Viagem de moto : Interoceânica rumo a Machu Picchu

Por Marcelo Resende, texto e fotos

Otite crônica, crise de coluna que quase me impedia de colocar o pé esquerdo no chão e uma assadura monstruosa em função de dosagem errada de medicamento. Essa não é a melhor situação para dar início a uma viagem de moto. Mas parece que pilotar moto faz um aterramento com o inferno e todos os demônios do corpo e da alma vão indo embora à medida que os quilômetros vão passando sob as rodas. E assim parti para aproveitar a semana de férias familiares que a Karla havia me permitido. Obviamente eu sonhava em fazer um passeio um pouco mais longo, mas sabia que a saudade de casa seria um grande empecilho. No final de semana anterior eu havia ido na sexta-feira para o encontro de motos em Tiradentes-MG. No sábado à tarde eu já estava sem chão e só pensava em voltar para casa para ficar com a esposa e os dois filhotinhos, apesar do encontro estar ótimo. Resisti, mas no domingo bem cedo eu já estava chegando ao lar.Com essa restrição em mente, parti pensando em pousar no Grande Hotel de Araxá-MG e depois seguir, se o coração permitisse, até Cuiabá-MT, a convite do Fior, do grupo V-Strom Brasil. Na volta, eu curtiria algumas estradas de terra na região da Serra da Canastra-MG.

PRIMEIRO DIA

Parti na segunda-feira, 05/07/2010, na hora do almoço. Apesar das inúmeras obras na BR-262 para o Triângulo Mineiro, algumas com interdições de até 30 minutos, cheguei em Araxá ainda muito cedo. Não tive dúvida: abasteci e continuei a viagem.Após ter pilotado por volta de 700 km naquele dia, já anoitecia e parei para dormir em Itumbiara-GO. Não gosto de pilotar à noite por ser menos seguro e também por não enxergar nada após o lusco-fusco.

UM DIA DE CÃO

No dia seguinte, parti com o objetivo de dormir em Cuiabá-MT. Teria que pilotar um pouco mais de 900 km, o que não seria problema algum para quem sai cedo para a estrada. Mas os primeiros 100 km em Goiás já indicavam que o dia não seria bom. A estrada era tão somente um conjunto de imensos buracos. Era necessário entrar e sair de casa um deles. Um verdadeiro exercício de paciência.Ao entrar no Mato Grosso, o asfalto estava um pouco melhor, mas o trânsito de carretas bitrem era algo monstruoso. Mesmo de moto, cada ultrapassagem era complicada, pois formavam filas imensas e não deixavam nenhum espaço seguro entre elas. Trânsito intenso, em especial no período de safra, e asfalto muito ruim fazem uma combinação cansativa. O trecho entre Itumbiara a Cuibá, passando por Jataí e Rondonópolis, deve ser evitado a todo custo.Cheguei em Cuiabá no final da tarde completamente exausto. Fui muito atenciosamente recebido pelo Fior que me indicou hotel e à noite fomos comer um peixe Pera e bater um agradável papo.A noite foi de dúvidas: voltaria para Araxá, passaria uns dias na Chapada dos Guimarães ou seguiria até Porto Velho para fazer uma navegação no rio Madeira?

ENTRANDO EM RONDÔNIA

Como cavalo arreado só passa uma vez, eu não poderia perder essa oportunidade de conhecer o rio Madeira, passeio já sugerido pelo velho amigo João Maia, de Natal. Subi para Rondônia passando por Cáceres. A estrada estava com alguns buracos e vários remendos, mas com poucos caminhões. O fluxo de veículos a partir de Cuiabá é bem menor. Também a partir de Cuiabá as distâncias começar a ficar bem maiores. Os pontos de abastecimentos ficam mais espaçados e quem estiver com moto com autonomia inferior a 300 km não pode descuidar muito. Não faltará abastecimento, mas também não dá para esperar entrar na reserva para procurar um posto de combustível. O calor já dava sinais de que seria presença constante. A temperatura ficava sempre entre 37 e 39˚C. Mas como o conjunto de jaqueta e calça era muito ventilado, o calor só era incômodo nas raras paradas. Aliás, vale destacar que não dá para ficar fazendo paradas constantes no Mato Grosso e em Rondônia, sob pena de não conseguir avançar pelas longas distâncias. Tudo é muito distante nesses estados. Parece que cada quilômetro tem 1.500 metros por lá. Eu não imaginava que encontraria tanta beleza nas estradas do Mato Grosso. Há várias belas plantações e a vegetação nativa é muito bonita. Pilotei por um pouco mais de 950km no dia. Já em Rondônia, a noite foi caindo e parei para dormir em Pimenta Bueno. Dei sorte de encontrar vaga em um bom hotel da cidade e que tinha preço bem justo. Próximo à praça principal e junto aos bares, a noite foi de pequena e agradável caminhada e ótima comida. A otite e coluna já estavam curadas pela moto.

