Mujiques

Por Rafael de Andrade

Nove quilômetros separam a capital desta pequena vila. As pequenas casas que compõem o cenário rural desta região são intercaladas com grandes fazendas, criadouros de gado e por balneários onde se lavam algumas gentes. Este cenário representa perfeitamente toda característica desta região. Enquanto a carne vaga em ônibus para o abatedouro de todo dia, onde a máquina consome a vida, que já não é grande ou preciosa, outros ricos, bem pobres de espírito e intelectualidade, cantam seus males para profissionais – do inferno ou dos céus -, os que não estão nem no abatedouro nem com o machado nas mãos, vagam por entres banhos, carnavais e bares infestados de intelectuais de esquerda e nossa elite artística e intelectual, estes que ao lerem meus escritos sentem coçar as orelhas e uma pontada fina no lado esquerdo do estomago, estes que eu amo. Estes, cujo nome eu não pronuncio mais por ojeriza do que por medo, escrevem sua literatura e seus sambas como quem escreve um ‘querido diário’, contam suas experiências medíocres (e que outro tipo de experiência poderia ter nesta terrinha, um ‘artistazinho’?) e trocam seus nomes por João, por Antônio, qualquer nome que não seja o deles, caracterizando assim uma confissão social transformada em arte! Maravilha dos rios e matas desta região varonil.
O que mais me ofende dos defensores desta arte ‘daqui’ é que em suas casas, defendem a leitura dos clássicos, dos originais, do que já foi concluído pelos grandes e tomam a literatura como um ato que pode ser realizado sem a leitura de uns russos e franceses, especialmente de um Dostoievski ou de Balzac. Cansado de tagarelar – pois homens como nós só podem tagarelar, não somos homens de ação – sobre frutas da região, cidades, bois, “cultura” e tudo que possa fazer propaganda de um ladrão qualquer tendo como pano de fundo “a região”, resolvi investigar pessoalmente um fenômeno interessante que se passava nesta tal “vila”, cujo nome eu não irei pronunciar completamente, pois ainda temo por meus filhinhos, mas tudo começa com U. e seguem outras letras.
Esta vila é formada por muitos camponeses, proletariados que não possuem, em sua maioria, formação intelectual alguma, mas que não se sabe por qual força, acreditam serem o que há de mais inteligente em toda região. Credito toda esta “pomposidade” ao nome que a cidade carrega algo que gira em torno do universal e do regional, como se seus cidadãos pudessem carregar em suas costas os dois mundos assim envolvidos. A elite política, econômica e mental da vila é formada por homens formado intelectualmente, preocupados em salvar os pobres ou em aumentar a força de seu prestígio.
O fato que tive a oportunidade de presenciar foi que em decorrência da mudança de ano, alguns espertos empreendedores da capital diminuíram em trinta e sete por cento o preço da ‘alma’, que já era mal paga, algo em torno de cinco ou seis moedas redonduchas por dia. Um simples calculo de cabeça fez com que duas dúzias de moradores da vila se revoltassem e na ocasião, eu tava passando pela vila e fui tragado pela visão daquela pequena turba se reunindo em torno de umas garrafas de cerveja. Assim, sentei para ver a reunião.
Pude logo ver que de todos os que estavam ali, apenas um ou dois realmente sabiam o que estavam falando. Um destes iniciou seu discurso afirmando que neles consistia a frente revoltosa de toda a cidade e confirmou a importância histórica daquele momento e quando a palavra ‘histórica’ foi pronunciada, pude perceber algumas meninas suspirarem no canto da sala, como um pequeno orgasmo político que todos procuravam. Permaneci calado com meu livro debaixo dos braços e de quando em quando, alguém voltava o olhar para minha pessoa e pensava no intimo: “eis um espião” e com medo de represarias, eu balançava a cabeça afirmativamente toda vez que aquele um pronunciava ‘história’, ‘cultura’ ou ‘revolução’, as palavras mágicas. Assumi esta atitude para me misturar à pequena turba, pois com exceção de dois, todos se resumiam a balançar a cabeça afirmativamente e dar uns pequenos gritos de – aparente – revolta.
Quando o segundo homem falou, perdi totalmente a cabeça. Ele achou de bom grado queimar a casa de uns homens na cidade, raptar crianças, vendê-las aos comerciantes de escravas por apenas sessenta e três por cento do peso de suas almas, como sinal de protesto. Pensei no inicio que se tratava de uma brincadeira e por isto soltei leves gargalhados, esquecendo do medo que tinha anteriormente, quando todos me olharam com certa violência. Meus risos cessaram e as cabeças se voltaram para o segundo homem. Este homem, que não tem nome, não tinha barba e tinha o cabelo muito bem arrumado e alinhado com sua roupa, como todo bom falador.
Então, me levantei e tentei argumentar contra aquele plano maluco. O caminho do intelectual não é este, podemos causar confrontos e destruição apenas usando de nossas palavras, afirmei. As palavras não fazem nada – disse o primeiro homenzinho – nossas forças vêm de nossos braços que carregam madeira todos os dias para aquecer a roupa de nossos senhores. Então parou e pensou um pouco na besteira que pronunciara em alto tom. Pensei então em argumentar a favor de um plano voltado para as ciências econômicas, como calcular o valor de uma alma, comparar com o valor da alma em outras cidades ao redor do mundo (que eu já não sabia se existiam). Então os gritos começaram e pude ouvir em um canto da sala alguém me chamar de reacionário. Argumentaram todos que não haveria como levantar esta questão, pois quem mandava no preço das almas eram eles mesmos, os poderosos.
Levantaram-se com a intenção de protestarem violentamente e eu os segui, mesmo sendo empurrando por alguns no caminho. Na praça da cidade, ocuparam alguns veículos e colocaram fogo, a policia foi chamada para o confronto e a gritaria foi geral. Os revolucionários já se encontravam vitoriosos quando um gordo bem vestido, portando uma coroa na cabeça e um livro em uma das mãos chegou com seu grande carro. Levantou uma das mãos e os policiais pararam. Levantou o livro e a maioria dos revolucionários parou, com a língua tocou sua coroa e todos pararam, se deitando no chão. Permaneci em pé admirando aquela figura que, com apenas alguns gestos, silenciara toda revolta e ele me olhou diretamente nos olhos, não entendendo porque eu não me curvara.
Os policiais começaram a jogar gasolina nos homens deitados enquanto eu me afastava. Notei na face dos revolucionários uma apatia maior que a do gado indo para o abate, sem entender o que realmente ocorria no momento – ou em toda sua finita vida -, os homens fardados obedeciam ao rei gordo enquanto jogavam gasolina em primos e irmãos, apenas obedecendo. De longe vi a fumaça e o cheiro de carne assada enquanto aquela pequena turba era assassinada, morrendo em silencio, sendo ignorada pela história e tendo como único registro, o apreço deste reacionário porco chauvinista, vejam a ironia em tudo isto.
Enquanto os vinte e quatro corpos queimavam no solo da vila, outros vinte e quatro homens vinham da cidade para jurar lealdade ao rei, tendo como primeira tarefa jogar na fossa o corpo destes traidores, afinal, recebiam alimentação, transporte e o mínimo de conhecimento e arte, o suficiente para reproduzir a idéia de quem é mais poderoso e por isto, deve mandar.

P.V. 16 de Dezembro de 2010.

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