Estado laico? Crucifixos proibidos no Corpo de Bombeiros de Tatuí/SP

Por Beto Bertagna

Uma decisão do capitão José Natalino de Camargo, comandante do Corpo de Bombeiros de Tatuí (SP), mandando retirar  os crucifixos e imagens de santos católicos da corporação reacendeu o “fogo” (desculpem o trocadilho infame) da questão religiosa na cidade, tão explorada de forma intensa e inadequada durante a campanha eleitoral deste ano. O capitão Camargo diz que “os simbolos católicos em repartições públicas fazem apologia da religião católica e contribuem para a falsa crença de que aquela religião é a única detentora da benesse estatal, ferindo a Constituição Brasileira que estabelece que o Estado é laico”. A Câmara de Vereadores decidiu publicar uma moção de repúdio contra  a medida tomada pelo militar. Na moção aprovada por unanimidade, os vereadores consideram que “no ato arbitrário o militar usou termos desrespeitosos, equivocados e imprudentes ao se referir aos símbolos católicos, demonstrando uma total falta de sensibilidade.” Um cidadão de Porto Velho,Rondônia que preferiu não se identificar assim se expressou: “Vejo isto em escolas públicas e as imagens estão em toda parte, me empurrando a fé católica. Se a Igreja Católica pretende colocar os símbolos, que os coloque em suas propriedades privadas, não nas públicas.”  Vamos agora aguardar o desdobramento dos fatos com a manifestação do Comando da Polícia Militar do Estado de SP e da paróquia de Tatuí, através do padre Milton de Campos Rocha. E você ? O que acha ?

9 Comentários

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9 Respostas para “Estado laico? Crucifixos proibidos no Corpo de Bombeiros de Tatuí/SP

  1. jose carlos rodrigues

    Acho que todos podem ter a religião que quiser, dar seu suado dinheirinho aos pastores ou não, mas o que penso sobre o acontecido em tatui é que esse comandante é preconceituoso e não soube lidar com o problema. Mandar retirar todos os simbolos de uma vez e demonstrar arrogância só constrangeu a todos e o mais grave vindo de uma Instituição que é um dos ultimos pilares em que a população ainda acredita machuca muito mais. Conheço Tatui, mas a partir de agora não irei mais àquela cidade pois tenho medo de me envolver em algum tipo de acidente como incêndio, afogamento ou qq outra coisa e o bombeiro que atender minha familia nos perguntar primeiro nossa religião e verificar se não usamos nenhum simbolo católico. Seria cômico se não fosse trágico! Que vergonha corporação de bombeiros!!Ah! só para terminar: a seleção tinha um pastor e orava antes de todas as partidas achando que Deus toma partido no futebol, deu no que deu, era a chamada seleção evangélica e o Felipe Mello era um dos líderes.

  2. Fernando D'Osogiyan

    Beto Bertagna,

    Belo trabalho, tem nosso total apoio e no que você precisar conte conosco.

