Nova “merla” invade periferia de Porto Velho

Viciado em "merla" delira em plena luz do dia, numa parada de ônibus da Estrada de Sto Antônio, em Porto Velho. foto: B.Bertagna

Depoimento de  Weslley Bragé Dias, do grupo de hip-hop Realidade de Rua

(Porto Alegre/RS) – ” Todo mundo tá preocupado com o crack. E quando chegar a merla como em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, vai ser uma mudança de planos. Quero ver onde é que vão enfiar a camiseta de “Crack nem pensar”, musiquinha e adesivo. Para fazer fama, ouvir aplauso, a boca fala tudo, mas onde é que vão enfiar a cara, com que palavras vão contrariar as pessoas quando a merla estiver no lugar do crack?

Existem três tipos de cocaína: a mais pura é a boliviana, só tem em Alvorada. A mais ou menos é a Viviane. Tem esse nome porque Viviane foi a primeira mulher que trouxe de São Paulo para cá. Morreu aqui (Porto Alegre), assassinada. A Loira é a mais fraca, a mais misturada, pode ter o mesmo efeito que giz escolar.

Tem vários tipos de pedras também: Hulk, Cristalina, Cenourinha, Bate-Bate. A pior destas é a Bate-Bate, porque é a mais pura, feita direto quimicamente. Até em casa se faz.

Merla é a mistura da Bate-Bate com a resina da boliviana.

O nome é merla, o apelido é Morte Súbita, porque a pedra vicia e mata com menos prazo. Tanto é que tem gente que fuma pedra há 12 anos e não morreu até hoje. A merla, segundo os doutores, em seis meses mata. Mas não é exatamente seis meses – é conforme o adequado andamento que a pessoa usa, a forma como usa. O efeito dura 15 minutos, o triplo do efeito da pedra.

Ela pode ser usada fechada como maconha. É o “mesclado” (mistura de pedra com maconha e pó), também chamado “macaquinho”. Pode ser usada no cachimbo (ou bimbo), e aí não passa de dois meses – a pessoa se mata porque tem 90% mais efeito colateral que a própria pedra.

A merla aqui em Porto Alegre está circulando há três meses. Antes só se ouvia falar. E só não se tá num vício pior, porque não está sendo lançada no mercado como a pedra (crack). Em uma semana, a pedra aumentou 80% o uso. E agora, mais ainda. E não se sabe se não vai aumentar mais ainda.

Onde diminuir o consumo da pedra, aumenta o mercado da merla. E o que dizem é que vai ter mais índice de morte, até por acerto de conta entre quadrilhas e bocas de fumo, e pela droga mesmo, pelos peixes-grandes (patrões).

A diferença entre merla e crack é que a merla é tipo uma crosta. A merla também é um tipo de pedra, mas tem uma consistência mais como gel, gruda. A merla custa R$ 2,00 (R$ 3,00 a menos que a pedra, porque ainda está começando o consumo). A pedra (crack) custa R$ 5,00. Quando aumenta o vício, a boca de fumo aumenta o preço no mercado negro. A grama de pedra hoje chega a R$ 20,00.

Nem sempre quem vende merla e crack é a mesma pessoa, porque isso já tem envolvimento de gente grande, os traficantes costas-quentes. O traficante costa-quente é tipo um doutor que cai na cadeia e fica numa cela especial porque tem ensino superior. Vem direto deles.

Não estão vendendo ainda merla como vendem pedra. Não é assim fácil para entrar uma droga nova e sair vendendo. Tem que ter contatos do morro para lançar uma nova. Foi lançada uma parte para ver o resultado no meio dos usuários de crack e qual a reação. É inevitável: a reação é que a merla é melhor que a pedra. Não se viciaram ainda porque foi só um patinho na armadilha, para saber que a droga é mais forte que a anterior.

