Arquivo do dia: 28/12/2010

Odair Cordeiro e nós outros

Por Jorge Streit

Acordei sobressaltado no último dia 16, com uma mensagem de celular que me informava da morte de Odair Cordeiro. Morrera naquela madrugada uma das figuras mais importantes da política de Rondônia, apesar de jamais ter exercido um mandato eletivo.

Trinta anos se passaram até que aquele minúsculo grupo liderado por ele e José Neumar se transformasse num dos partidos mais fortes do Estado. E não houve um único dia, em todos esses anos, que ele não tenha se dedicado a esse sonho.

Desde 2003, com minha mudança para Brasília, encontrei-me poucas vezes com Odair. Talvez umas seis ou sete vezes. Em uma de minhas últimas estadas em Porto Velho, tentei fazer-lhe uma surpresa, indo à sua casa na Avenida Getúlio Vargas, sem avisar. Porém, ao chegar, deparei-me com uma empresa funcionando no local e, por fim, acabei não conseguindo encontrá-lo.

Nas nossas brincadeiras eu o chamava de Velho e ele me tratava por Alemão. Há poucas semanas ele me ligou à procura de um volume contendo várias revistas do Asterix que havia me emprestado havia mais de dez anos. Foi a última bronca que ouvi daquele turrão incorrigível. Ao final, conversamos um pouco sobre os filhos e marcamos encontro para minha próxima ida a Rondônia.

Convite chegou dentro da agência

Além de companheiro na política desde 1982, fui seu companheiro de copo por muitos anos. No antigo Bar Bangalô ou sob o pé de jambo de sua casa, fizemos inúmeras reuniões etílicas. Quando parei de beber, em 1996, recebi dele uma reprimenda nos seguintes termos: “Alemão, a pessoa que tem uma cara de bêbado como você não pode parar de beber. Você não tem o direito de desperdiçá-la”. Outras vezes, se me queixasse de algum problema de saúde ouvia dele o seguinte: “Não te falei para não parar de beber? Nunca te vi doente nos tempos de farra…”.

Após sua morte, troquei um e-mail com o jornalista Montezuma Cruz para comentar sobre o assunto e para cumprimentá-lo por ter resgatado informações preciosas sobre o trabalho de Odair nos primórdios do PT em Rondônia. Naquele momento, me lembrei de um dia do ano de 1982, quando ele foi à agência do Banco do Brasil em Ariquemes para me convidar a entrar no PT. Em suas andanças pela cidade como representante comercial, ouvira falar de um grupo de jovens bancários que organizava protestos e que acabara de lançar um jornal estudantil. Percebeu que ali poderia estar um ponto de contato para a criação do Partido naquela poeirenta e inóspita Ariquemes, um embrião de cidade que vivia a euforia da colonização implementada pelos militares, já nos estertores do regime.

Na linha do PRC, outros caminhos

Velho deixou em minhas mãos um maço de folhetos mal impressos com os nomes dos nossos candidatos às eleições daquele ano. José Neumar era candidato a deputado federal e Montezuma a estadual. Fizemos uma votação pequeníssima, mas protagonizamos o início do Partido numa época muito difícil para qualquer movimento de oposição em Rondônia.

Nos anos imediatamente seguintes trilhei caminhos diferentes de Odair dentro do PT. Nos meus primeiros tempos de Partido, coloquei-me como independente e até como oposição em relação à direção estadual representada por Odair e Neumar. Na época, alinhei-me com militantes que iniciavam o MST e que se identificavam com o antigo PRC – Partido Revolucionário Comunista. Nosso foco era o apoio às ocupações de terra e a criação dos primeiros sindicatos.

Para nós, incendiados pela paixão militante, as práticas de Odair levariam a um PT conciliador e restrito à via eleitoral. Em 1986 apresentamos uma chapa de oposição ao diretório estadual e vencemos. Montamos uma direção executiva sem Odair e Neumar, com integrantes espalhados pelo estado e não conseguimos “tocar” o Partido. Por muitos anos depois Odair me “zoou” por causa disso.

Depois, já no final dos anos 1980, comecei a me aproximar de sua casa e a trocar ideias. Nessa época eu já começava a me firmar como dirigente sindical e passava a ter mais humildade para perceber o quanto poderíamos aprender com a experiência daquele homem.

