Arquivo do mês: fevereiro 2010

A feira vai e o lixo fica…

Acaba o trabalho dos feirantes, começa a agrura dos garis...

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Quem tem carro velho tem história prá contar

Por Aparício Secundus Pereira Lima

Saí às 10:30 hs de uma sexta-feira de Brasília com destino à cidade de Urucuia-MG, a 320 Km de Brasília, às margens do rio Urucuia, afluente do S. Francisco, onde
possuo juntamente com mais quatro amigos, um rancho de pesca denominado Piraquara.
O carro, objeto da viagem, uma Caravan 82, em cujo carro similar, no vidro traseiro, li, certo dia, a seguinte faixa:  “Respeite os mais velhos. Sou avó da Blazer.”
Dúvida: Ir por Unaí-MG ou por Cabeceiras-GO. Decidi ir por Cabeceiras, que embora seja 70 Km mais perto tem o problema de encarar-se 50 Km de
terra ou lama conforme a época da viagem.
A escolha fez com que eu passasse por uma das maiores aventuras de  minha vida, que passo a relatar.
Chegando em Cabeceiras-GO, por volta de meio dia, parei para almoçar. Sabia que a partir dali haveria 50 Km de estrada esburacada e caótica a me aguardar.
Geralmente esse trecho é um teste de paciência e um muro de lamentações onde até as últimas gerações dos governadores de Goiás e Minas são lembradas de forma impublicável.
A estrada era o verdadeiro portal do inferno.   Havia caído uma “tromba d’água” na noite anterior (o que não era do meu conhecimento)  e a rodovia
estava um mar de lama (literalmente) contrastando  com a beleza da verde paisagem do interior de Goiás.
Num dado momento deparei-me com um buraco que estava sendo tampado com pedras colocadas por funcionários da empresa Santo Antonio que faz a linha
entre essas cidades até São Francisco – MG. Avaliei, calculei milimetricamente a passagem que me restava para ultrapassar a barreira e, como não tinha outra opção, aventurei-me no meio da lama num rally de dar inveja aos aventureiros do Paris/Dakar.
A  “Chalana” (apelido da Caravan) estribuchava-se em cima das rodas, o motor rangia, fervia, e eu via a hora dela parar no meio do atoleiro. Para minha alegria, consegui passar a duras penas e ofereci, a título de recompensa, aos funcionários da empresa que
me incentivaram (“pode ir pois se você atolar, nóis tira você”),  uma latinha de cerveja Skol bem geladinha que naquele mundo perdido era uma verdadeira iguaria de um Oásis.
Cinco quilômetros adiante, deparei-me com outro dilema: aproximadamente 30 metros de estrada coberto de água da chuva misturada ao barro da estrada,
cujo resultado químico dessa mistura resulta em lama. O lamaçal, de profundidade desconhecida e única forma de continuar viagem. Ou atravessava ou voltava. Três opções de travessia à minha frente: esquerda, direita e centro. Optei pelo centro como todo político
astuto. Acelerei a Chalana e me veio a sensação de estar testando o carro do Rubinho Barrichello em início de prova de Fórmula 1.
Partimos para o desafio: eu, Deus, o lamaçal, a Chalana e o cenário por testemunha.  À medida que atravessava o “Mar Morto” de água barrenta a
profundidade do poço aumentava e minha certeza de que lograria êxito na travessia, diminuía.
No meio do aguaceiro a Chalana estancou. A água quase chega no vidro  das portas,   e  começou a entrar, em princípio meio tímida, pelos pedais
e buracos da base da lataria do carro. Em poucos segundos estava com os pés dentro d’água e achei que se continuasse daquele jeito, seria necessário adquirir pés de pato para procurar o acelerador da Chalana.
Tentava desesperadamente dar partida no motor sem nenhum sucesso. Sozinho na estrada às 13 horas. Nenhuma viv’alma naquele  mundo perdido de meu
Deus.
Resolvi abrir a porta para verificar o motor, limpar a tampa do distribuidor ou mesmo, caso necessário, tentar empurrar o carro. A idéia lusitana
surtiu um efeito  tremendamente contrário às minhas pretensões, tendo em vista que a água que estava quase no nível inferior do vidro entrou como enxurrada pela abertura da porta inundando tudo até ao nível da poça externa. Os mantimentos que estavam na parte
do banco traseiro, no assoalho, impregnaram-se da água da poça que já dominava absoluta o ambiente interno da Chalana. Nada escapou ao dilúvio de lama. Tentei empurrar o carro com a água na cintura, pedindo força aos céus. Consegui movimentá-la por uns dois
metros e parei exausto, vestimenta puro barro.
Abri o capô e deparei-me com o motor dentro da lama.Tirei a tampa do distribuidor e, com minha camisa branca, que, por sinal, já não era mais