Crack e merla têm efeitos diferentes. O crack dá uma sensação de desconforto, a pessoa fica espiada, com medo da própria sombra. Faz ter reações incomuns, como entrar noite adentro caminhando. Tem gente que come formiga ou cascalho do chão porque acha que é crack. Tudo que vê da mesma cor, pequeno, acha que é crack e tem vontade de fumar. Chegam a queimar o dedo para raspar o cachimbo, sem sentir dor, só para fumar a resina, que é mais forte que a pedra.

A merla não deixa tão espiado, mas deixa imobilizado. Onde fumar, pára, fica, é o mesmo que dar um branco, uma lavagem cerebral. Qualquer um pode fazer o que quiser, o cara não vai dar bola. Porém, o principal efeito dela, depois de uns dois minutos, é muito pior, a pessoa pode criar um desespero próprio, sair correndo, sem ter medo de nada, tipo um amigo meu que foi atropelado. Quebrou a perna, machucou o braço. Foi só um “te liga”, para ver a reação com a outra pedra. O que mais mata em relação à pedra é chinelagem, roubar para usar.

Chamam merla de Morte Súbita porque, com o crack, a maioria das pessoas morre por ter reações de furto, roubos, desrespeito à própria família, só para usar. A merla faz a pessoa se matar. Como hoje em dia a pedra já está matando, com a merla vai ser pior, porque vai ter o aumento de morte pelo desandar da pedra, o aumento da merla e o suicídio dos usuários.

O bom é que, pelo pouco que veio no mercado, a merla ainda não foi dada nem vendida para crianças. É a única parte boa. Para impedir as pessoas de usarem só derrubando a boca de pedra e pó. Onde não tiver mais, não tem merla.

Com certeza a merla pode chegar ao mesmo nível do crack, é só ela ser finalmente lançada como o crack foi.”

NR:  Este é um alerta para os pais e autoridades.  A “merla”  chegou antes do “crack” em Porto Velho.  Se antes o nosso Estado era só uma rota de passagem da cocaína vinda da Bolívia, Colômbia e do Peru para outros  mercados ,  com a crise econômica somada a fatores que podem até incluir o  novo boom econômico que a cidade respira, não se sabe também por um motivo de mercado, ou o aperto pela Polícia Civil de Rondônia e a Polícia Federal na repressão ao tráfico de outras drogas como maconha e cocaína,  este sub-produto feito com os restos da pasta-base da cocaína  deu suas caras por aqui. O artigo aí de cima fala de sua devastação já no sul do Brasil. Aqui , talvez seja uma questão de tempo. Mas até lá quantos seres humanos perderemos nesta batalha ?

(Atenção, não confundir “merla” com a “mela”, de “melado”, que na década de 80 era usado para “melar” o “baseado” de maconha. Apesar de serem praticamente a mesma coisa, a “mela” da década de 80 era digamos assim, mais natural, porque era usada “somente” a  borra da cocaína, que já é uma química desgraçada.)

A “merla” de hoje é uma mistura de querosene, ácido sulfúrico, barrilha usada para limpeza de piscina(óxido de cálcio),cimento, soda cáustica,amônia, cal virgem, solução de bateria de carro, borra da cocaína, gasolina reutilizada inúmeras vezes.

Ela é absorvida pela mucosa pulmonar e a exemplo da cocaína, é excitante ao sistema nervoso. Causa euforia, diminuição de fadiga, aumento de energia, redução do sono e do apetite, perda de peso, alucinações,delírios e confusões mentais. O usuário da merla corre sérios riscos de ter convulsões e perda de consciência, As convulsões podem levar o usuário a ter uma parada respiratória, coma, parada cardíaca e a morte. Após o efeito da merla, o usuário sente medo, depressão e paranóia de perseguição que em alguns casos leva-o ao suicídio. Com o uso continuado o usuário perde seus dentes pois o ácido de bateria que começa a corroê-los até sua perda total .)

A propósito, li notícias de que o xerife de Guajará-Mirim e inimigo nº 1 das organizações criminosas,  o popular “João Pomba” se aposentou.

Quem irá lhe substituir ?

"Onde fumar, pára, fica, é o mesmo que dar um branco, uma lavagem cerebral. Qualquer um pode fazer o que quiser, o cara não vai dar bola..."

