O suplício de um primeiro encontro

Por Aparicio Secundus Pereira Lima

Há dias vinha observando uma garota esbelta, bonitona, cabelos longos, corpo de violão, cheia de charme, que sempre passava pela minha rua.
Depois de muitos olhares e alguns sorrisos, pude finalmente oferecer-lhe uma carona até seu local de trabalho. Daí veio o número do telefone, conversas banais por e-mail e, finalmente, o tão esperado dia: sairmos juntos para jantar.
Arrumei-me todo, perfumado até nas partes íntimas e fui buscá-la em sua casa.
Fomos para um restaurante nordestino (não me recordo o nome) e pedimos, de entrada, uma cervejinha bem gelada para quebrar o gelo existente em nós dois e encurtar caminhos na expectativa do primeiro e adocicado beijo.
Papo vai, papo vem, mão cobrindo mão, dedos se tocando e a cervejinha descendo redonda goela abaixo. O cheiro gostoso da mulher me entorpecia e me deixava a mil por hora.
Num dado momento resolvemos olhar o cardápio. Ela optou por uma picanha na chapa com cebola e queijo mussarela, acompanhado de feijão tropeiro, macaxeira cozida, vinagrete, arroz e uma salada simples. Aceitei, meio desconfiado, porque aquela comida nunca foi a minha praia. Meu estômago é fraco como o de um bebê.
Coloquei, assim meio que desconfiado, pequenas porções de cada guarnição no prato e, à primeira garfada, verifiquei que a comida estava bem saborosa e, por sinal, não sabia que estava com tanta fome.
Mergulhei de cara e boca no feijão tropeiro que parecia ter sido feito para a tropa do almoço, era o verdadeiro “tropeiro de elite”. O queijo derretendo e fumaçando em cima da picanha acebolada me convidava a retirar mais uma lasca. E tome mais uma cerveja gelada.
Lá pras 23 hs., após várias cervejas e outros pedaços de picanha e feijão tropeiro, paguei a conta e fui deixá-la em casa. No trajeto deu-me uma vontade enorme de mijar em virtude de não ter ido nem uma vez ao banheiro (e nem ela). Como meu apartamento era bem distante da residência dela falei para ela do meu suplício e ela prontamente me disse:

* Você pode “fazer xixi” no banheiro lá de casa. É uma casa humilde, não repare, mas dá pra satisfazer suas necessidades mais urgentes.

