Fina Flor do Samba:ode à cidade e encontro das tribos

Por Altair Santos (Tatá)

O velho e bom samba sabor Brasil por aqui sempre presente e imprescindível, heterogêneo, tribal e capaz de partilhar a mesa dos seus acordes entre roqueiros e sertanejos, bluzeiros e bossas novistas, poetas e dançarinos para o santo paticumbum de toda sexta que vai até o início da madrugada, quando começa o êxodo, dos até então presentes, noutras direções. Lírico e simétrico nos versos de si mesmo, o samba, semanalmente faz a chamada bradando que a noite de sexta-feira, em Porto Velho, tem seu início – às 20h – no Mercado Cultural e justo na parte externa onde, durante o dia, o frenesi da nossa pulsante e palpitante cidade porto denuncia o porvir festivo de logo mais.  Lá, quando a tarde vai se deitando e o anoitecer levanta, os novos ventos culturais que aqui sopram içam as velas da nau do samba, num embalo irresistível, do tipo me leva que eu vou. E muitos vão. É hora da Fina Flor do Samba: tão fina e tão flor, tão pura e tão samba que nos premia com incursões várias nas combinações que vão pelas linhas de Agepê a Dadá do Areal, de João Donato e Jorge Aragão a João Henrique (Manga Rosa), passando por Benito Di Paula e Bainha, de Elton Medeiros a Bubu Johnson…  Na hora e medida certas, tantans e pandeiros, ganzás, surdos, cavacos, violões e vozes alojam ziriguiduns e breques no peito do povo. O que antes era um tímido evento defronte ao Mercado Cultural, agora se faz ouvir na aconchegante Praça Getúlio Vargas e arrabaldes ressignificando a cidade para os seus e batizando o centro histórico como o epicentro do samba. Valeu a pena a parceria Ernesto Melo, sambista de Porto Velho, Fundação Cultural Iaripuna e o grande público, perseverarem na idéia. Aos poucos o povo foi ouvindo, conhecendo, gostando, recomendando e admitindo o projeto como um bem promotor de entretenimento e lazer cultural para os muitos que ali se achegam. Na última sexta-feira, o Ernesto Melo e seus parceiros levaram como convidados especiais da noite o Grupo Kizomba. Não bastasse João Carteiro, Silvio Santos, Macumbinha e Piaba, terem feito um belo desfile pelo samba nosso de cada dia, a turma do Kizomba tendo ainda no time alguns remanescentes da primeira formação (Cristóvão, Mestre Oscar knightz, Neguinho, Zé Áureo e Marcelo Luna), nos tirou a todos pro canto e pra dança e fez uma das mais empolgantes e envolventes apresentações que testemunhamos desde quando os conhecemos. E não hesitamos. Levados em viagem cantamos os refrões, seguramos a mão da cabrocha e ensaiamos uma seqüência de passos. Mais que isso, ali, a cidade exalava harmonia pura ao redor do velho e imbatível samba. Quando se esgotaram as mesas do bar, a opção era os bancos e escadas da praça, o meio fio ou o par de sandálias, como assento confortável pra quem queria prosear e curtir o show. Os sabiás e uirapurus de Porto Velho, polidos e multifacetados se fazem mágicos e tomam formas. Neste particular, eles se vestiram de pagodeiros de moral pra nos inebriar com o que de bom há muito não ouvíamos. Houve quem dissesse (e não foram poucos) ter sido aquela a melhora sexta-feira lá no Mercado Cultural. Ver e ouvir o Kizomba em noite de inspiração nos propiciou, além do enlevo para nossos olhos, ouvidos e alma de sambista, testemunhar a valia qualitativa dos nossos bons artistas que, quando chamados dizem presente e fazem bonito. Muito bonito.

(*) O autor é músico e Presidente da Fundação Cultural Iaripuna

tatadeportovelho@gmail.com

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