O Violeiro e o Sargento

Por Aparício Secundus Pereira Lima

João Bilôto era um exímio tocador de violão, na década de 40, da Região Sanfranciscana, nordeste Brasileiro. Bilôto, boêmio de Juazeiro da Bahia, com seus vinte e poucos anos, resolveu dar um giro pelas cidades ribeirinhas, próximas a Petrolina e Juazeiro.

João Bilôto baixou em Pilão Arcado. Cidade pequena, pacata. “Vou ver se arranjo uns cobres por aqui” – Pensou Bilôto.

Na cidade havia um sargento da polícia, comandante do destacamento e delegado, figura importante da cidade. Era conhecido pelas redondezas por se tratar de elemento perigoso, cheio de bossa e valentia, principalmente quando tomava umas cachaças.

João Bilôto estava tocando tranquilamente, num barzinho de ponta de rua, quando o tal sargento entrou no boteco cambaleando, fumaçando de raiva, completamente bêbado. O ambiente ficou tenso. Todo mundo conhecia o gênio do sargento, mais ainda quando bebia. Olhares cruzados, silêncio de cemitério no boteco cheio de moscas e cusparadas no chão. O sargento aproximou-se a muito custo do balcão, pediu uma cana. Sem piscar, tascou a branquinha goela abaixo. Olhou pro Bilôto com cara de poucos amigos e disse: – Toca aí. Bilôto começou a tocar. – Pára! Bradou o sargento. Bilôto cessou de tocar, tremendo dentro das calças. E pro dono do bar: – Bota mais uma! Bebeu de um só trago, arrumou o enorme revólver entre a barriga e a calça. Aproximou-se do Bilôto, e, colocando a mão sobre seu ombro, indagou: – Sabe que sou maior que o prefeito dessa cidade? E exigiu confirmação. Bilôto, meio constrangido, afirmou: – O senhor é muito maior que o prefeito… O sargento, sentindo-se satisfeito, sorriu, mostrando os dentes empretecidos pelo fumo.Retirou a mão do ombro do Bilôto. E para o dono do bar: – Bota mais uma! Prá Bilôto:- Toca aí! Jogou a lapada de cana na goela engolindo-a de vez, olhos em cor de brasa. Olhou pro violeiro: – Pára! Colocou a mão esquerda pesada no ombro do Bilôto e a outra segurando o revólver: – Sabe que sou maior que o governador do Estado? E Bilôto, já temendo o pior: – O senhor é muito maior que o governador do Estado! O sargento arreganhou a cara de satisfação e ordenou que o violeiro tocasse outra música enquanto ele tratava de tomar outra pinga. E a cena repetida: – Pára de tocar! Mão esquerda no ombro do cantador, a direita coçando o coldre, mostrando a identidade do poder: – Sabe que sou maior que o Presidente da República? Bilôto, testa franzida pelo medo, quase se borrando todo: – O senhor é muito maior que o Presidente da República. Depois de alguns minutos, que se tornaram infindáveis, lá vem o sargento de novo: – Sabe que sou maior do que DEUS??? Desta vez falou mais alto o sentimento religioso do violeiro, que temendo os castigos de Deus, por proferir tamanha blasfêmia e temendo arder no fogo do inferno, retrucou: – Mamamamaior do que DEUS?? Gaguejou meio sem jeito. – Sim, sou maior do que Deus! Enquanto isso, apertava mais o ombro do violeiro, a mão coçando o gatilho. Pediu confirmação: – Como é, rapaz, sou ou não sou maior do que Deus? João Bilôto, temendo blasfemar, cometer pecado mortal e ao mesmo tempo perder a vida afirmou meio sem graça, esfregando o dedo indicador da mão direita ao da mão esquerda: Sabe que vocês dois são  assim, parelha??

Só assim o cantador Bilôto conseguiu sair ileso daquela situação angustiante, prometendo, enquanto em vida, jamais voltar a Pilão Arcado.

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