Mateus

Por Valéria del Cueto

Mateus é um menino que mora na casa ao lado do chalé. Outro dia descobri que a presença de Mateus é essencial para me reconhecer definitivamente uma chapadense, a cada final de semana que me escondo por lá. Tudo é uma questão de ponto de vista, o que para meus amigos cuiabanos pode ser um “escondimento”, na verdade é o que me coloca em contato com as plantas, os insetos e, principalmente os pássaros cantantes do meu pedaço alugado.
Quando chego, depois de uma semana encarapitada no apartamento da Avenida São Sebastião ( o santo padroeiro do meu Rio de Janeiro me protege e abriga na atual temporada no centro-oeste), procuro o reconhecimento mútuo entre os elementos do meu habitat e a forasteira que vos escreve. Respiro fundo, abaixo o giro, apuro os ouvidos e deixo o ritmo do chalé e seu entorno me envolverem. Normalmente fico quietinha no meu canto até o dia seguinte e, só então exploro o entorno: a praça, a padaria, a Pomodori. São as 3 Ps. Mas isso, depois de Mateus. Só o vejo bem de longe e ouço, muitas vezes por dia, o brado de reconhecimento:
– Mateeeeeeuuuusssss! Vozes femininas, masculinas adultas e infantis repetem o chamado em tons variados, muitas vezes bastante aborrecidas. Principalmente as masculinas. Mateus está na boca do povo da esquina da margem da piscina.
Resumindo: ele vive aprontado, como devem  fazer os meninos da sua idade. Ele não é como Ana Clara, uns 6 anos, que veio me conhecer e assuntar logo que comecei a subir para cá. Mantém distância e só abre um pouco a guarda na época das mangas.
De vez em quando encontro rastros dele em baixo das mangueiras e nas frutas, pedaços cortados com faca espalhados pelo gramado.
– Foi o Mateus, entrega Ana Clara que, politicamente correta, vem perguntar se pode pegar algumas frutas da safra que começa.
– Já disse que você é legal, me avalia e avaliza a menininha.
– Mas ele gosta mesmo é de pular o muro durante a semana e correr o risco de levar uma bronca, explica ela, aproveitando o momento amizade para solicitar o serviço completo: quer eu vá em busca das mangas que ela escolhe, enquanto tento atingi-las e derrubá-las com um pedaço enooorme de galho.
Mateus me dá menos trabalho, penso enquanto tento acertar as frutas escolhidas por minha amiguinha exigente. Não as mais próximas, mas as mais lindas do pé, é claro. Um trabalhão!
Mateus está corretíssimo, admito para mim mesma. Tantos chamados têm que ter uma ou muitas razões. A emoção é tudo e, todo mundo que já experimentou, sabe que fruta roubada é muito mais gostosa do que fruta dada.
Nunca chamei por ele. Volta e meia vejo sua sombra montada na bicicleta riscando a lateral do terreno vizinho, despencando na Travessa da Piscina e circulando a cerca espinhenta de sansão em direção ao mundo chapadense.
Admiro Mateus. Queria ser criança como ele. Livre, leve e quase solto, se não tivesse sido a menina aventureira e arteira que fui…

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* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do Sem Fim http://delcueto.multiply.com

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