Agradeci. Não era uma má idéia. Talvez, depois da mijada pudesse até rolar um clima, uns beijinhos, uns esfrega-esfrega, um cheiro no pescoço, um amasso nos peitos.
Entrei no apartamento dela (quarto, sala, cozinha e banheiro) e fui meio que às pressas em direção ao banheiro. Vi que a porta não fechava e segurei-a com uma das mãos enquanto retirava o “adormecido” pra fora. Ela, próxima à porta, esperava, ansiosamente, sua vez de desobstruir suas vias urinárias.
Nesse momento comecei a ouvir um barulho estranho na minha barriga e bolhas enormes de gás se deslocando para o viaduto do cu. Travei imediatamente o “back street boy” para evitar o pior e o esforço fez com que travasse também a urina. Suei frio tentando administrar a situação. Que situação complicada: querendo dar vazão à urina contida na bexiga e travando a “tarraqueta” para evitar a expansão do gás em ebulição que queria a todo custo sair e impregnar-se pelos cômodos da casa da futura namorada.
Suava frio aos cântaros. Senti que a moça se agoniava e gemia baixinho lá fora. E eu desesperado lá dentro, travado dos pés à cabeça. Abri a torneira da pia para induzir o mijo e um som gutural saiu das brenhas do cu. Primeiro tímido tipo apito breve. PIIIIIIIIIIIIIIIIII …..PUUUUUUUMMMM…Travei o inimigo na goela e fiz com que ele voltasse, meio contrariado, para o lugar de onde veio.
A pequena demonstração do gás exalado lembrou-me levemente o feijão tropeiro degustado, só que agora delineava-se estragado e com cheiro de mofo.
A bexiga só faltava estourar e eu concentrei-me na vazão da urina lembrando de cachoeiras, rios caudalosos passando mansamente e indo de encontro ao mar. Comecei a urinar. Uma urina tímida e fraca similar ao primeiro peido. Foi aí que me descuidei da trava psicológica e física que estava fazendo no cu e, como toda ação (retorno do gás à barriga) reflete uma reação de igual intensidade, um peido sonoro com cheiro de cadáver em decomposição inundou o ambiente. Soltei a porta que segurava e ela entreabriu-se um pouco mais dando liberdade ao gás tóxico similar ao gás mostarda lançado pelo Saddam Hussein contra os curdos do Iraque. Tentei abanar o peido para que ele fosse em sentido contrário em direção à portinhola do banheiro na esperança que ela não sentisse a catinga que impregnava minhas narinas de pura merda. Perdi o controle: mijava intensamente e emitia peidos seqüenciais fedidos e sonoros. Torci para que a dona do apartamento e possível futura dona do meu coração fosse, por momentos, surda e sem olfato.
Quando terminei de mijar previ o que mais temia: Um peido, pai de todos os outros, vinha descendo ladeira abaixo, tal qual um pedregulho de proporções meteóricas, numa velocidade que não dava para travar sob pena de presenciar lascas de minhas pregas pelo chão. Os gazes esparsos no ar faziam o Evo Morales reconhecer a queda de sua supremacia nesse recurso natural. Junto com o estrondo, um tolete pastoso melou totalmente minha cueca e senti o peso encostando-se no entre pernas, na região escrotal e ali se alojou mansamente.
A futura pretensa namorada, já tinha vazado da sala e estava “fazendo xixi” na parede do apartamento pelo lado de fora. Tirei a cueca e enrolei-a em papel e a coloquei no bolso. Limpei-me rapidamente como pude com o que sobrou do papel higiênico e saí do banheiro com a sensação de que vinte urubus me acompanhavam de perto, de olho na carniça que saía da minha bunda. Ainda soltei mais um peidinho do que sobrou do vinagrete e da picanha, a essa altura já defumada. Dessa vez, não sei porque, ela apelou e me tocou pra fora do apartamento me chamando de mal-educado.
Como as mulheres são incompreensíveis!

Durma-se com um barulho desses!

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2 Comentários

Arquivado em Crônicas certeiras

2 Respostas para “O suplício de um primeiro encontro

  1. Everton Lopes

    Muito legal esse conto, romântico, dramático e engraçado ao mesmo tempo. Só queria saber se foi verdade mesmo? Porque se foi verdade, esta é uma situação que eu não desejo pro meu pior inimigo.