Por várias vezes, nas minhas refregas sindicais com a polícia, era ele o primeiro a chegar ao quartel com o advogado dentro do carro dirigido pela Lúcia. Também nessa época muitos outros jovens militantes passavam pela sua casa para ouvir suas estórias e conselhos, embora muitas vezes não admitíssemos publicamente. Josias Gomes, Inácio Azevedo, Roberto Sobrinho, Ernandes Segismundo, Edineide Arruda, Eduardo Valverde, Fátima Cleide, Daniel Pereira, Bernardo e muitos outros.

Tempo das alianças

Até o início dos anos 1990 vivemos um período de afirmação do PT em Rondônia, tocando as atividades com o dinheiro das feijoadas feitas por Odair e Lúcia. Até então, o Partido ainda não era alternativa de poder. A partir daí, com o crescimento, começaram a se colocar diante de nós as propostas para formação de alianças com outros partidos. Foi aí que Odair encarnou a figura de articulador político, recebendo os ônus e os bônus desse papel.

Para os militantes mais à esquerda, virou alvo de muitas críticas, sendo responsabilizado por uma “política de conchavos”. Para outros, inclusive eu, representava a figura de hábil articulador, sempre atento às melhores opções para o PT.

Foi assim que se deu a aliança com José Guedes em 1992, quando PT e PSDB ainda não eram inimigos figadais. Foi assim também a tentativa de aliança com Raupp no primeiro turno em 1994, pouco depois desautorizada pelo Diretório Nacional do PT pelo fato de o PMDB não constar da política de alianças aprovada nacionalmente.

Nesse processo tive que abrir mão de uma candidatura a deputado federal com grandes possibilidades e virei candidato a governador numa campanha meio quixotesca, na companhia de Eduardo Valverde e Israel Xavier. Anos depois avaliei que eu devia ter “batido o pé” mesmo contra a opinião de Odair e do restante da articulação e lançado uma candidatura a deputado.

Mas quem somos nós para, tanto tempo depois, querermos julgar atitudes tomadas no calor daquelas disputas e sob circunstâncias muito particulares daquele momento.

“Deixe de ser xiita, você não tem mais 20 anos”

Enfim, até 1998 estive muito próximo de Odair pude compartilhar de suas engenhosas construções políticas. O vitorioso desenho que levou o PT a eleger Fátima Cleide para o Senado, além de dois deputados federais em 2002, foi pensado e executado por ele com maestria. Na época eu estava fora da direção do PT e me dedicava ao Banco do Brasil e a uma tardia universidade.

Cheguei a torcer o nariz contra a ideia de aliança com Gurgacz, sobretudo pelas minhas históricas relações com os sindicalistas do setor de transportes, principalmente Hermínio Coelho e Claudio Carvalho, hoje importantes nomes do PT. Ainda assim ouvi dele algo assim: “Alemão, deixe de ser xiita que você já não tem mais 20 anos”.

Depois disso ainda tivemos as vitórias de 2004 e 2008 para a Prefeitura da Capital, ambas com forte participação dele na articulação política e na montagem dos programas de TV. Nesse período eu já vivia em Brasília e não acompanhei seu trabalho.

Mas fiquemos assim, meu Velho. Lá em cima, com sua camisa vermelha e estrelinha no peito, tente juntar os nossos companheiros que também já estão por lá – o Chico Cezário, Fernando, Hemerson Teixeira, Piau, Pedrinho Oliveira, Tiãozinho da CUT, Jasmo e Fatinha Alves. Se bem os conheci, Cezário e Fernando já se engalfinharam várias vezes e o Jasmo, Tiãozinho, Pedrinho e Piau já organizam uma reforma agrária nos campos celestes. Se precisar de ajuda, procure o Padre Ezequiel Ramin, que a essas horas já deve estar muito bem entrosado lá em cima.

E quanto a nós, amigos e familiares, embora já saudosos das suas incontáveis manias e de seus conselhos valiosos, tentemos ver sua morte de uma forma diferente daquela a que fomos ensinados no ocidente. Vejamos como parte do ciclo da vida, numa seqüência vida-morte-vida ou, como diz o rabino Nilton Bonder, como parte da nossa necessidade de pausas, constituindo-se na maior de todas elas.