VIAJANDO POR RONDÔNIA

O dia começou com um grande golpe na viagem. Durante o café da manhã no hotel, vi um pai picando frutas e preparando o café para suas duas filhas. Quase pensei e volta na hora para casa, mas resisti a segui em frente. Viajar por Rondônia foi uma agradabilíssima surpresa. A estrada era domina por alguns poucos caminhões e muitas Hilux. Fiquei impressionado de ver a quantidade de Hilux nas estradas. Sou um grande admirador da Land Rover Defender, jipe que era muito freqüente nas estradas brasileiras. Para minha decepção, vi apenas uma Defender ao longo de toda viagem. Mas as Hilux apareciam como enxames. Quem nunca viajou por Rondônia não sabe o que está perdendo. Apesar de estradas com vários remendos grosseiros, o visual é lindíssimo. Cada parada era uma diversão ao conversar com a população local. Sempre muito simpáticos, bem humorados e prestativos. Foi uma grande farra esse dia. A floresta amazônica já fazia as suas primeiras aparições. Inicialmente de forma discreta e afastada. Depois já podia ser avistada a uns 500 metros da estrada. Ali era uma floresta com altura média de 15 a 20 metros e bastante fechada. Mas a ocupação populacional, a agricultura e a pecuária, sempre às margens da rodovia, afastam a floresta do asfalto. Os pontos altos da viagem nesse dia foram os rios de Rondônia. Cada ponte era uma verdadeira curtição. Os rios são simplesmente maravilhosos. Sempre com água escura e cristalina, como Coca Cola, e com belíssimas praias de areia amarelada, a vontade era de parar em cada ponte para um banho nas águas quentes dos rios. Fiquei sonhando em poder separar uma semana apenas para curtir os rios de Rondônia. Em vários pontos era possível ver pessoas nadando, outras pescando e outras preparando peixes recém pescados para servir na areia. Muito gostoso, em especial com os 38˚C que me acompanhavam por todo o dia. Não tenha dúvida: pode começar a pensar em passar férias em Rondônia. Por volta do meio dia cheguei em Porto Velho-RO. Atravessei a cidade e fui ver o rio Madeira. Não era tão largo quanto eu estava pensando e sua água não é um exemplo de beleza por ser turva e barrenta. Sair de casa sem informação adequada acaba dando nisso. Nem mesmo um mapa do Brasil eu estava levando. Apenas o GPS. Navegar no rio Madeira não era mais o que eu queria fazer. E era ali que tomaria uma decisão importante. Liguei para a ‘sargento Karla’ e tive sua autorização e apoio para esticar um pouco mais as férias familiares. Resolvi aumentar a viagem até o Peru para conhecer Machu Picchu e a Estrada do Pacífico, chamada também de Interoceânica. O que eu queria mesmo era pegar mais estrada e, sendo possível, chegar a Cusco-PE. Mas se não desse, não teria qualquer problema. A bem da verdade, vale destacar que a idéia da Interoceânica não surgiu do nada naquele momento. Eu já havia iniciado essa conversa com um amigo em Belo Horizonte-MG, mas infelizmente o planejamento não foi adiante. E também já tinha lido sobre essa estrada em dois livros de amigos, assim como havia acompanhado o blog de um outro amigo que tinha feito esse trajeto alguns meses antes. Mas eu não tinha nenhum planejamento mais estruturado, nem mesmo um guia do Peru. Decisão tomada, acelerei firme para Rio Branco-AC, pois não sabia se eu encontraria outra cidade a caminho de Assis Brasil-AC, divisa com o Peru, onde fosse possível pernoitar. Como eu já disse, as distâncias por lá são imensas. Às vezes, as cidades um pouco melhores estão a mais de 300km umas das outras. Após pilotar por quase 1.100km naquele dia, cheguei em Rio Branco no início da noite, escoltado até um hotel por um motociclista – que estava de carro – e me interceptou na estrada. Rio Branco foi mais uma agradável surpresa. Cidade bonita e com trânsito tranqüilo. Saí para jantar em um restaurante à beira de uma praça. As mesas estavam mesmo na praça. A cidade tinha um cheiro muito gostoso; uma mistura de terra molhada e folha amassada. Como eu estava com muita fome e bem desidratado, duas cubas me deixaram tonto e até agora o porteiro do hotel deve estar tentando entender que pulos eram aqueles que o hóspede estava dando ao voltar do jantar. Era pura alegria por estar tendo a oportunidade de conhecer estados tão afastados quanto encantadores do nosso imenso e rico Brasil.

ENTRANDO NO PERU

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Saí cedo de Rio Branco com destino a Assis Brasil, onde havia a aduana com o Peru. Estrada boa, com apenas alguns remendos. A saída na aduana brasileira foi relativamente rápida. Em 20 minutos eu já estava liberado, mas tive que gastar mais um tempo por lá para contar a todos onde eu estava pretendendo ir. Os policiais federais ficaram preocupados, pois já era o terceiro dia de chuva intensa que se abatia sobre a região. Atravessei a ponte e cheguei em Iñapari-PE. Uma cidade muito pequena e feia, como todas as outras que eu encontraria às margens da Interoceânica na amazônia peruana. Tão logo atravessei a ponte entre os dois países, já tive uma noção do motivo da preocupação dos policiais federais na aduana brasileira, pois havia uns 300 metros da estrada em obras e tudo havia virado um grande e profundo lamaçal. Mas nada que “pé de um lado, pé do outro” não resolvesse. Chegando à aduana peruana, o atendimento foi muito atencioso, mas o policial não conseguia se entender com o computador para registrar os dados de entrada da moto. Fiquei por aí por incríveis 3 horas, sempre vendo a mesma tela do computador e, ao final, a mesma mensagem de “erro”. Nos intervalos eu aproveitava para trocar Reais por Soles, tirar cópias dos documentos que eles exigem e abastecer a moto. Há várias barracas para trocar moeda bem em frente à aduana. Só tinha como copiar os documentos em uma loja no meio do vilarejo. O abastecimento foi um caso à parte, pois o único “grifo”, no quintal do cara, onde havia gasolina, estava bem no meio do lamaçal das obras. Desci um degrau de lama de uns 60 centímetros de altura e com uns 70 graus de inclinação. A moto escorregava para tudo que era lado. Durante o abastecimento, vi uma pick up tentando subir o degrau e sem ter sucesso. Mesmo engatando a tração 4×4, a pick up ainda penou um pouco para vencer a subidinha. Era a minha vez. Manobrei a moto para que ficasse bem de frente com o degrau. Acelerei com algum vigor para que a roda dianteira subisse. Deu certo. Na ponta dos pés, desliguei o controle de tração e acelerei fundo. Voou barro para todos os lados, mas a roda traseira também subiu. Apenas como curiosidade, vale destacar que no dia do meu retorno não havia nenhuma lama, pois a chuva já não castigava mais a região. Documentação resolvida e câmbio feito, era só seguir até Puerto Maldonado-PE, cidade um pouco maior e que deveria oferecer alguma estrutura para dormir.

