Arquivo do dia: 13/09/2010

É a vida, continua…

Texto e foto de Valéria del Cueto
O dia amanhece e o sol se esparrama ainda frio pela porta aberta do chalé na beira da piscina. Sentada no sofá observo seu desenho espalhado no balcão da cozinha, passando pelos bancos altos, a cesta cheia de cachos de flores de primavera multicoloridas ressecadas, o piso de taboa corrida que tanto trabalho, alegria e orgulho deram para Dona Elza, a ponta do sofá onde escrevo e a mesa do centro da sala.

Ainda é cedo, muito cedo, mas é hora da partida. Ao contrário de muitas outras manhãs de segunda feira não me despeço da casinha amarela com um singelo “até mais, daqui a alguns dias eu volto, me espera…”

É um adeus, em que nada fica para trás.

Vejo na porta meus últimos pertences embalados. Como disse anteriormente, em outra crônica, são discos, livros e um pouco mais. Tudo seguirá para Cuiabá, até o próximo pouso.

A porta e os portões deste paraíso se fecham vagarosamente na medida em que, passo a passo, vou saindo do espaço, até então mágico, em que andei refugiada no último ano.

Não há tristeza na partida por que sei que a porta de um paraíso só se fecha para que a de outro possa ser aberta. Eles, os paraísos, são vários. Mas há apenas uma passagem aberta de cada vez para alcançá-los. E, só quando uma se fecha, é possível com muita sorte, vale ressaltar, encontrar outra.

Foi assim na ilha do Brandão em Angra e o ritual se repete aqui, na Chapada dos Guimarães.

O segredo, para não doer muito o momento da partida do paraíso, é não olhar para trás e saber, só com o coração, sem a visão, que, apesar de tudo ficar como está, nada será como antes ali.

Ouço a buzina que atrapalha o canto dos pássaros na manhãzinha. Recolho a mala, o pacote bem embrulhado das tralhas (sou expert em embalar sonhos, esperanças e poucas, mas muito preciosas lembranças), o notebook recheado de fotos ainda inéditas por puro zelo (no sentido hispânico da palavra), a bolsa e os jornais cariocas que vou deixar para o Juliano e a Louriza, meus ex e futuros anfitriões no lugar que escolhi para viver meus momentos de inspiração e produção criativa.

Puxo a porta, passo a chave, ligo o alarme, olho em frente e desço os degraus de tijolinhos equilibrando as emoções, em direção ao portão de lateral de madeira.
Mal levanto a cancela e as duas bandas se abrem sozinhas impulsionadas por um golpe inesperado de ventania que escancara o mundo a minha espera e me desafia a uma nova busca, por outro portão, de outro jardim que ainda não conheço.

Não olho para trás, já disse, mas sei que a camuflagem enfeitiçada, a névoa de proteção, se dissolve. Um lugar volta a ser o lugar.

A mim só cabe agradecer o privilégio de ter ancorado no paraíso que encantou a Travessa da Piscina, sem número, no ano da graça de 2010.

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

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Mareal

por JLGalvão Jr

Alcântarus chovia sob nuvens, claras

águas incontinentes mais molhando.

São Luís alinhavada no horizonte,

subia e descia diante da baía.

Contraria vaga curantur,

observa o navegante, profundo.

Cerratense em desvario arregaça mangues,

redime florada atlântica nos remos.

Trabalho recendente a gema rasgada,

vem de dentro quebrando casca desperado.

Esperada metrópole em séculos mosaicos,

emparedando de fora, observante.

Ao horizonte submersas histórias de cascos não chegados.

Águas santas cheias de culpas humanas:

Santa Maria, São Luís, São Cristóvão, São Salvador.

Demandam São Franciscanas chapadas,

São Marcos dos Cristais, Arrependidos.

Inaxis occidentalis

São Sebastião de todos os reis em janeiros,

dezoito séculos d.C. rompe Mantiqueira.

Cordis filheira.

Dondeldorado é berço e tumba,

façanha e barganha,

liberdade e escravidão

Quatro Villas sonhadas doiradas.

Nuvens de ouropó.

Frechadas curare, ne curantur,

em torrealvas Sant’Annas.

Vila Rica, Vila Boa, Vila Real e Vila Bela.

Ai meu Bom Jesus!

Valei-me Nossenhora D’Abadia!

Desafogai-me das águas, embebei-me nas secas.

Navegandante de veredas e cerrados infinitos.

Mare Nostrum.

Novo mediterrâneo espessado sangra

pelo Vermelho, funde Berôocã, repuxa

das Mortes, Uruhu, Almas, Maranhão, até Santa Maria

de Belém do Grão Pará, fusão plena de águaterra.

Além sangra de novo pelo Cuiabá e São Lourenço,

em choro lento pelos desvarios do poeta de Barros.

Estanca, chove pra cima nos Xaraiés, recolhe-se.

Pará Guay até além de los Guaranies.

Imolados Arcanjos,

imolada Guayra,

sete vidas, sete quedas.

Si te quedas en la Mar del Plata,

en el oceano ya quedaste.

Más si vuelves en ollas de nostalgia,

hasta el sol y los alumbrados de los Parecies,

mirad, mas allá America sangra suave.

Observa Ricardo Franco em águas misteriosas opulentas:

Guaporé, Mamoré, Madre de Dios, Beni, Madero.

Solidões de águas emendadas, degelos tropicais.

Urubamba, Ucayali, Marañon, Solimões,

vastas águas Brancas e Negras.

Vasto Amazonas.

E Santa Maria recomeça pelo fim.

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Máquina 7 no Jacy

Fotograma raro da máquina 7 cruzando a bela ponte do Jacy-Paraná. Anos 40

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Túnel do Tempo

Madeira-Mamoré em Porto Velho/RO 1977

Madeira-Mamoré em Porto Velho/RO 1977

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Ao Norte – 44

Comércio em Ji-Paraná, anos 80 foto : JLZ Barcelos

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