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Mais vale um byte ou um por-do-sol ??

Em 2011 sinta mais o mundo ! E leia menos !  Ou melhor,  qualifique sua informação.

É muita porcaria , é muita coisa mal escrita, mal articulada, que não vai lhe servir prá nada ! Falta conteúdo, falta vivência e às vezes um pouquinho de educação.  Ética é uma palavra distante congelada dentro de um iceberg. (Um real, não o da Abunã que produz uma bela cerveja “suja”!)

Faça um teste com um saite destes de fofocas políticas, esprema bastante e veja o que sobra de realmente relevante. Te aconselho, irmão, a lavar as mãos com creolina, no caso despoluir os olhos,coração e mente com 1/2 hora de um belo por do sol ou com a lua que insiste no meio das nuvens.

Até este bravo blog se vc achar que não lhe traz nada, nenhuma emoção mais recôndita, nenhuma informação importante, mande-o para as calendas do inferno, faça-o queimar na mármore fervente do belzebu.

É uma profusão de endereços virtuais, senhas, perfis, links, informações digitais de qualidade, outras tão idiotas parecendo escritas por quem acabou de sair do Mobral ( quá…. esta é antiga !).

O You Tube, o Orkut, o Facebook e o Twitter talvez não passem de modismos efêmeros, como tantos outros já houveram e haverão. ( Lembrei disto, há pouco, do modismo do rádio-amador Faixa Cidadão, o famoso PX da década de 80, talvez o nosso Twitter de hoje.)

Todo mundo perde tempo e , muitas vezes, fica com a cabeça embaralhada com o excesso de informação, perde o foco no trabalho, perde o foco no carinho, perde o foco na paixão, no amor, na família…

Não quer ficar de fora dos bate-papos virtuais mas mal cumprimenta a mulher quando chega em casa, isto se ainda tem mulher, se os filhos não embarcaram no mesmo delírio da loucura cotidiana.

Fazer um site é relativamente simples. Todo jornal  está direcionado para algum grupo político. Isto é normal, os grandes grupos editoriais explicitam sua posição em longos editoriais e os seguem quem quiser.  E no leque multifacetado do arco-íris midiático infelizmente também existe a cor marrom. Nesta coloração que lembra outras coisas, o $ite fala bem, ou então o $ite fala mal e isto pode mudar em questão de horas, quase sempre o tempo que demora a compensação bancária ou o depósito on-line.

Por isto, crie a sua meta , não seja refém dos outros e questione sempre as entrelinhas, ou até mesmo a veracidade das notícias. Em Rondônia temos excelentes profissionais, ótimos jornalistas que já labutaram  nos grandes jornais de SP, RJ, PR, RS e que se equiparam aos melhores do país. O problema é que a cultura digital tá virando um delicioso inferno, com mil fóruns, workshops, zilhões de blogs, redes sociais que parecem reunião de diretoria das empresas, onde vale mais fazer uma participação inteligente prá marcar o seu espaço como um cachorro mija no pneu ou no poste.

Sinceramente, blogueiros, tuiteiros, orkutzeiros ou o raio que o parta, acho que ainda  mais vale a boa idéia na cabeça e isto é uma coisa cada vez mais rara.

E se não for cineasta e não tiver a câmera na mão, como diria Glauber, vá olhar o por do sol do rio Madeira com olhos infantis ao lado da pessoa amada. Ou o Guaporé, o Mamoré, ou qualquer igarapé…

Só não sugiro jogar os notebooks, netbooks, laptops, Iphones e o escambau ( cheio de baterias de litio e niquel-cadmio, venenosas) no leito do rio prá não poluir ainda mais o nosso frágil ecossistema que ainda vai nos cobrar todas as nossas irresponsabilidades reais e virtuais.

Amemos, meninos e meninas, amemos o por do sol que ainda nos resta e nos recarrega as baterias mais do que qualquer tuitada propositalmente espirituosa…

Prefiro ainda um por do sol tímido e autêntico, recheado de nuvens insistentes e teimosas que deram prá infestar o céu de Rondônia  do que uma centena de bytes frios e teclados quase sempre por um aspirante a robô, escondido atrás de um monitor e se achando o dono da última Coca-Cola do deserto !