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A Estrada do Pacífico está muito boa no Peru, mas os pouco mais de 200 km entre Iñapari e Puerto Maldonado foram vencidos sem muita brevidade porque há uma infinidade de pequenas vilas ao longo da estrada e, em cada vila, vários quebra-molas. Saltar quebra-molas de moto não é problema, mas há que se respeitar e zelar pelas pessoas das vilas. Outro motivo para a viagem mais lenta foi curtir de perto, mas perto mesmo, a impressionante floresta amazônica. Se no Brasil a floresta está afastada da estrada uns 500 metros, no Peru a estrada é apenas uma insignificante linha asfaltada em meio à selva. Se você sair da estrada poucos metros, já estará dentro da floresta. Como tempo disponível é um passaporte para o inferno e eu ainda tinha boas horas antes de escurecer, resolvi “explorar mais de perto” a floresta amazônica. Mesmo sob chuva, encontrei uma pequena trilha de terra que saía da estrada e entrava na selva. Era uma trilha estreita, com dois trilhos como se fossem para passar as rodas de carroça e uma parte central mais alta, com grama, separando os trilhos. Ao colocar a roda dianteira na terra, já vi que o passeio não terminaria bem. Consegui entrar apenas uns 10 metros na mata e já foi o suficiente para ficar impressionado como a floresta é fechada. Não só as árvores são muito altas e próximas, como também há muita vegetação trançada pelos caules das árvores. Sem um facão e muita disposição, é impossível avançar pela mata só desviando dos ramos com os braços. Já tendo noção do tamanho da confusão em que eu havia me metido, vi também que não havia nenhum lugar para virar a moto e voltar. Tentei, obviamente sem sucesso, fazer a roda dianteira subir na grama central entre os trilhos. Impossível. Ao final de uns 15 minutos brigando com a moto e tentando retornar de todos os jeitos sem obter nenhum sucesso, eu realmente desisti e parti para a ignorância.
Já mais suado que bunda de carteiro, pois estava com capa de chuva e enfrentava o insuportável calor úmido da floresta, eu deitei a moto no chão apoiando o cabeçote do motor (que felizmente era boxer) na parte central de grama. Fui puxando a roda dianteira até conseguir fazer a moto girar apoiada pelo motor. Foi bem mais difícil do que eu estava supondo. Mas a surpresa foi que, uma vez “manobrada” a moto, consegui levantá-la sem maiores esforços, uma vez que o motor apoiado na grama já deixava o guidão da moto mais alto. Nunca transpirei tanto na minha vida.

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Chegando a Puerto Maldonado, vi que teria que atravessar o rio em balsa. Logo saquei o ambiente e notei que tinha duas escolhas: balsas menores, mais usadas por motos e pessoas, ou a balsa maior, um pouco mais demorada, mas com acesso mais fácil. A descida para a balsa maior era um lamaçal só. Desci bem devagar. A roda dianteira subiu na balsa, mas o pneu traseiro patinava e não dava tração para subir no degrau metálico da embarcação. Um caminhão que vinha logo atrás enfiou o dedo na buzina e não tirou mais. Ele estava descendo com todas as rodas já travadas e escorregando sem parar pela lama. E iria atropelar a moto. Eu já ia pular da moto quando duas pessoas rapidamente seguraram nos protetores de tanque da GS e, com o acelerador aberto, o moto pulou para dentro da balsa. Por uns 10 metros o caminhão não atropelou a moto. Quando ele bateu no buraco onde a moto estava atolada, também ficou atolado. Atravessamos o rio, todos nós rindo da situação, e o desembarque na outra margem foi muito tranqüilo, pois o acesso era só de asfalto. Vale informar que na viagem de volta não havia lama alguma, apesar de um pouco de chuva que caia. Chegando ao estacionamento do hotel CabanaQuinta, o menos medonho que encontrei na igualmente medonha Puerto Maldonado, joguei um pouco de água no protetor de motor e na mala lateral para ter noção do tamanho do prejuízo. Para minha surpresa, tudo estava sem nenhum amassado ou risco. Acho que Deus protege mesmo as crianças, os bêbados e os loucos. No meu caso, o idiota pobre também……

SUBINDO A CORDILHEIRA

Acordei cedo, comi alguma coisa no quarto do hotel e saí às 5 horas da manhã de Puerto Maldonado. Os primeiros 80 km foram percorridos com muita neblina, um pouco de chuva e, mesmo antes do sol nascer, já sob 28˚C. Ninguém sabia me dar informação sobre as possíveis obras na estrada até Cusco-PE. Eu sabia que alguns meses antes a estrada estava sendo interditada para as obras, mas não sabia os horários e os locais das chamadas “tranqueiras”. A viagem seguia tranqüila e eu ia curtindo o deslumbre que é a floresta amazônica. Até que, antes de chegar a uma vila chamada Mazuco, o asfalto acabou a apareceu a primeira tranqueira. A simpática “operadora de pare-siga” me disse que a estrada ficava fechada das 6h às 12h e das 13h às 18h. E que próximo à vila de Quince Mil havia outra tranqueira funcionando naqueles mesmos horários. Após dizer que eu estava viajando sozinho e que iria morrer de frio se atravessasse a cordilheira à noite, ela conversou com o dois policiais armados e eles me liberaram para passar, apenas pedindo que eu seguisse devagar. A partir daí foram aproximadamente uns 35km de estradas alternando um pouco de asfalto e muitas obras. O piso estava bem compactado. O que complicou um pouco foi que passei no terceiro dia de chuvas torrenciais e isso fez com que eu enfrentasse dois tipos de desafios: o nível mais alto dos riachos que têm que ser cruzados e a lama fina sobre a estrada já compactada. Fui seguindo vagarosamente pela estrada de terra, pelos seus desvios e pelos desvios dos desvios. Os desvios dos desvios eram um pouco mais trabalhosos porque implicavam em lama em subida ou descida. Tudo seguia sem maiores problemas até que em um desvio a estrada simplesmente acabou dentro de um rio largo e com correnteza. Fiquei parado pensando o que deveria fazer.
Como em um passe de mágica, aparece um peruano minúsculo com as roupas do consório Conirsa, que é o responsável por aquela parte da construção da rodovia, me mandando avançar sobre o rio. Como ele estava do outro lado do rio, dei sinal informando que eu não poderia atravessar com a moto. Ele insistiu para que eu passasse. Confiando nas orientações do peruano, coloquei o controle de tração no modo off road e fui enfiando a moto na água devagar. A água era bem barrenta, mas deu para notar que o piso era de grandes pedras de cascalho. Pedras grandes mesmo. Começou uma parte com mais correnteza contra a moto e firmei mais ainda os pés no chão. A correnteza foi passando, mas o rio ficava mais profundo, até que cobriu por completo o motor. Não me preocupei muito porque sabia que a tomada de ar do motor era bem alta, mas eu não poderia deixar a moto cair para o lado direito sob pena de ter um calço hidráulico. Sem maiores dificuldades, a não ser a angústia de não saber onde estava colocando a moto, passei por aquele rio. Ao sair do rio, o peruano me disse que o rio havia transbordado por causa das chuvas e tinha coberto o desvio da estrada. Para evitar lama, jogaram cascalho grosso no rio. No dia da volta, com menos chuva, o rio já não avançava mais pela estrada, estava tudo apenas úmido e foi possível passar sem nem colocar os pés no chão.

