Qual será o preço da indiferença.

Por Rud Prado

Quem vai ao shopping da nossa Capital pode estar distraído ou atento demais às novidades das vitrines para perceber o que se anuncia lá fora. Com sacolas e estômagos cheios passamos pela multidão de jovens que se aglomera por ali. Não olhamos para os rostos banhados pela luz do chafariz . Não ouvimos o que se pronuncia no burburinho. A caminho de casa comentamos sobre o filme em 3D, ou sobre as peripécias de Bruna. Ah, Bruna Surfistinha!… Nada fora da rotina. Mas há algo acontecendo bem ali, no nariz do nosso templo de consumo. Grupos, galeras de jovens de todos os cantos da cidade, estão indo para lá. Até aí nada demais. Nada mais natural do que a moçada se reunir, conviver. Mas para alguns desses grupos o conceito da boa convivência não existe. Pouca graça tem a o último filme em 3D, ou a sensualidade da atriz Deborah Secco. A excitação está na hostilidade que se cultiva lá fora. Lá, gangues juvenis encontram aquilo que mais buscam: uma vitrine. Grupos de 20, 50 ou mais pessoas se insultam mutuamente. Ou pior: escolhem alguém para vítima. Como a maioria é menor, isso inibe uma atuação maior por parte dos agentes de segurança do shopping, que observam tudo a distância. Quando observam. Ali se empurram, cospem uns nos outros, se agridem. Dessa galera alguns se desgarram e vão lá para dentro do shopping. Comprar briga, claro. Em espaços comuns como o salão de espera das salas de cinema, praça de alimentação e corredores, a graça está em humilhar, ameaçar outros jovens. Chamar para uma “briga” lá fora. Briga entre aspas porque vale brigar 10 contra 1, 20 contra 1. Quem não reparou, repare. Vá ao shopping e olhe, observe. Nos finais de semana e nos dias em que o ingresso de cinema é mais barato, a coisa ferve. Já vimos até onde isso chega. Jovens espancados até a morte. Ou um jovem vegetando em cima de uma cama, amparado por uma mãe em desespero: o filho que levou uma surra de uma dúzia de arruaceiros com os hormônios à flor da pele e nenhuma base familiar. Isso não é ficção, não é cinema. É a realidade de todos os dias. No entanto, parece que é da cultura brasileira, não apenas deixar para última hora, deixamos passar da hora. Somos passivos. Nunca proativos. Podíamos evitar o crime, mas preferimos lamentá-lo. Parece que necessitamos alimentar o jornal de notícias ruins. As galeras estão no Shopping. Deveríamos aproveitar que estão fazendo daquele lugar uma vitrine para a fúria juvenil e dando visibilidade ao problema das gangues, para fazermos alguma coisa. Que tal pensar em resolver esse problema? Qual é a estratégia da segurança pública e da própria sociedade para desestimular isso? Seja no shopping, nas periferias, nas escolas? Voltemos ao chafariz. O policiamento não aparece por lá. A segurança do Shopping se aparece, pouco comparece. Há relatos de armas de fogo, de armas brancas. Mas a pior arma é o culto à covardia. Não é incomum por esse Brasil afora, que um grupo massacre uma pessoa. Como bárbaros, os agressores riem ao chutar o corpo inerte. Isso ainda não ocorreu no Shopping. Muitas brigas, nenhuma morte. Mas vemos isso na TV todos os dias. Estamos esperando o quê para tomar uma atitude. Peço ao jornalismo local para verificar essa pauta. Convido as autoridades competentes a pensar sobre o problema das gangues. Quem sabe evitamos que famílias paguem um preço muito alto pela indiferença ou negligência de uns e pela barbárie de outros.

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Arquivado em Delírio Cotidiano

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