    Grande abraço,

    Fernando D’Osogiyan

  3. Caríssimo Beto,
    Esperando que nossas diferenças partidárias não tenham abalado nossa antiga e fiel amizade (na verdade, por mais grosseira (não gosto de eufemismos) tenha sido ou eventualmente continue a ser nossa troca de petardos (ainda não vi sua eventual resposta ao meu recente comentário sobre a morte da idosa obesa de São Felipe e Richard, meu filho e seu afilhado, está indignado comigo e me acusa, com sua sabedoria de 17 anos completados no dia 7 passado, de estar “brigando”, “só por política”, com o amigo que sempre esteve presente nas nossas horas mais difíceis), peço-lhe espaço para entrar em mais uma polêmica, essa do crucifixo retirado do quartel do Corpo de Bombeiros de Tatuí (SP).
    Não sou versado em teologia, mas me interesso pelo assunto e tenho lido sobre todas as relgiões que consigo identificar. E é como cidadão comum que vou me manifestar. Respeito a forma como qualquer pessoa busque um link com o Altíssimo, o Criador de todas as coisas (a palavra religião vem do latim relicare, que significa ligação), desde que essa busca seja em nome da paz, do amor, da fraternidade e da paz entre as pessoas.
    Sou radicalmente contra os que transformam a bsuca que todo ser humano faz de Deus nas”religiões” que, como dizia o escritor e Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, recentemente falecido e hoje no Céu (ou equivalente), embora a vida inteira tenha se declarado ateu, repudiava todas as religiõess, sem exceções, pois as considerava desagregadoras da humanidade e instrumentos de política e opressão, mas defendia a inocência de Deus, Alá, Jeová, não importa o nome que ousarmos dar a Ele, das atrocidades que são cometidas em seu nome.
    Permita que eu me alongue um pouquinho mais. Ainda na busca de um link com Deus cometemos crimes e atrocidades – até de boa fé, sem trocadilho -como as religiões da Améica pré-colombiana, que sacrificavam seres humanos para serem beneficiados pela Força Superior que eles sabiam existir e a cultuavam através de ídolos. Ainda hoje, mais de cinco mil anos após os hebreus adquirirem a consciência de que Deus é único e não precisa ser adorado através de ídolos; ainda hoje, dois mil anos depois de, conforme a crença cristã, Deus ter-se tornado humano em Jesus Cristo e ensinado que devemos amar os semelhantes como a nós mesmos, continuamos cometendo atrocidades em nome de Deus que são até superiores às que os antigos aztecas, maias e incas cometiam quando sacrificavam gente (do povo, é claro, pois não há registro de que algum sacerdote deles tenha sido imolado no altar).
    Para ficarmos em exemplos recentes lembremo-nos da Santa Inquisição (quem não viu, veja o filme “O Nomw da Rosa”, genial crônica sobre o ponto a que pode chegar o obscurantsimo religioso, num filme protagonizado pelo magistral Sean Connery). Lembrem0-nos do capelão da Força Aérea Americana abençoando a bomba atômica antes de o bombardeiro decolar para lançá-la sobre Hiroshima e volatizar de uma mais mais de cem mil homens, mulheres e crianças civis. E os recentíssimos ataques terroristas, em nome de Alá (o nome que os árabes dão a Deus) contra os prédios do World Trade Center, em Nova York, alvejados com Boeings sequestrados lotados de passageiros.
    E os homens-bombas que todos os dias matam homens, mulheres e civis no Iraque explodindo em meio a multidões de inocentes – sempre em nome do Deus em que eles acreditam?
    E aqui no Brasil, e até mesmo em Porto Velho, o que dizer dos padres e pastores que não têm a menor piedade pelo povo, e usam a religião como instrumento da política. Em Pernambuco, recentemente, u’a mãe foi excomungada pela Igreja Católico porque autorizou o aborto de sua filha de 9 ou 10 anos, que havia sido engravidada por um estuprador e que morreria, segundo os médicos, durante o parto.
    Em Porto Velho, usando o pretexto de defender a família (o mesmo que os nazistas adotavam na Alemanha de Hitler para prender e assassinar judeus), pastores evangélicos promovem preconceitos principalmente contra homossexuais e adeptos de relgiões de origem africana, ente outros. Isso sem falar dos templos que dizem aos crentes que somente serão abençoados por Deus os que puserem o dinheiro do “dízimo” sobre a Bíblia. Como se Deus, o Criador deste e outros universos que mal conseguimos entender, precisasse do dinheiro dos humanos.
    Aliás, Beto, gostaria que alguém me dissesse se os padres e pastores também pagam dízimo do dinheiro que tomam do povo. Por que, é óbvio, parte daquele dinheiro é de alguma forma rateada entre eles.
    Bom, para encerrar, entendo que um Estado laico não pode permitir qualquer símbolo religioso – de qualquer religião – em seus prédios ou locais públicos. Isso é uma discriminação contra outras crenças. Por que não colocam a Estrela de Davi, símbolo do judaísmo, ao lado do crucifixo, ou o Alcarão dos muçulmanos ao lado da Bíblia dos cristãos?
    Quanto a venerar estátuas ou símbolos religiosos, e até mesmo ídolos indígenas, como reforço ao link que tentamos fazer com Deus em busca da paz e da fraternidade, creio que isso deve ser livre nos templos de cada um, em ambientes particulares.
    Não é errado o povo fazer procissões em honra a Santos ou Santas (a palavra santo significa “amigo de Deus”, pessoa que deixou exemplos de amor ao próximo ou de vida piedosa). Nós, em nossa atual cultura, precisamos dos Santos e Santas para facilitar a nossa mente plena confiança na atenção do Altíssimo às nossas orações, ao nosso desespero e a nossa dor.
    São l inks, como sempre foram nos primórdios da raça humana,e ainda hoje nas sociedades primtivas, o culto ao deus Sol, ao deus da Colheita, ao deus da Chuva. São formas válidas que o ser humano, como o único animal dotado de consciência, têm da existência de há Algo além de sua compreensão.
    O ser humano sempre soube da existência de Deus e com Ele vem tentando se comunicar através de ídolos ou reverenciando as forças da Natureza. Nossa mente, repito, precisa desses links. Os católicos acreditam que ao reverenciar a imagem de um Sant o ou Santa, está pedindo a intercessão daquele que acreditam estar junto a Deus por um milagre.
    Este assunto se prolongaria muito mais – e repito, este é o ponto de vista de um leigo em Teologia – e, até onde pude ler e pesquisar como autodidata, somente dispemsaremos esses links e entenderemos que o Evangelho vem sendo reescrito todos os dias pelos que buscam a sabedoria e se aprofundam na Ciência, quando as pessoas tiverem cérebro como o de Albert Einstein, o pai da Física Moderna, que se considerava ateu, mas confessava ver Deus naquilo que ele considerava inexplicável.
    Einstein se maravilhava quando percebia a presença de uma imensa Força além de nossa imaginação. Então, o maior sábio de todos os tempos se sentia um ignorante e dizia que somos tão primitivos que dispomos de apenas cinco sentidos que mal nos permitir perceber o limiar , a superfície do que existe. Para Einstein, Deus é a própria Natureza, está em cada de nós e em tudo que nos rodeia, conseguimos ver, ouvir ou tocar.
    Portanto, símbolos religiosos são válidos para cada crente em seus ambientes próprios. O respeito pela pluralidade das crenças, a essência do Estado laico, impede que um determinado´símbolo religioso, seja usado em am ambiente público – como aliás, foi bem observado por outros comentairstas desta matéria. Fraternal abraço.