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Cheguei no vilarejo de Quince Mil. Muita lama, mas nada muito escorregadio. Parei para tomar um refrigerante e me informar sobre a próxima tranqueira. Eram 9h da manhã e três policiais tomavam o café da manhã em um bar. Fui até eles pedir informações. Os três foram muito simpáticos e me confirmaram que alguns quilômetros após Quince Mil havia uma outra tranqueira e que naquela não poderia passar fora do horário de jeito nenhum, pois estavam fazendo explosões. Fiquei no bar em Quince Mil por duas horas e meia batendo um longo papo com o simpático policial Antônio. Foi uma ótima conversa e ele me deu várias dicas para aproveitar melhor a cidade de Cusco-PE. Às 11h30 saí de Quince Mil e cheguei rapidamente na tranqueira que ainda estava fechada. Pontualmente às 12h ela foi aberta e se seguiram mais uns 30 km alternando entre um pouco de asfalto e bastante terra. O problema nessa segunda parte era que os trechos de terra estavam já compactados para receber o asfalto, mas a duradoura chuva havia formado uma fina camada de lama que escorregava demais. Considerando que esse piso era normalmente em curvas fechadas, subidas e descidas, foi necessário não ter vergonha dos trabalhadores da obra e abusar dos pés no chão. Os pés no chão também foram necessários em umas 4 ou 5 pequenas travesseias de riachos ou alagados que se formavam com as quedas de água das altas montanhas. Duas dicas: entre sempre na parte mais funda do riacho, pois as grandes pedras arredondadas já estão mais compactadas e têm o suporte das pedras mais altas. Use boas botas de cano longo. Como eu estava conjugando botas de cano longo e capa de chuva, não molhei o pé em nenhum momento. Imagino que pegar o frio no alto da cordilheira com os pés molhados não deve ser agradável.

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Finalizada essa segunda parte de aproximadamente 30 km alternando entre asfalto e terra, pensei que só encontraria asfalto até Cusco. Foi um engano, pois justamente na subida da cordilheira está sendo usada uma segunda estrada, muito íngreme e toda de terra batida misturada com cascalho grande compactado. Essa segunda estrada não asfaltada tem uns 7 km e, pelo que pude perceber, está sendo usada enquanto terminam a estrada principal. Indo por essa estrada não se passa mais em Marcapata. Se quiser ir até lá, terá que pegar um desvio e seguir alguns quilômetros por asfalto até a cidade. Embora durante a subida eu tenha enfrentado essas partes de obras com bastante lama, não há situações que ofereçam risco se o piloto tiver paciência e humildade perante os desafios. Na volta, embora eu tenha enfrentado também um pouco de chuva, o que é comum na região, o piso estava muito bom. Qualquer moto que seja um pouco mais alta passa sem o menor problema. Já antecipando um pouco o relato da volta, a única tranqueira que peguei foi entre o trevo de Marcapata e Quince Mil. O horário de fechamento é o mesmo: das 6h às 12h e das 13h às 18 horas. Ao longo de todas as partes em obras há uma infinidade de pequenas tranqueiras, mas só ficam fechadas por poucos minutos para garantir o tráfego em pista única. Subir novamente a cordilheira dos Andes, dessa vez pela região amazônica, foi uma experiência belíssima. As montanhas impressionam pelo tamanho. A subida é estonteante, pois se sobe de 600 metros a 4.752 metros de altitude em menos de 100 km. Essa subida faz a Cuesta del Lipan (para o Atacama) e Los Caracoles (para Santiago) parecerem brincadeira de criança. O visual é impressionante.

Aos 4.752 metros o frio é bem forte. Não fiquei muito atento ao termômetro, mas vi temperatura de 3˚C às 14 horas. Como eu estava com as roupas todas ensopadas de suor por ter que ficar usando capa de chuva no calorão da floresta, preferi não ficar dando bobeira no topo da cordilheira, ainda mais estando completamente sozinho em local onde até respirar era difícil. Também não achei prudente trocar de roupa ali com tanto vento. Certamente a moto seria derrubada. Sem dar ao corpo o prazo que ele se ajuste à altitude, é melhor evitar qualquer esforço físico. Preferi seguir viagem e esperar o clima esquentar um pouco à medida que perdia altitude.

CUSCO

Cheguei em Cusco no final da tarde e uma policial me indicou um hotel bem simples, mas limpo e com garagem fechada para a moto, a um quarteirão da Plaza das Armas.

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Não vou ficar relatando nada sobre Cusco, pois o Google ou qualquer guia são as fontes mais adequadas para ler sobre o assunto, mas não posso deixar de registrar que é uma cidade muitíssimo agradável. É necessário ter olhos com alguma experiência em viagens sem guia para conseguir descobrir os bares e restaurantes mais legais. Fui a alguns restaurantes simplesmente magníficos. E os pubs? Onde menos eu poderia esperar sempre havia um bar/pub onde era possível passar horas admirando a decoração, os drinks e as pessoas. Como eu estava aberto a experimentar todos os sabores do Peru (no sentido bíblico, obviamente), chegava sempre com uma postura bem “receptiva” nos bares. Rapidamente as garçonetes já estavam batendo papo comigo. Para fazer o pedido, eu sempre dizia: “confio nas suas sugestões para bebida e comida. Por favor, peça para mim o que você achar que é mais saboroso. Mas não me conte antes o que trará, ok!” Após um momento de dúvida sempre seguido por um sorriso, as garçonetes saiam admiradas. E garanto que só experimentei as mais deliciosas e típicas comidas e bebidas de lá. Atendimento sempre perfeito, obviamente que seguido de boas gorjetas.

