O tempo

Por Pe. Júlio Antônio da Silva

O tempo constitui uma dimensão essencial da criatura humana. Está presente em tudo. É no tempo que construímos nossa história. Porém, nossa vida oscila entre a certeza de coisas experimentadas no presente e a incerteza do futuro que escapa ao nosso controle absoluto. Vivemos nesta dupla tensão entre um passado que já era e um futuro que é um devir.

A sucessão dos tempos, ou o tempo histórico, abre-nos para uma forma de conceber a história como experiência que nunca se repete. Mergulhamos no mar do passado para um imenso e misterioso futuro. E nesse mergulho deparamos com a vida a ser construída.

Na construção da vida deparamos com o limite dado pelo tempo, qual camisa de força, a nos encerrar num circuito limitado, a marcar nossa incapacidade de acelerar ou atrasar, um segundo sequer, o relógio da vida. Foi essa a angústia vivida por grandes pensadores, como por exemplo, Santo Agostinho, o Mestre do Ocidente, no século quarto. Para ele, o tempo será sempre algo enigmático. Entende que tudo e todos são reduzidos ao instante indivisível, chamado de presente, que coloca tudo em movimento.

Sem descurar do presente, a pregação de Jesus Cristo apontou um novo caminho para o tempo presente. Ele aponta o futuro como realização plena de sua proposta de vida, o Reino de Deus. Mas um futuro diferenciado, sem aquele escatologismo barato e infundado de alguns profetas do mau agouro.

O futuro do Reino de Jesus visa à construção de um mundo alternativo, moldurado pela paz, pela serenidade e alegria, que começa aqui e agora, mas ainda não em plenitude, devido a  transitoriedade das coisas. Essa visão e posição do cristianismo é uma força que ajuda a superar o velho passado. Coloca-nos diante da difícil tensão entre o “já” e o “ainda não”. Cristãos não podemos simplesmente olhar para o futuro, afinal Cristo Jesus está vivo na história que fazemos. Ele é o referencial, através da Igreja, dos bens futuros.

O nosso “já”, ou melhor, o presente que nos é reservado, ainda é imperfeito. Ainda padecemos em meio a tantas lutas e limites, sobretudo o pecado e a injustiça. Por isso, sonhamos com uma nova sociedade a ser construída. Esperamos ainda mais. Buscamos uma mudança nova e decisiva, que faça a história dar um salto qualitativo para chegar ao Absoluto, que faz história com as pessoas humanas e que se mistura ao tempo presente para fazê-lo “tempo da graça”, o kairós bíblico.

Portanto, esse futuro não tem nada de tenebroso; ao contrário, é um futuro-presente construído no amor e na esperança, pelo poder da fé. É um tempo santificado pela presença viva de Nosso Senhor Jesus Cristo, começo e fim de tudo, Senhor do tempo. Esta verdade não deixa ninguém desesperar-se diante do presente. Mas dá certeza da gestação de “um novo céu e uma nova terra” (Is 65, 17; Apoc 21,1).

via Arquidiocese de Maringá

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