  4. Raphael

    Rodrigo Ruiz, não é verdade que os católicos não depositam sua fé em imagens. Uma minoria esclarecida talvez, mas o que vemos aos montes na TV e nas ruas são multidões lutando para beijar, tocar e chegar perto de imagens. Imagens que são levadas em carreata pelas cidades carregando milhares de pessoas. Pode não ser essa a idéia inicial, mas as imagens são sim muito idolatradas.

    Eu sou a favor dessa medida. Não como ataque a ninguém, mas ao contrário, como defesa da liberdade. Se o país não tem religião oficial, parece justo não colocar símbolos religiosos nos locais públicos.

  5. Nenhum católico deposita fé em imagens. Imagens são sacramentais, símbolos que nos recordam de uma realidade maior. A retirada arbitrária dos crucifixos e das imagens são um claro ataque à fé daqueles que as mantém alí no local onde foram postas.
    O estado é laico, mas não é ateu. E além disso, a herança católica desse país é bem clara. O Brasil não nasceu protestante, espírita, muçulmano, ateu ou judeu. Nasceu e foi colonizado sob a fé católica.

    • José A. de Souza Jr.

      Se é laico, não é confessadamente crente ou ateu. Ao Estado laico não importam as convicções religiosas ou ausência delas por parte de seus cidadãos. Importa sim, manter a eqüidade destes em relação às questões de foro íntimo, coisa que o advento do Estado laico conquistou depois de muita luta. Basta consultar a história. Se permitir a exibição de símbolos ou fizer proselitismo de uma confissão qualquer no domínio público, terá – por coerência ao princípio republicano de coesão da cidadania – que permitir a manifestação das demais no mesmo espaço. Todos têm o mesmo direito; aqui não vale o princípio de superioridade numérica dos adeptos de qualquer confissão. Viver em sociedade já é muito trabalhoso; se pudermos evitar confrontações desnecessárias, melhor ainda. Um viva ao Estado não-confessional e à Modernidade!