  2. Caro Aparício Secundus.
    Penalizado (esta palavra significa estar com pena, e não punido, como semi-analfabetos e assemelhados usam), mas com o lenço no nariz, li sobre o desenlace de seu primeiro encontro amoroso com uma jovem que não suportou o prosáico e tão humano fedor de uma cagada.
    Pretendia limitar-me a um simples comentário sobre o relato de Secundus. Mas, o texto acabou se transformando neste arremedo de crônica em que tento mostrar que o drama desse rapaz não foi o único, nem o primeiro, nem o maior, sobre alguns efeitos de nossa condição fisiológica.
    Inicialmente, devo dizer a Aparício Secunduas que não se deprima por ter usado o banheiro da casa de uma moça no seu primeiro encontro com ela, e afugentado o amor com o mau cheiro que você causou.
    Houve há alguns anos um caso parecido em Rondônia. A história de um casal que tomava banho – ambos nus, numa noite de verão – numa piscina de Guajará Mirim.
    Tudo avançava para um feliz desfecho amoroso, mas, de repente, a moça saiu da piscina porque sentiu vontade de ir ao banheiro e, no local, não achando o vaso sanitário, aliviou-se da rápida digestão do jantar romântico, ocorrido algum tempo antes, numa lata vazia de querosene.
    O barulho da evacuação reverberando na lata, os sólidos e os líquidos caindo e se amontoando, fizeram o rapaz perceber que o objeto de seu profundo desejo era apenas uma parte do aparelho digestivo da namorada.
    Quando ela voltou para a piscina, ele já estava prudentemente fora d’água, vestido e ainda traumatizado pelos sons que a moça fazia sentada sobre a lata vazia de querosene. C’est la vie.
    No entanto, cagar é uma ação ligada ao ser humano desde o seu nascimento até a morte. De fato, nunca houve e nunca haverá um só dia na vida de qualquer pessoa, rica ou pobre, nobre ou plebéia, santa ou má, sem que ela tenha vontade ou ao menos pense em cagar.
    Cagar é o ato filosofal que realmente nos iguala, é o mais existencial dos nossos atos, pois está ligado a própria ação de comer. Cagar é viver, diria Lucini Pinheiro, o pioneiro de Porto Velho, um filósofo popular que ensinava que “quem tem medo de cagar não come.”
    Cagar é nobre. A palavra vem do latim cacare e na Roma antiga, quando o grande César ia à imperial latrina, a nobreza apenas murmurava, reverente, “rex cacare est” – que numa tradução livre seria “o rei está cagando.”
    Se você fosse Secundus, o Imperador, a sua namorada jamais o chamaria de mal educado por não aprovar o odor exalado dos reais dejetos de suas entranhas. Ela saberia para onde iria rolar a cabeça dela se falasse mal do cocô de Sua Majestade.
    Pior, Secundus, era o que acontecia com um amigo meu de São Paulo, que identificarei apenas como Augusto. Um cavalheiro muito educado, mas portador de umas esquisitices. Por exemplo, não viajava de avião de jeito nenhum.
    E não era por medo “de avião”. Dizia: “Tenho medo de adormecer durante o vôo e acontecer uma coisa horrível comigo!” Ele não explicava o que era. Apenas recusava todas as viagens.
    Mas, surgiu uma viagem inadiável, obrigatória. Ele sabia que teria que embarcar. Convidou-me para ir junto, com a condição de que eu jurasse que o manteria acordado até que o avião pousasse. E acabei testemunhando um de vários dramas que ele sofreu.
    Era uma viagem curta, de menos de uma hora, de São Paulo a Curitiba. E eu queria cumprir minha promessa. Conversava o tempo todo com Augusto. E ele falava o tempo todo. Falava tanto que quem acabou cochilando fui eu.
    Acordei quando o avião se preparava para pousar no aeroporto Afonso Pena. Olhei para o Augusto, que também havia adormecido. E tudo parecia tão normal.
    Normal até Augusto acordar, com o avião já tocando com as rodas no chão e ele exclamar, alarmado: “Você deixou que eu dormisse!” Demorei alguns segundos para entender o motivo do medo do meu amigo. Senti o cheiro na hora em que o avião pousou em Curitiba e Augusto em pânico falou: “Estou todo obrado!”
    Augusto não usava a palavra cagar, chula demais para seu vocabulário. E para não “obrar” de novo em avião (e isso só acontecia em avião) tivemos que voltar de ônibus para São Paulo. Então vi que Augusto exigiu que seu assento fosse o mais próximo possível da toalete do ônibus.
    Nunca havia prestado atenção, mas notei depois que sua mesa, no jornal em que trabalhávamos, era a mais próxima da saída da redação, para diminuir a distância do corredor de acesso aos banheiros.
    Essa era outra esquisitice de Augusto não almoçava no restaurante do jornal, ou qualquer outro restaurante da cidade. Não comia nada fora de sua casa. Por que? “Porque assim que como qualquer coisa sinto imediatamente vontade de ir ao banheiro.”
    Não adiantou dizer que isso acontece com muita gente, é normal, que restaurantes tem sanitários etc. Augusto rebatia: “Tenho medo de deixar vestígios, de deixar fedor.”
