O pão de mucunã do Coronel Apolônio

Por Aparício Secundus Pereira Lima

O coronel Apolônio costumava sentar-se na varanda da sua casa de fazenda, à noitinha, depois do jantar. Reunia-se  sempre com vaqueiros, capataz, homens das redondezas, para tocarem viola, escutarem repentistas, contarem estórias.

Os vaqueiros, sentados ao redor do coronel, uns mascando fumo, outros fumando cigarro de palha de milho, ouviam, atentos, estórias de lobisomem, da caipora, feitos de outros vaqueiros famosos, a admiração por Raimundo Jacó, vaqueiro bom que morreu assassinado no exercício da profissão.

–       Vâmicê se alembra, Cumpade Niqueleto, do caso do Zé Lixande, cum a Caipora lá nas brenha do Serrote do Urubu, no ano de 59? – indagou o velho vaqueiro Antenoro, chapéu de palha, barba branca e rala, poucos dentes amarelados na boca.

E o vaqueiro Niqueleto:

–       Num me alembro não, meu cumpade. O que si assucedeu?

–       Ora, cumpade, foi da veiz que ele foi caçá tatu mais os cumpanhêro de roça. Já era tardizinha, eles no mêi do mato e aquele silenço di cimitéro. Zé Lixande sempre contano vantage de home valente, qui pega onça braba cu’as mão, todo chei de prosa. Quando tava iscureceno eles uviro um urro medonho e umas gaitada, umas risada qui fazia isfriá os ispinhaço de quarquer valentão. Intão alguém gritô qui era a Caipora qui vinha infrentá todo mundo cum a foice na mão. Foi um bafafá da mulesta, home pisano in home, cachorro sumino na mata. Zé Lixande, qui si quexava de umas dô nas perna, tratô logo de subi no tronco de uma arve e lá ficô inquanto o pessoá si afastava do locá na carrêra. Foi aí qui apareceu a tá da Caipora, aquele bicho medonho, fumando cachimbo, e ficô bem imbaixo do pé de pau qui tava o Lixande. Ele começô a tremê, a ficá amarelado, a pidí pelo Santo Padim Ciço, e si sigurô prá num caí im cima da diaba da Caipora. E lá ficô o Zé, um tempão, já num si aguentano mais nas perna. E a Caipora lá, dano risada e fumando um cachimbão. De repente, o pessoá, aperriado por causa do Lixande, cumeçô a gritá: “Ó Zé Lixande, onde tu tá, home de Deus! Caipora num ixisti, foi só um vento qui bateu nuns gaio”. E o Zé lá im cima, oiando cuns zóio abutucado prá baxo. Foi aí qui a Caipora olhô prá riba e dixe: “Nóis nem liga, né, Zé?” E cumeçô a ri, dando umas gaitada medonha que doía no pé do ispinhaço. O Zé, coitado, ficô branco qui nem cêra, fechô os ói e deçeu si arranhano todo na arve saino numa carrêra qui nem boi bravo pegava. Chegô im casa, feito lôco, num cunsiguiu dizê uma palavra durante três dia. A premera coisa qui fez quando chegô im casa foi trocá as carça, qui tava numa catinga de dá dó.

Risos gerais. O falatório aumentou. Entraram em outras discussões, até que o vaqueiro Galdêncio lembrou-se da sêca de 32, uma das piores que assolou e matou muita gente no sertão pernambucano.

–       Pois é, minha genti, aquela foi uma sêca da mulesta. Num têvi cristão qui não sofreu cum ela. A mardita acabô cum gado, isturricô tudo nesse mundão de Deus. Só si via muié chorano, minino pariceno uns gravêto. De gordo, só mermo os urubu, qui paricia praga. Eles si dava o luxo de iscoiê os garrote morto prá cumê. Qui disgraça, meu Deus! Procês terem uma idéia, inté pão de Mucunã nóis foi obrigado a cumer pra não morrer de fome…

E o coronel Apolônio, que até então era mero espectador:

– O que? Pão de mucunã? Mas vocês são mesmo uns analfabetos, uns imbecis. O pão de mucunã só é ruim prá quem não sabe prepará-lo. Vocês têm que fazer o seguinte: Pegar a raiz da mucunã, raspar bem, passar em nove águas, trocando-as sempre que ferver, depois bate bem, passa num ralo, faz a massa, leva-a depois ao forno e faz o pão. Depois é só colocar mel, manteiga e açúcar que fica uma delícia!

– O vaqueiro Galdêncio retrucou, com zombaria:

– Ora, seu Coroné Polonho, passano im nove água, cum mel, mantêga e açúca, inté bosta é bom.

Mais risos. O coronel levantou-se, trincou os dentes no charuto apagado e entrou em casa. A reunião havia terminado por aquela noite.

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