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Fiz um passeio de um dia pelo Vale Sagrado, no segundo dia fui a Machu Picchu e, no terceiro, fiz um city tour em Cusco. Fiz questão de escolher passeios sempre com guias de primeira qualidade. Fazer esses passeios sem estar acompanhado de um bom guia é não explorar quase nada da riquíssima cultura inca. Também não cabe aqui comentar nada sobre Machu Picchu, pois guias e Google também superarão qualquer comentário que eu fizer. Apenas ressalto: é indubitavelmente uma das grandes maravilhas do mundo. Roteiro absolutamente imperdível. Mesmo que se vá de avião, será um ótimo passeio. Mas se for de moto ou carro, conhecendo as pessoas e vendo as paisagens, a sua compressão sobre a cultura local será ainda maior. Em um dos passeios pelo Vale Sagrado, encontrei um grupo de motociclistas australianos que haviam alugado motos (GS 800, GS 1200 e GS 1200 Adventure) em Santiago. Conversei um pouco com os donos da empresa (www.samttours.com) que foram muito simpáticos.

O INICIO DO RETORNO

Na última noite em Cusco, comecei a avaliar qual seria o caminho de volta. Sem ter mapas em mãos e usando apenas o GPS e algumas lembranças das viagens já feitas pela Argentina e pelo Chile, passei a trabalhar com três roteiros: 1) voltar pelo mesmo caminho, ou seja, Estrada do Pacífico; 2) seguir até Puno, entrar na Bolívia e chegar ao Brasil por Corumbá. As estradas de terra entre Santa Cruz de La Sierra e Corumbá, por pior que estivessem, não deveriam oferecer muito desafio uma que era período de seca; 3) sair por Iquique – Chile e seguir pelo deserto do Atacama e norte da Argentina, entrando por Foz do Iguaçu. Apesar da grande vontade de passar pela Bolívia, decidi voltar pela Interoceânica por alguns motivos: ver como estaria a parte em obras da estrada caso estivesse chovendo menos, passar em Rolim de Moura-RO para conhecer o Rodrigo Bertelli, o associado mais distante da lista V-Strom e explorar um pouco mais a agradável experiência que tinha sido pilotar no Mato Grosso e em Rondônia. Havia ficado um gostinho de ‘quero mais’ estradas por esses estados Saí de Cusco por volta das 7h da manhã a uma temperatura de uns 4˚C. A temperatura caiu um pouco quando peguei a estrada e despencou mesmo quando cheguei no ponto mais alto da travessia da cordilheira. Mas não passei nenhum incômodo, pois estava usando o forro térmico da jaqueta e da calça, bem como luvas de inverno.

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O cenário da travessia dos Andes estava muito bonito, pois havia uma forte geada. Alguns pontos de água estavam congelados. Tudo muito bonito. Apesar do frio, havia pouca neblina e deu para curtir bastante a descida da cordilheira. Entre o trevo de acesso a Marcapata e a cidade de Quince Mil havia a primeira tranqueira. Era a tal tranqueira onde não se pode passar mesmo. Fiquei lá por volta de duas horas no maior papo com os policiais, uma senhora que mora em frente à tranqueira e vende frutas e biscoitos para os motoristas e os demais motoristas que estavam parados. Não foi perda de tempo, mas sim uma curtição aquela parada obrigatória. Aberta a tranqueira ao meio dia, segui devagar pelo primeiro trecho em obras. Como não estava chovendo, a lama, quando existia, era praticamente desprezível. Não havia qualquer dificuldade em passar pelos desvios. Parei na delegacia em Quince Mil para despedir no policial Antônio e seus colegas que haviam sido tão simpáticos comigo quando passei por lá alguns dias antes. Após um curto bate papo, segui viagem pela segunda parte em obras. Apesar de uma fina chuva que caia, praticamente não havia lama nesse trecho. O tal rio que tive que cruzar e cuja água cobriu todo o motor da moto estava praticamente seco e foi possível passar sem nem colocar os pés no chão. Apesar da infinidade de rápidas tranqueiras, a viagem foi muito fácil, sem qualquer desafio. Quem não der o azar (ou sorte) de passar pela região após vários dias de chuva torrencial não enfrentará nenhum obstáculo que mereça mais atenção. Está tudo muito bem sinalizado e fácil de passar. É claro que motos custom e esportivas rasparão um pouco o fundo nas passagens de córregos, pois a pedras são grandes. Mas com jeito e cuidando bem da embreagem, não haverá qualquer problema. Não acredito que as obras estarão concluídas até dezembro de 2010 como é prometido. Inclusive, acho que a tranqueira principal – entre Quince Mil e o trevo de Marcapata – demorará a acabar, pois as explosões que estão sendo feitas no trecho demandarão um longo trabalho. Contudo, fica a dica: quem quiser evitar a tranqueira, passe aos domingos, pois a estrada fica aberta durante todo o dia. Passados os trechos em obras, segui direto para Puerto Maldonado. Não havia vaga no hotel CabanaQuinta. Custei a encontrar vaga em um hotel que tivesse garagem. Encontrei um hotel pulgueiro ao lado da concessionária Honda que ao menos permitia que eu parasse a moto dentro da recepção. Em tempo: em todas as cidades menores entre Puerto Maldonado e Cusco há muitos ‘grifos’ para abastecimento. E em quase todas as cidades há rede de celular da Claro e da Movistar. Há também opções de hotéis nessas cidades, mas não sei se com garagem fechada. De qualquer modo, acho que ninguém será louco de entrar no Peru para enfrentar os seus motoristas agressivos e imprudentes sem estar com a moto segurada. Nem preciso informar que os hotéis serão simplesmente um local para não dormir na chuva, pois certamente são todos abaixo da crítica. Mas há que se lembrar que estamos falando de vilas e povoados amazônicos peruanos. Ninguém com o mínimo de informação irá esperar qualquer tipo de conforto e higiene por lá. Certamente a garupa não gostará se, por qualquer motivo, ela tiver que dormir por ali, nem mesmo em Puerto Maldonado. Mas se você escolheu viajar sobre uma moto e não dentro de um carro, não se importará em dormir de forma precária algumas vezes.

