A Comandante e o Navio

Ilustração de Rodrigo Melo/oilustrador.com

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

No meu porto havia um navio sempre à espera, parado, intacto, quase morto. O navio estava pronto para a partida mas a tripulante não sabia se queria viajar ou não. Às vezes, entrava no navio, quando bem queria, içava a vela e falava para si mesma. “- Vou viajar!” Ligava tudo, de bombordo a estibordo com ar de satisfação nos olhos. Quando se aproximava do alto – mar, recuava satisfeita com o pouco que velejara e voltava para a terra deixando o navio ao sabor das ondas inconstantes do porto vazio. Precisava cuidar da tripulação que havia ficado em terra sem querer saber se quem mais necessitava dela era o navio ou a tripulação que tripudiava em cima de suas emoções. O navio batia, desesperado, de encontro ao cais, levado ao sabor inconstante do vento e da solidão. Num desses momentos, o navio soltou as amarras que o prendiam ao nada. E liberto disse “não”. Não ao cais vazio, não à espera longa e cansativa. O navio queria viajar de encontro ao mar. O navio queria amar no mar de si mesmo. Que fosse só à Antártida, mas queria viajar. Não mais satisfazer aos caprichos de  comandante indecisa, autoritária e que não sabia o que queria. Ela amava o navio 15 minutos por dia. Sentia saudades dele no entanto não se interessava se o navio queria viajar. Seu prazer era sentir que o navio estava perto, atracado a ela, e que nele poderia embarcar quando bem o quisesse.
Um dia deixou a tripulação viajar (de avião) e falou consigo mesma: – Vou velejar! Trouxe todos os apetrechos necessários à viagem repentina. Sumiu da terra disposta a ir ao mar, se entregar, sonhar, gozar. Não esqueceu nada: Levou luneta porque no navio não tinha, levou combustível  à base de álcool porque o navio não tinha. Entrou no navio com uma predisposição incomum mesmo estando em dias de enjôo comuns a comandantes terrestres. O navio não se fez de rogado. Deixou a capitã invadi-lo e invadiu-a também num prazer sem fronteiras, prá lá do oceano Pacífico.
Ela amou o navio embora sentisse vergonha de dizer que ele era dela. Não o levava à praia onde habitava, exceto à noite, de madrugada, quando todos dormiam e só ela sonhava. O navio queria o mar (amar) também. Ela pouco se importou com o navio encalhado e brincou de velejar com ele em plena terra esquecendo-se que o navio é também oceano, mas não mais pacífico.
O navio encontra-se no estaleiro reparando os fios partidos da ignição do motor, seu coração. Soldando o casco que ameaçava seu equilíbrio. Recuperando a rigidez e suavidade do mastro, antes abandonado, esquecido, largado.
O navio vai velejar sozinho por outros mares. Soltou as amarras, libertou-se. Ouviu a música das gaivotas e adentrou por mares nunca dantes navegados.
O nome do navio (ela o batizou) era Cafôfo.

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A ilustração é de Rodrigo Melo, ilustrador e designer gráfico sul matogrossense, de coração mineiro, formado em Brasília e agora residente no Rio de Janeiro. www.oilustrador.com

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