Sigla Partidária

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Sala de reuniões do clube da comunidade repleta. Zum-zum-zum infernal. Conversas paralelas, ninguém se entendendo. Todos a espera do líder da comunidade, Dr. Pafúncio, figura querida.

Vinte horas e Dr. Pafúncio chega e as palmas ecoam em uníssono vindas do auditório.Toma a palavra:

–  Silêncio, por favor. Minhas senhoras, meu senhores, estamos aqui, mais uma vez reunidos, para tomarmos uma decisão importantíssima para o País. Vamos fundar e escolher o nome, democraticamente, do nosso partido, fruto dos anseios nacionais. Seremos, dentre em breve, o vigésimo quinto partido inscrito na Justiça Eleitoral. Porém, nosso partido, não será apenas um nome a mais nesse emaranhado de siglas que está bagunçando a cabeça do eleitor. O objetivo primordial do nosso partido, é a união nacional, para que possamos empurrar este País para frente. Todas as propostas serão debatidas, todos os nomes analisados. Convido agora o candidato a secretário geral do nosso futuro partido, Dr. Fulgêncio Boavida, a sentar-se junto a mim.  Aplausos entusiastas, assovios, algumas vaias.

–   Silêncio, por obséquio. Vamos proceder ao início da nossa reunião propriamente dita. Quem primeiro se manifesta sobre o nome do partido? Alguém se levanta no meio da multidão, o povo cala.

–  Meu nome é Antônio Salário Lascado Júnior. Sou bancário e trabalho no Banco da Exploração S/A. Proponho que o nome do Partido seja P.B.B. (Partido dos Banqueiros e dos Bancários). Nesse partido, banqueiros se infiltrariam no Sindicato dos Bancários e bancários seriam convidados para fazer parte da diretoria dos Bancos. Assim não haveria qualquer problema de impasse nos reajustes salariais dos bancários do País.

Gritaria geral, balbúrdia, mãe sendo ofendida a torto e a direito. – Silêncio, por favor, gritou Dr. Boavida. – Seu nome não será aceito porque nossa comunidade não é composta só de bancários. Tenho dito. Qual a próxima proposta? Sugiro alguma que represente os anseios nacionais, o retrato do País. Um gaiato se manifesta lá atrás: Proponho então, P.F.C. (Partido da Fome Crônica). Risos, rolos de papel jogados na cabeça do engraçadinho.

Nomes e mais nomes foram lançados a público e rejeitados. O cansaço era geral. Duas horas da manhã. Suor escorrendo de rostos abatidos. Nisso, João Carreteiro, que havia comido um cachorro–quente (cujo cachorro já devia estar em estado de decomposição), sofrendo problemas constantes de gazes, e cuja flatulência não deixava dúvidas em relação ao seu estado, levantou-se e exclamou aos berros e com terrível bafo de onça:

– Proponho que o nome do Partido seja P.U.N. (Partido da União Nacional). Sorriso nos lábios de todos. A idéia era boa. Antônio Narigão, que havia sentado ao lado de João Carreteiro e sofreu, calado, a absorção irremediável dos gases desprendidos pelo seu amigo, pediu a palavra, e, com a voz no último volume:

– Proponho que o nome do Partido seja P.E.I.D.O. (Partido Especial Institucional Direitista Onipresente).

Aplausos gerais, a fanfarra começa a tocar. O nome do partido estava finalmente escolhido.

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