PUERTO MALDONADO A PORTO VELHO

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Saí às 6h da manhã de Puerto Maldonado. A balsa maior que cruza o rio Madre de Dios funciona das 6h ás 18h. As pequenas balsas que levam pessoas e motos pequenas funcionam 24 horas, mas devem ser evitadas por quem estiver pilotando motos grandes. Na balsa, conversei com o engenheiro responsável pela construção da ponte sobre o rio Madre de Dios e ele me disse que certamente a tal ponte estaria finalizada até novembro de 2010. Pelo estado das obras, duvido que ele consiga concluí-la no prazo. Cruzado o rio, segui pela bela estrada até Iñapari, onde em menos de 20 minutos dei a saída do Peru, troquei os soles por Real e fui para a aduana brasileira em Assis Brasil. Mais 10 minutos na aduana e eu já estava pilotando sobre forte frio (havia chegado uma frente fria na região) pelo Acre. Atravessei todo o Acre e entrei em Rondônia. A viagem estava seguindo muito bem até que cheguei à balsa sobre o rio Madeira. Ao comprar a passagem, a senhora me informou que a balsa estava encalhada e que demoraria mais um bom tempo até chegar o rebocador. Esperei à margem do rio por umas 3 horas até que a balsa chegou. Ali eu tive que tomar uma decisão importante, pois já estava ficando bem escuro e eu não consigo pilotar à noite mesmo usando óculos. Ou eu voltaria por uns 200km por estrada boa até ter algum ponto para dormir, ou embarcaria a moto e, do outro lado, teria que pilotar por 225km de estrada esburacada até chegar em Porto Velho-RO para dormir. Detalhe: não havia movimento e nem qualquer estrutura no caminho. Seríamos a moto, a floresta, a noite e eu. Lembrei do parágrafo primeiro do artigo terceiro do estatuto (que não existe) da Putolinos Big Trail: “Avançar sempre. Retroceder; nunca. Render-se; jamais.” Em bom português, segundo a Karla: “Se não agüenta, por que não fica só dando voltinha de moto sábado de manhã?” Embarquei a moto e os demais carros e caminhões entraram. Durante a nossa travessia, a balsa encalhou de novo. Pensei: “Mais 3 horas de espera”. Mas se já está no inferno, então aproveite e abrace o capeta. Fiquei curtindo o rio sem nenhum stress. Em pouco tempo, o ‘piloteiro’ conseguiu fazer a balsa girar sobre o próprio eixo e terminamos a travessia. Deixei todos os carros partirem na minha frente, já que certamente eu seria ultrapassado por eles no escuro. A estrada até Porto Velho, cheia de buracos muito grandes na ida, já estava roda remendada. Mas eu não poderia confiar que não haveria nenhum buraco aberto e segui devagar. Havia alguns quilômetros em obras de recapeamento e a estrada estava em terra, mas muito bem compactada. Três horas depois eu já estava dormindo em um motel em Porto Velho. Apesar das duas balsas, da segunda ter demorado boas horas, das duas aduanas e de ter perdido uma hora do horário peruano em relação ao do Brasil, ainda foi possível cumprir mais de 1.050km no dia sem nenhuma imprudência e cheguei até descansado em Porto Velho.

PORTO VELHO A ROLIM DE MOURA-RO

Esse foi um dia muito tranqüilo, pois eu iria dormir em Rolim de Moura-RO e teria que percorrer só uns 500km. Mas foi um dia muito especial, pois conseguir curtir bastante as paisagens fabulosas de Rondônia. Cada ponte em Rondônia é um verdadeiro deslumbre. Eu parava em quase todas para admirar os rios. É cada rio mais lindo que o outro. Vários com belas praias de areias amareladas. Vi até algumas dessas praias onde havia gente pescando o peixe na hora, preparando-o na própria praia e servindo às pessoas que curtiam o rio. Foi uma manhã belíssima. Logo no início da tarde eu já estava em um ótimo hotel em Rolim de Moura, cidade que me surpreendeu muito positivamente. Não é uma cidade grande (ainda bem), mas tem uma ótima estrutura. Aproveitei para lavar a moto, que mais parecia uma bola de barro e cimento das obras da Interoceânica. ‘Depois da chuva’ fui caminhar pela cidade. Uma delícia de passeio. À noite fui recebido pelo Rodrigo, sua esposa que fazia aniversário no dia e seus pais. Eles me receberam muito bem e batemos um ótimo papo. Noite muito agradável.

ROLIM DE MOURA A CUIABÁ

No dia seguinte parti eu já estava na estrada às 6h30 sob um frio de 10˚C. Tinha uma frente fria parada sobre alguns estados do centro-oeste e do norte. A temperatura chegou no máximo a 14˚C no dia. Mas, bem equipado, não passei frio. Por sugestão do Rodrigo, evitei a rodovia principal para Cuiabá que passa por Cáceres. Segui a estrada que passa por Sapezal e Barra do Bugres. Foi uma ótima dica, pois o asfalto é novíssimo em grande parte do percurso, evita-se passar por dentro de uma série de cidades e o visual é muito mais bonito. Só não recomendo esse caminho para quem estiver com moto com autonomia inferior a 300km, pois certamente passará aperto. Diga-se de passagem, como é bonito viajar por Rondônia. Foi uma grande surpresa para mim. À medida que a quilometragem passava, era com muita saudade que eu deixava para trás Rondônia e a floresta amazônica. No final da tarde eu cheguei em Cuiabá sob uma forte neblina. Estava fazendo 11˚C e a serração era tão forte que não se via quase nada à frente e deixava a pista toda molhada. Parei no hotel Verona, na chegada na cidade, onde aproveitei o frio para pedir o jantar no quarto e dormir bem cedo. Um banho bem quente e cama, pois eu havia pilotado mais de 1.000km naquele dia e quase sempre com dia lindo, mas bastante frio. O céu azul me lembrava o do Atacama.