    • Aline Leonardo

      O Brasil pode ter sido colonizado sob a fé católica.

      Mas nasceu sob os olhos de Nhanderuvuçu, a quem os índios rezavam e recebiam a resposta de Tupã, a manifestação do deus através do trovão. Se tornou a terra, que, conforme citado por Caminha, “onde se plantando tudo dá” pela interferência de Iara e Guaraci, a água e sol. Se tornou farto pela proteção de Anhangüera, o dono da caça. E sob o manto de Jaci (protetora dos amantes) e Rudá (deus do amor, que vive nas nuvens), se tornou rico em filhos e filhas.

      Sim, foi colonizado por praticantes da fé católica.

      Mas se tornou rico em café quando os filhos de Exu, Ogun, Oxossi, Omolu, Ossãe, Oxumare, Nanã, Oxum, Obá, Iyewá, Oyá, Logun, Ayrá, Yemanjá, Xango e Oxalá foram dizimados. Se tornou exportador, se tornou parte de um marcado quando os filhos de Jeje, de Angola, de Ketu e de Efon foram mortalmente dizimados, torturados, tirados de suas terras natais e trazidos para cá para serem escravizados, torturados, açoitados, mortos.

      Sim, o Brasil foi colonizado por católicos.

      Mas abriu as portas a judeus, a umbandistas, a protestantes, a islamitas, a budistas, messiânicos, taoístas, testemunhas de Jeová…

      Sim, eram católicos os que reclamaram posse de nossa Pátria.

      Mas que opção havia na época? Que opção havia se Portugal era católico para que o Papa fosse Rei de todos? Desculpem, não estou ofendendo nenhuma religião, gostaria que os católicos até me perdoassem. Mas as aulas de História me ensinaram que Clero e Política, Igreja e Estado eram a mesma coisa.
      E não será isso exatamente a mesma coisa? Artefatos religiosos, independente de serem cultuados ou apenas simbolicamente importantes, professam uma Fé. E ao colocarmos esses símbolos, essa Fé professada em repartições públicas, militares, em espaços comuns de trabalho, não estamos, enquanto Estado, fazendo a mesma coisa que a Igreja Católica fez na Idade Média e transformando Igreja e Estado na mesma coisa?

      Se somos um Estado Laico, que símbolos religiosos sejam banidos das repartições estatais. Que cada um coloque em sua mesa seu colar de dentes de pantera indígena, sua Bíblia, seu fio de contas, seu kipá, ou qualquer que seja o seu símbolo de Fé, e que as paredes sejam guardadas para um quadro de avisos.

  6. José A. de Souza Jr.

    Com todo o respeito aos que professam as mais diversas religiões em nosso país, a atitude foi correta. É o que assegura a paz religiosa em nosso país. Decorre daí que repartição pública não é lugar de exibição de símbolos religiosos. Parabéns, senhor comandante do corpo de bombeiros de Tatuí.

  7. Meu caro Beto.
    Sou espírita e contrário a quaisquer manifestações que visem colocar esta ou aquela religião acima ou abaixo das demais.
    Aliás, repudio que agride profanando imagens, da mesma maneira que apoio sinceramente aqueles que nelas não depositam sua fé.
    Exatamente por crer que a fé é coisa íntima e individual de cada pessoa, ajo desta maneira.
    Conscientemente, nenhuma pessoa pode afirmar que antes das religiões que têm na base o cristianismo todas as “almas” iriam para o “inferno”.
    Pessoalmente, nem creio em inferno(s). Já publiquei artigo a respeito disso – “As nuances teológicas” – que fiz questão de reeditar poucos dias atrás por considerar que já caira no esquecimento de alguns que mandam-me mensagens religiosas – tipo “salvadoras”.
    A atitude do militar lembra bem o período em que os “da farda” estavam no comando da nação. Acho que foi impensada, mas cada qual no seu quadrado.
    Um abraço
    Artur Quintela

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