Quáááá !  Tenho dito !

foto : V.F.B. Bertagna

(Crônica velha escrita  num guardanapo,  por este modesto aspirante a blogueiro na Casa da Moeda, na Rua da Moeda no Recife/PE, escutando frevo autêntico tocado por uma orquestra de metais  e degustando uma , pasmem, “Norteña” uruguaia de litro, logo depois de ter dado um abraço caloroso no grande escritor Alberto Lins Caldas e conhecido a artista plástica Cyane.  Isto que é globalização, cáspite ! E chega porque é a hora do galo.)

2 Comentários

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Um Ano Novo bem arretado pra vocês tudim !!! Conselhos de um cearense para um 2011 bem pai d’égua !!!

* Sobre as suas metas para o Ano Novo:

Anote os seus querê e pendure num lugar que você enxergue todo dia.
Mesmo que seus objetivos estejam lá prá baixa da égua, vale à pena correr atrás. Não se agonie e nem esmoreça. Peleje.
Se vire num cão chupando manga, e mêta o pé na carreira atrás do que vc quer, pois pra gente conseguir o que quer, tem que acreditar.
Lembre que pra ficar estribado é preciso trabalhar. Não fique só frescando e fulerando.

* Sobre o amor:

Não fique enrolando e arrudiando prá chegar junto de quem você gosta. Tome rumo, avie, se avexe.
Dê um desconto prá peste daquela cabrita que só bate fofo com você. Aperreia ela. Vai que dá certo e nasce um bruguelim réi amarelo.
Você é um corralinda. Se você ainda não tem ninguém, não pegue qualquer marmota. Escolha uma corralinda igual a você.
Não bula no que tá quieto. Num seja avexado, pois de tanto coisar com uma, coisar com outra, você acaba mesmo é com um chapéu de touro.
As cabritas num devem se agoniar. O certo é pastorar até encontrar alguém pai d’égua. Num devem se atracar com um cabra peba, malamanhado e fulerage. O segredo é pelejar, pelejar e não desistir nunca. Num peça pinico e deixe quem quiser mangar. Um dia vai aparecer um machoréi da sua bitola.

* Sobre o trabalho:

Trabalhe, num se mêta a besta. Quem num dá um prego numa barra de sabão, num tem vez não!
Se você vive fumando numa quenga, puto nas calças e não agüenta mais aquele seu chefe réi fulerage, tenha calma, não adianta se ispritar.
Se ele não lhe notou até agora é porque num tá nem aí se você rala o bucho no trabalho. Procure algo melhor e cape o gato assim que puder.
Se a lida não está como você quer, num bote boneco, num se aperreie e nem fique de lundu. Saia com aquele magote de amigos pra tomar uns merol.
Tome umas meiotas e conte uma ruma de piadas que tudo melhora.

* Sobre a sua vidinha:

Você já é um cagado só por estar vivo. Pense nisso e agradeça a Deus.
Cuide bem dos bruguelos e da mulher. Dê sempre mais que o sustento, pois eles lhe dão o aconchego no fim da lida.
Não fique resmungando e batendo no quengo por besteira. Seje macho e pense positivo.
Num se avexe, num se aperreie e nem se agonie. Num é nas carreira que se esfola um preá.

* Arrumação motivacional:

No forró da entrada do ano, coma aquela gororoba até encher o bucho. É prá dar sorte, mas cuidado, senão dá gastura.
Tome um burrim e tire o gosto com panelada que é prá num perder a mania.
E prá começar o ano dicunforça:

– Reflita sobre as besteiras do ano passado e rebole no mato os maus pensamentos.
– Murche as orêia, respire fundo e grite bem alto:

Sai mundiça!!!

Ah, e não esqueça do grito de guerra, que é prá dar mais sorte ainda:

Queima raparigal !!!

Agora é só levantar a cabeça e desimbestar no rumo da venta, que vai dar tudo certo em 2011, afinal de contas você é cearense.
E para os que não são da terrinha, mas são doidim prá ser,
nosso desejo é que sejam tão felizes quanto nós.

Maaaaaacho!!!
Peeeeennnnse num ano que vai ser muito bom!!!
Respeite como vai ser pai d’égua esse 2011!!!

1 comentário

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