CERRADO NO MATO GROSSO

Acordei cedo no dia seguinte e ao sair de Cuiabá, a capital mais quente do Brasil, às 7h da manhã o termômetro marcava 10˚C na garagem do hotel. A ordem do dia seria não passar de forma alguma pela medonha estrada de Rondonópolis-Jataí-Rio Verde-Itumbiara. Ainda que eu tivesse que contornar por Porto Alegre ou Fortaleza, assim o faria, não repetiria aquela chata rodovia por nada. Escolhi a saída por Chapada dos Guimarães. Foi uma decisão mais do que acertada, pois mesmo sem parar deu para ter uma idéia de quão bela é aquela região. O relevo é grandioso e a cidade de Chapada é um charme só. Não fosse a vontade de chegar em casa, certamente passaria o dia lá. Logo após a cidade de Chapada a temperatura caiu para 7˚C. Eu tinha imaginado que passaria por uma região bonita, mas realmente não fazia idéia de que aquele seria um dos dias mais lindos da viagem. A viagem entre Chapada dos Guimarães e Barra do Garças foi simplesmente como admirar uma obra-de-arte. O cerrado naquela região é o mais bonito que já vi dentre as regiões de cerrado do Brasil, e olha que tenho uma boa quilometragem pelo nosso cerrado. Parecia que a vegetação iria explodir de tanta beleza. Parei algumas vezes para curtir os sons da natureza. O delicioso cheiro da vegetação invadia o capacete. Por várias vezes a moto foi sobrevoada por grandes araras azuis e amarelas que pareciam querer brincar comigo. Certamente voltarei em breve àquela região para poder explorar mais e curtir com calma a vegetação e o relevo que, emoldurados pelo capacete, formaram possivelmente os mais belos cenários de toda a viagem. Aquele dia foi realmente incrível.Já no meio da tarde eu me aproximava de Goiânia, mas para evitar o grande fluxo de carros que voltaram para a capital no domingo, mudei um pouco o meu roteiro e segui para Anápolis. De lá, ainda pilotei um pouco mais e quando o odômetro parcial registrou que eu tinha ultrapassado os 1.000km também naquele dia, parei para dormir em um motel em Alexania-GO.

A CHEGADA

O último dia foi moleza, porque eu teria apenas que descer um pouco menos de 800km, sendo a grande maioria pela pasteurizada BR-040. Por sinal, a estrada está um tapete só, sem buraco algum. Com o tanque cheio em Alexania, fui colocar os pés no chão só em João Pinheiro-MG, uns 400km depois. Parada para abastecimento e ‘desabastecimento’ e novo tiro big trail de mais uns 400km só colocando os pés no chão novamente na garagem de casa. No meio da tarde eu já estava com os filhotes no colo e de volta à família.

NAVEGAR É PRECISO

Um banho em casa e já foi o suficiente para começar a planejar as próximas viagens. Mas essas serão agora mais curtas e de carro com a família, pois a Karla e eu temos que começar a plantar nos dois filhotes as sementes do gosto pela estrada. Mudando um pouco a frase de Fernando Pessoa, digo que viajar é preciso e viver também é preciso. E se for possível conjugar o viajar com o viver, ainda melhor. Que os nossos filhotes adquiram o gosto pela estrada e pelas longas jornadas. Em especial, que apurem todos os seus sentidos para que vivam integralmente cada quilômetro rodado. E que Deus os dê sensibilidade e conhecimento para que entendam, admirem em respeitem os relevos, os climas, as vegetações e as culturas.

ALGUMAS CONCLUSÕES E REFLEXÕES

– Pilotei aproximadamente 9.500km em 15 dias. Nesse período, a moto ficou na garagem do hotel por três dias em Cusco e por outros três dias pilotei só meio dia. Evitei ao máximo pilotar à noite e toda a viagem foi feita sem ultrapassar os 120km/h. As poucas vezes que atingi 140km/h foram em raras ultrapassagens. Em toda a viagem não tomei nenhum susto, não fui fechado nenhuma vez, não tive que fazer nenhuma frenagem emergencial. Foi tudo absolutamente tranqüilo.
– Não há aventura alguma em cruzar a cordilheira pela Estrada do Pacífico. Com o atual estágio das obras, ainda que chova muito, é possível fazer o caminho sem qualquer risco ou imprevisto. Cruzar a cordilheira por esse caminho impressiona pela altitude, pela floresta e pela imensidão das montanhas. Mas pode ser feito por qualquer pessoa sem experiência, desde que respeite os efeitos da altitude e esteja preparado para as variações climáticas intensas.
– Hoje só passa frio ou calor sobre moto quem quer. A tecnologia dos tecidos garante proteção climática sob qualquer situação. Essa história de quase morrer congelado pilotando nos Andes é coisa do passado, quando se usava couro (coitadas das minhas jaquetas de couro esquecidas nos maleiros, que me esfriavam no inverno e esquentavam no verão), ou de quem está muito sem informação sobre os novos materiais disponíveis. Melhor visitar uma boa loja de roupas para motociclismo. Melhor esquecer também a velha relação custo x benefício. Compre o melhor equipamento sem olhar o custo, mas compre só uma vez. É mais barato e inteligente.
– A viagem foi marcada apenas por duas tristezas. A primeira foi ver as centenas de tatus e tamanduás atropelados nas estradas, em especial no Mato Grosso. É uma quantidade muito grande mesmo. A segunda foi ter ido e voltado até um dos pontos mais distantes do Brasil sem ter sido parado para fiscalização policial nenhuma vez. Se não fosse pela aduana peruana, eu não teria nem tirado o documento da moto da carteira. As porteiras estão abertas para veículos roubados, sem documentação e sem condições de circulação. Em apenas um posto policial havia um profissional em pé na estrada verificando os veículos que passavam.
– A moto se comportou maravilhosamente bem. As suspensões, o conforto e a imensa autonomia se destacaram em todo o trajeto. Passando pelas ruas de calçamento de pedra ao chegar em casa, ela continuava sem nenhum grilo, nhec nhec ou tic tic, demonstrando a sólida construção e a robustez da fixação dos bauletos de aluminio. A única intervenção que fiz foi reduzir um pouco a pressão dos pneus em Cusco, pois fui com a pressão indicada no manual para experimentar as recorrentes recomendações de amigos. Na volta, fiz o que sempre gostei: 10 a 15% abaixo da pressão recomendada pelo fabricante. Ficou muito melhor.
– A Estrada do Pacífico poderá ser um divisor de águas para vários estados brasileiros e, em especial, para a integração do Peru à sua rica região amazônica. Mas não sei se será um caminho sempre transitável, pois pelos monstruosos desmoronamentos que vi, qualquer deslizamento de terra sobre a rodovia demorará meses para ser removido.
– A viagem a Machu Picchu pela Interoceânica certamente se transformará no curto prazo em um roteiro muito demandado pelos mototuristas e tem tudo para agradar os viajantes, exceto pela completa falta de higiene nas cidades peruanas da Amazônia. Contudo, dadas as longas distâncias a serem enfrentadas no Brasil, imagino que muitos irão enviar suas motos diretamente para Rio Branco, em especial os motociclistas das regiões Sul e Sudeste.

