Amondawa

Por Fabrício Cruz

Aconteceu de um dia esquecer da sua idade. Sim, sabia dos números, quantos anos tinha. Mas não conseguia relacionar suas experiências vividas com aqueles algarismos numéricos. Se sentiu deslocado do seu redor. Inserido no estático e dinâmico estado de tao. O tempo passou a ser Unidade. Um prolongamento sem cisões.

Mas logo veio a necessidade de lembrar-se de tudo! De todos os meses e anos acusados em sua identidade. Sobrecarregou-se, pois agora era demasiado confuso processar essas correlação outrora tão simples. Eram muitas as informações. Necessitaria de novos sistemas para organizar e racionalizar acerca de todos aqueles dados, lógicas, números…

Os números… Sobretudo eles, quais eram seus papeis naqueles sistemas. Simplesmente compor estruturas de medidas e controle? E se Ele estiver errado, o sistema de medidas?! E se o tempo não puder ser mensurado, domado, encaixotado? Como eu posso simplesmente separar o Agora de todo o resto?!

Encontrava-se num dilema.

Foi espiar o calendário, mas ele não lhe trazia significado algum. Ou melhor, vislumbrava noções, lógicas que havia decorado um dia. Mas não lhe traziam o significado do que já haviam sido. Os números eram frios. Previsíveis. Lineares. Como iria enxergar suas memórias, tão vivas, naqueles signos. Seu primeiro beijo, seu primeiro gozo, seu primeiro sonho, sequer tinham datas.

E agora? Como mensurar a vida que teve? Ele não poderia agregar a complexidade de fatos que constituíra sua identidade, com aqueles números. Este tempo poderia ser uma farsa! Pensou. O conjunto de seus Eus não cabia nos algarismos de sua certidão, era um fato. O menino, o jovem, o homem. Que caráter teriam tido? Quantas mudanças celulares? Quantas trocas de fluídos? Quantas metamorfoses sofrera durante a fractal ascendente que é a vida? Quantos nomes teria sido? Poderia sintetizar em dois números?

Definitivamente suas vivências não podiam ser reduzidas a um sistema decimal. Iria queimar todos os calendários! Sabotar suas agendas, e esquecer-se de seu aniversário. O relógio era um instrumento da produtividade, não do Ser. Tinha o direito de decidir. Tinha a opção de se eximir. Seria ótimo! Mas havia um problema. Todo o resto do mundo ainda usaria calendários e relógios. Sua ideia era impraticável.

Irritou-se. Não estava convencido de que sua nova maneira de enxergar o tempo teria de ser deixada de lado. Foi quando, distraído, viu uma notícia num site da internet. Teve seu semblante iluminado e sorriu. Quem o visse poderia muito bem achá-lo louco. Já que algumas vezes a loucura é uma epifania má interpretada. Mas não estava louco, pois ele não era o único que havia tido tal constatação

Foram 5 dias de ônibus, mais 7 dias de barco até aquela tribo na Amazônia chamada Amondawa. Lá ele recebeu um novo nome. Lá ele não tinha acesso a nenhum calendário e pode, finalmente, esquecer a data do seu aniversário. Não porque queria esquecer que existiu um dia para o seu nascimento, mas por que àquela fagulha não se cindia do fluxo da vida. Estava novamente inserido no estático e dinâmico estado de tao, onde o tempo era novamente Unidade.

Quando retornou não se importava mais com a existência dos calendários e dos relógios, pois eles também faziam parte do fluxo e a ausência era apenas uma ilusão da matéria.

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*Os Amondawa não tem as estruturas linguísticas que relacionam tempo e espaço – como, por exemplo, na tradicional ideia de “no ano que vem”. O estudo feito com os Amondawa, chamado “Língua e Cognição”, mostra que, ainda que a tribo entenda que os eventos ocorrem ao longo do tempo, este não existe como um conceito separado. As pessoas da tribo não se referem a suas idades –em vez disso, assumem diferentes nomes em diferentes estágios da vida, à medida que assumem novos status dentro de sua comunidade.

(BBC NEWS, 23/05/2011)

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