branca, limpei carinhosamente o rotor como se limpa bunda de recém-nascido.
Tentei, mais uma vez, fazer o motor funcionar.  Em vão.  Apareceu, em seguida, uma Parati com duas pessoas que, vendo o meu suplício, predispôs-se
a ajudar. Não tinham corda para rebocar a Caravan. E nem coragem para entrar na poça e me prestar socorro. Pediram que eu tentasse mais uma vez fazer o carro pegar. Depois de muito custo o motor, milagrosamente, deu sinal de vida, soltando traques, puns e estalos
estranhos.  Acelerei o mais que pude sentindo que o cano de descarga (da Caravan) estava totalmente dentro da água e engatei a primeira. A Chalana saiu aos pulos e conseguiu vencer o lamaçal.
Agradeci aos céus e, com o motor ligado, comecei a tirar a água da Chalana com um galão de cinco litros. Um dos colegas da Parati pediu que
eu desligasse o carro porque já estava totalmente aquecido. Temi que tal procedimento não fosse o adequado. No entanto, acabei acatando a sugestão.
Quando consegui tirar um pouco da água de dentro do carro resolvi continuar a viagem. Ao tentar fazer o carro dar partida, nada. O motor de partida tinha “colado”
e não girava o motor nem com reza braba. Só fazia um barulhinho: tec, tec, tec.
Os dois colegas da Parati começaram a empurrar o carro e nem sinal de  pegar.
Em seguida apareceu um caminhão que fazia o mesmo trajeto que o meu. Atravessou a poça com facilidade como se estivesse zombando de mim e da minha Chalana  baixinha
e estacionou ao nosso lado perguntando se queríamos ajuda.
Forneceu uma corda, entrei debaixo da Chalana (que ainda estava na lama) e tentei amarrar a corda na suspensão dianteira. Primeiro a corda partiu-se, segundo minha coluna quase se partiu
tentando amarrar a corda e, por fim, a Chalana não quis pegar mesmo sendo arrastada pelo caminhão. O caminhoneiro resolveu rebocar-me (a Chalana sem freio tendo em vista que só funciona com o motor ligado) até um vilarejo chamado Cabeceira da Mata. Vale ressaltar
que a Chalana estava completamente sem freio tendo em vista que só breca com o motor ligado. Fui controlando o stress e a Chalana no freio de mão.
Quando chegamos ao vilarejo denominado Cabeceira da Mata,  encontrei um mecânico de uma fazenda vizinha que se prontificou a limpar o distribuidor (lá se foi outra
camiseta branca), mexeu no motor de partida e, depois de meia hora, o carro pegou. Agradeci, dei R$ 10,00 para ele tomar de cerveja ou comprar leite, sei lá, troquei toda a roupa que estava pura lama e zarpei rumo a Arinos-MG.
Cinco quilômetros adiante, estacionei atrás de uma fila de caminhões carregados com carvão vegetal. Ninguém ia nem vinha. Um caminhão estava atolado no meio da
rodovia e ninguém passava em virtude de estar atravessado na BR Barro. Os caminhoneiros movidos à enxada tentavam cobrir os buracos da estrada e tirar o caminhão do atoleiro. Depois de uma hora e meia conseguiram puxar o caminhão. Passei pelo local do atoleiro
tal qual dançarino executando um tango de Gardel. Ouvi risos e aplausos dos assistentes diante de minha proeza ralística.
A 10 Km de Arinos caiu um toró de dar dó. Não fugindo ao suspense da viagem o limpador de pára-brisas resolveu dar o ar de sua graça e pifou a 5 Km de Arinos. Reduzi
drasticamente a velocidade, colocava o rosto para fora para ver se enxergava melhor, enquanto passava outra camisa branca no pára-brisas para tirar o embaçado do vidro.
Cheguei em Arinos às 17 horas. Ao contatar o primeiro eletricista que encontrei fui informado que era o motorzinho do limpador que tinha fundido.   Procurei a peça
em várias casas de auto-peças, fui em ferro-velho e nada. Passei, finalmente, em uma loja de peças e o proprietário, compadecendo-se da minha situação, informou-me que existia um ferro-velho no outro lado da cidade que poderia ter um limpador usado, mas em
perfeitas condições.
Ligou para o proprietário do ferro-velho que confirmou possuir a peça. Trocamos a peça debaixo de chuva. Eu, segurando o guarda-chuva para o mecânico efetuar o serviço.
Até foto tirei. Só que, depois de instalado, verificamos que o limpador funcionava ininterruptamente. Só desligava quando eu desligava o motor do carro. Para desligar o limpador só retirando um “plug” acoplado no motorzinho do limpador.     Dúvida: Dormir em
Arinos ou pé na estrada. Embora a primeira opção fosse a mais sensata achei que não haveria mais emoções naquela viagem e adentrei na estrada de terra, 60 Km separando-me do meu destino.