Muitos motociclistas brasileiros  parecem ter complexo de vira-lata e só valorizam as viagens feitas para os países vizinhos, em especial Uruguai, Argentina, Chile e Peru. A Bolívia tem entrado no rol dos roteiros mais freqüentes, mas ainda não ocupa posição de destaque, apesar da sua incrível beleza. Normalmente conta-se como todo orgulho e com ar de aventura as viagens feitas nos outros países, ficando as domésticas sempre preteridas, apesar da infinidade de roteiros excelentes que temos no Brasil. Parece que a cordilheira e os desertos são os únicos atrativos para os motociclistas. Infeliz o motociclista que não sabe apreciar ou não se anima a conhecer as belezas do nosso país. E nessas belezas, temos que inserir Mato Grosso e Rondônia. As distâncias são longas; isso é inegável. Mas Ushuaia também não fica logo ali na esquina. Há que se ter amor pelo ato de pilotar uma moto e muita perseverança para chegar até o Acre. Se a sua primeira experiência em duas rodas foi em uma Caloi Cecizinha rosa ou se moto é para você apenas um objeto para mostrar aos outros como você é radical e jovem, então é melhor realmente despachá-la para o Acre. Mas se você tem três bagos e é discípulo do Genghis Khan, chegar até lá será um belíssimo desafio, tanto pelo desafio em si quanto pela beleza de todo o trajeto. Não tem muito tempo para a viagem? Mostre como você é corajoso, acesse o site de uma agência de turismo e compre um pacote “Machu Picchu Aventura”. Tem medo de pilotar pelas estradas do Brasil? Então seja um arrojado piloto de Corolla na ‘ameaçadora’ rodovia Dom Pedro I. Mas tenha a hombridade para contar para os seus filhos e netos que você não foi ao Peru de moto; apenas deu uma voltinha de moto por lá.Se apesar de toda sorte de razões para não fazê-lo, você ainda pretende iniciar a sua viagem por Rio Branco, trabalhe com a opção de comprar uma XRE 300 ou uma Lander 250 na capital do Acre, faça a viagem com ela e, no retorno, deixe-a para vender na mesma loja onde comprou. Ou negocie previamente com o lojista o deságio para que ele fique com a sua moto. Essas motos são mais que suficientes para te acompanhar pelo passeio. Contudo, se você escolheu viajar sobre uma moto é porque Deus te deu a sensibilidade para curtir a faixa amarela passando pelo ouvido esquerdo. Assim, não invente desculpas e não deixe de conhecer melhor uma rica parte do nosso país. De quebra, ainda aprecie um belo cenário na cordilheira e curta uma inegável demonstração da sofisticada engenharia inca.

Corra seus riscos, mas viva seus sonhos.  E boa viagem!

Marcelo Resende – BH/MG ,professor da PUC de Belo Horizonte, mas acima de tudo, uma dedicação ao motociclismo.  e:mail : m.res@terra.com.br

Agradecimentos ao Eduardo Wermelinger, do excelente site Rotaway , que gentilmente autorizou o reblog deste texto.

Leia também : Moto Atacama : acompanhe o dia-a-dia da Expedição Caribe-Colombiano

8 Comentários

Arquivado em Delírio Cotidiano

8 Respostas para “Viagem de moto : Interoceânica rumo a Machu Picchu

  1. claudia

    Vc sabe se a carta verde é aceita no Peru? Quais os documentos que vc teve que tirar cópia? Pediram o tal SOAT?

    vamos sair dia 29 de setembro por Foz do Iguaçu e subir até Cusco, voltando por Rio Branco.

    Grata
    Claudia

  2. Edmilson

    Pelo seu relato percebi que és um aventureiro de raça, parabéns. Moro em Porto Velho e estou pretendendo fazer esta viagem agora em novembro/2011. Ao que tudo indica, você fez sua viagem em 2009, na época das chuvas amazônicas (janeiro a março), foi isso?

  3. Juan Lozano

    Parabéns pela viagem, a muito venho planejando esta viagem ao Perú, mas com um aperitivo a mais, sair a de Manaus e chegar en San Martin (região central do Perú). A estrada interoceanica veio a encorajar muito mais este projeto, que pela graça de Deus será realizado. Você disse uma grande verdade, é preciso coragem e humildade, porque o que irá ficar será a ótima e inesquecível lembrança desta viagem. Grande abraço.

  4. Fabricio Satelis

    Parabéns pela viagem muito legal….estou planejando a minha para janeiro de 2012…vou sozinho….moro em Nobres MT, quero sai e voltar por Rondonia…. tenho um pouco de medo por causa dos postos de combustiveis, minha moto é uma xre300 a autonomia dela é baixa….seus comentarios me ajudou muito.
    Abraço.

    • Junior Vidotti

      Olá, Fabrício… sou de Cuiabá e também tô querendo fazer essa trip! Já fui pra Bolivia e Peru de mochilão. Agora a vontade é fazer de moto…

      Tá afim de conversar e a gente ver se dá pra fazer junto? Meu msn é italianbr1@hotmail.com!

  5. Giovani Zancan

    parabéns por sua viagem e por seus comentários. moro em Cacoal/RO e estou de viagem marcada a Cuzco para 18 de julho (estou um pouco receoso pelo frio) com outro amigo, sendo apoiados por uma hilux (pra variar). quando retornar, postarei meus comentários sobre o estágio da obra (parece que tem somente 30km de terra), condições nessa época do ano. Abraço. Giovani

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