    Eu e outros amigos dele convencemo-lo a enfrentar os restaurantes e almoçar ou jantar na casa dos mais íntimos. Ele parecia tão curado de sua neurose (continuava indo ao banheiro após almoçar ou jantar, mas sem se estressar com isso) que decidiu aceitar o convite para almoçar na casa da namorada (aliás, ele pretendia pedir a moça em casamento).
    E aconteceu, Aparício Secundus, um drama parecido com o seu. O almoço foi meio à antiga, com toda a família da jovem presente e Augusto propondo casamento diante de todos. Terminado o almoço, a família se dispersou, e ele e a noiva foram deixados conversando numa sala.
    Então aconteceu. Ele sentiu vontade de ir ao banheiro, a moça indicou a porta e Augusto tentou ser o mais discreto possível. Tudo estava indo bem. Exceto por um resto de dejeto, pouco maior do que um dedo, que o vulgo chama de “torete”, que teimava em flutuar, por mais descargas que desse no vaso.
    O “torete” flutuava como uma rolha. E para Augusto era insuportável a idéia de deixar vestígio de seus excrementos no banheiro da casa da noiva. Ele demorava no banheiro, esperando a caixa da descarga encher para nova tentativa de fazer sumir aquela coisa.
    A noiva o chamou: “Algum problema aí, Augusto?”. Augusto começou a entrar em pânico: “Não! Não! Já estou saindo!”
    Deu nova descarga, e o cocô permaneceu desafiadoramente flutuante. “Augustooo!” – chamava novamente a noiva. Ele respondia: “Já vou!” Augusto lembraria que suava frio, aguardando a caixa de descarga enchendo novamente.
    Ele jamais deixaria a noiva ver aquilo. Se ela visse, talvez rompesse na hora o noivado que tinha começado uma hora antes. Só mais tarde, após o casamento, no futuro, deixaria de se preocupar com essas coisas.
    O iimportante era fazer aquele pedaço de bosta sumir vaso adentro. E como a caixa de descarga demorava a encher, Augusto subiu no vaso sanitário para mexer dentro da caixa, para abrir mais a válvula, apressar o enchimento. Segurava-se no cano da descarga e com a outra mão mexia na caixa.
    Então a caixa se soltou da parede, o cano vergou, e Augusto desabou com a caixa da descarga sobre a pia. O impacto arrancou a pia da parede e ela caiu sobre o vaso como uma bomba, quebrando-o ao meio.
    A água ds caixa e do vaso formaram uma onda que encharcou Augusto, alagou o banheiro e escorreu por baixo da porta. Se você viu cena igual a essa em algum filme, é mera coincidência.
    A noiva, o pai dela, a mãe, o irmão caçula, a empregada, todos batiam na porta e gritavam ao mesmo tempo. Augusto diria depois que a família fazia mais barulho do que o estrondo do desastre.
    Levantou-se, ensopado, atordoado, com alguma dor nas costas, mas sem ferimentos, determinado abrir logo a porta e explicar o acidente. Então, ajeitando o paletó e a calça encharcados, percebeu que havia uma coisa grudenta, pastosa, em sua roupa. Passou o dedo, cheirou e se horrorizou.
    Quando caiu sobre a pia, e o vaso sanitário quebrou, a água escorreu levando junto o pedaço de cocô flutuante, e Augusto caiu exatamente sobre o dejeto. Ele percebia que o fedor se espalhava sobre sua roupa molhada.
    Augusto fugiu pela janela do banheiro. Era vergonhoso demais, diria depois. Sequer telefonou para a moça. Nem ela telefonou para ele. O noivado se desfez por mútuo silêncio.
    Dias depois, a ex-noiva encontra-se com Augusto na rua, por acaso, e diz: “Papai falou que se você se arrependeu de me pedir em casamento, não precisava destruir nosso banheiro por isso.”
    Imagino, Secundus, que você deve estar avaliando como ficou a cabeça do nosso herói cagão. Nós o aconselhávamos a procurar um médico. Mas, ele se recolheu a uma espécie de clausura. Somente saia para o trabalho, não aceitava nenhum tipo de convite – e somente se alimentava em casa.
    Somente concordou em procurar um médico quando um dos chefes convidou-o para um almoço de trabalho. Recusar seria negar-se a participar de um novo projeto e perder uma possível promoção.
    Contou para o médico, e o doutor receitou-lhe um tranqüilizante. E Augusto compareceu ao almoço mais importante de sua carreira.
    Ainda nesse dia, à tarde, o médico vê Augusto caminhando pela rua e pergunta:
    – “Foi ao almoço?
    – “Fui.”
    – “Tomou o tranqüilizante?”
    – “Tomei.”
    – “E então, como foi o almoço?”
    – “Estou todo cagado, doutor, mas estou tranqüilo, tranqüilo!”
    Poderíamos encerrar aqui esta dissertação sobre cagadas. Mas, no melhor estilo dos roteiros de cinema, aqui tem mais um “ponto de virada”, uma última e inesperada cena.
    O local é uma sala da Polícia Militar de Rondônia. O local está cheio de PMs.
    Um superior ordena: “Mande evacuar a sala!”.
    O outro oficial pergunta, indignado: “Quer que eu mande meus homens fazer cocô aqui, senhor?”
    THE END

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