte do percurso da vida
    e que eu não gosto de chorar
    mas estou chorando
    com saudades de você
    fazia tempo que não te encontrava
    agora estou lembrando os últimos
    momentos em que estivemos juntos
    porque serão momentos inesquecíveis
    o Grupo Terra ficou órfão
    Calama e Porto Velho estão chorando.

    Luiz Alfredo – poeta

    v

  8. Realmente uma grande perda para Porto Velho.Laio além de ser um excelente músico sempre foi uma pessoa disposta a ajudar todos e hiper participativo,pois por várias vezes se envolveu em atividades na educação,participando e levando o conhecimento da música regional aos alunos de Porto Velho.Laio o músico era a própria música, não havia divisão, ele era a música,o instrumento, tudo.Não havia dualidade.
    Que Deus o receba de braços abertos!

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