8 Comentários

Arquivado em Notícias

8 Respostas para “Nova “merla” invade periferia de Porto Velho

  1. marien

    eu estou super xocada,tudo isso e muito triste as,drogas evoluem, os traficantes melhorando seus metodos para viciar as pessoas ,o governo nao da a minima ,e ajente perdendo ou com medo de perder nossos familiares e amigos para as drogas .

  2. mário

    Beto, gostei de te conhecer hoje, principalmente o “a 24 quadros”. Por coincidência, bem numa página que tem Porto Alegre como exemplo. Bem, sou de Porto Alegre e estou há uma semana morando em Boca do Acre, Amazonas. Este assunto me interessa, seja em Boca do Acre, Rio Branco ou Porto Velho, por serem cidades em que transitarei e que, pelo tamanho populacional ainda relativamente pequeno, podem sim serem mais bem planejadas. Estou aqui para trabalhar com comunidades tradicionais e preservação ambiental e tenho clara consciência que este proplema do epadú é o de mais difícil eqüacionamento na região amazônica.
    Desde já fica o meu apreço por teu texto bem objetivo e atuante. Fica o meu pedido de me contactar para que ponha em contacto com mais pessoas que lidam este tema, intitucionalmente ou não.
    Deixo-te o e-mail que mais uso também: mariomonster@yahoo.com.br
    Fique com Deus,
    Mário, Analista Ambiental.

    • Caro Mario, também sou de POA mas moro na Amazônia há muitos anos.Quando tiver alguma coisa de Boca do Acre não se acanhe de mandar prá gente divulgar. Visite sempre o blog. abs

  3. Pingback: Drogas mais nocivas e baratas invadem periferia de cidades de Rondônia e Acre « Beto Bertagna a 24 quadros

  4. Viviane

    Tudo isso é muito ridículo!
    Está de muito bom grado o blog, não é atoa que elogiam … hehehe
    Não deixo de colocar aqui, que estou pasma com o que lí, mas ao mesmo tempo muito bom.

    Beijinhos

  5. “DROGAS”, penso e tenho dito: a polícia é a principal responsável pela entrada e comercialização de qualquer tipo de droga nas comunidades. A polícia, não generalizando, mas aqueles que são do departamento responsável pela repreensão, narcóticos, um exemplo: tente denuciar um vendedor de drogas e acompanhe para ver se esse indivíduo vai ser investigado ou até mesmo preso. Somente há ação da polícia quando há interesse envolvido. talvez seja eu o investigado por relatar os fatos e não o traficante por vender as substâncias. Há milhões para construir PAC’s, mas não um tostão para construção de grandes centros de recuperação e prevenção, e formação de gestores e profissionais para tais casos. A droga esta na rua porque é permitido, é rentável para alguns mandatários, e está longe das suas casas, porque se lá estiver, prontamente será levado para um grande centro de tratamento, SPA. Empresários usam, deterioram os seus alicerces; advogados usam, ultragem a justiça; promotores usam, revelia a insanidade; psicólogos usam, mente insana para cuidar de pacientes; artistas usam, um passo para a eternidade; médicos experimentam sempre, uma decadência descomedida; e quem mais??? pode atirar a primeira pedra. A escassez da sociabilização, educação, entretenimento, igualdade de direitos e deveres, compatibilidade, credos… são alguns fatores que levam o indivíduo a entrar no underground e não mais sair… não precisamos de exemplos de outros lugares, temos os maiores problemas bem aqui, embaixo dos nossos olhos, mas acima de nossos pés… qual é a solução?

  6. Caros amigos,
    aprincipio quero dar os parabéns pelo site e dizer que aqui em PVH nós não chamamos de “merla” esse nome foi colocado em BSB aqui em PVH é “mela”.
    Infelizmente em PVH é uma realidade o uso dessa substância por várias classes sociais e bem antes do famoso “crack” estar na midia aqui já rolava solto a “mela” apartir da década de 80 nos garimpos de RO até chegar em PVH em todo o estado e depois se espalhar pelo Brasil.

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