Zarpei de Arinos por volta de 19 horas. Noite, chuva e latinhas de cerveja, minhas companheiras em contraste com a solidão da estrada enlameada.
Após 15 Km do mais puro rally, onde a Chalana desgovernava-se e dançava ao  sabor do lamaçal que mais parecia manteiga, fui passar uma marcha redutora e o motor
fez um barulho e uma rouquidão estranha. Foi diminuindo a velocidade até parar, enquanto eu continuava passando a 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e nada. A marcha passava, no entanto o carro não saía do lugar. Acabou parando no meio da estrada. Passei a 1ª e nada. Pedi ao Anjo
da Guarda que me ajudasse e que a marcha funcionasse apenas para levar o carro até o acostamento e o Anjo da Guarda foi-me solidário. Devagarzinho o carro foi chegando ao acostamento e ali ficou inerte, de faróis ligados,  pura lama à minha frente. A única
testemunha da minha situação era a chuva que caía insistentemente no teto do carro, no meio da noite escura.
Desci do carro com lanterna na mão, entrei debaixo da Caravan para verificar a gravidade da situação. Apesar do carro encontrar-se barro puro por baixo, tudo parecia
normal diante da minha ignorância mecânica. Mais uma roupa toda suja de barro. Troquei de roupa dentro do carro, verifiquei a quantidade de latinhas de cerveja, abri uma e encostei-me no banco aguardando que algum bom samaritano me socorresse.
Mais ou menos uma hora e algumas latinhas se passaram e nada. Latidos de cachorro ecoavam no meio da noite molhada.
Abri a porta do carro para esticar as pernas e, nesse momento, a luz interna do teto da Chalana, que há muito tempo não funcionava, acendeu. Fiquei arrepiado e tive
uma crise de risos sem precedentes, encarando a Chalana que estava detonada no meio da chuva com a luz interna acesa, como se estivesse fazendo pilhérias comigo.
Às 10 horas da noite passou um ônibus. Peguei minha mala deixando tudo o que eu levava (galão cheio com 40 litros de gasolina, livros didáticos da Biblioteca de
Urucuia, alimentos, etc) dentro do carro. Rezei uma oração e pedi às 13 Almas Benditas que cuidassem do meu carro (ou o que restou dele).
Cheguei finalmente em Urucuia por volta das 11 horas da noite. Chovia aos cântaros.
Arrastando a mala no meio da noite chuvosa, desviando de poças d’água, fui parar no Hotel Urucuia para descansar o esqueleto moído.
No outro dia, pela manhã, procurei um mecânico e fomos verificar o que tinha acontecido com o carro.  O mecânico constatou que o defeito era na caixa de  marchas e
resolveu rebocar a Chalana por 35 Km de estrada de terra, ou melhor, de lama.      O carro do mecânico, seu Zé Bernardes, grande amigo e conterrâneo,  era um Passat velho. Estava até engraçado o cortejo: o avô do Santana (Passat) rebocando a avó da Blazer (Caravan).
Na viagem, a Caravan só faltava sair da estrada mato-a-dentro rebocada pelo velho Passat. Foram 35 Km de pura adrenalina. Pelo menos dessa vez fui com o motor ligado
e,  conseqüentemente, com freio.
Dia inteiro em Urucuia  verificando o carro, desmontando caixa de marchas. Não pude ir ao Rancho que ficava a 14 Km de Urucuia por estar a pé e não me animei a encarar
o restante da estrada em carro alugado.   O Rio Urucuia, imponente e cheio à minha frente, convidava-me a velejar sobre seu dorso barrento deixando-me com água (limpa) na boca.
Deixei um mecânico cuidando do carro e voltei de ônibus no domingo para Brasilia.
Na semana seguinte um amigo que morava em Urucuia telefonou-me dizendo-me que viria para Brasília no sábado e que poderia trazer a Caravan, o que prontamente autorizei.
Na vinda, segundo informações, a 8 Km de Cabeceiras-Go, os parafusos  do cardan estouraram e o carro despencou-se
no meio da estrada. O  condutor foi até Cabeceiras, trouxe mecânico que colocou novos parafusos e reiniciou a viagem.     Chegando no Núcleo Bandeirante, já em Brasília, o Cardan caiu novamente em virtude dos parafusos não terem sido apertados adequadamente.
O carro ficou parado no acostamento.  Nisso passou um rapaz num Pálio vermelho que viu a Caravan parada,  estacionou ao lado e perguntou:
* “Esse carro não é o do  Aparício?”
*     “É sim”, respondeu Braguinha, condutor do veículo, meio surpreso.   O  rapaz estacionou seu carro, entrou debaixo da Caravan, verificou o problema, foi ao Núcleo Bandeirante, comprou novos parafusos, colocou-os e deixou o carro em pé,  pronto para a
partida.
Quando o Braguinha perguntou quanto era o  serviço, ele respondeu:
–       Nada não. Sou amigo do Aparício e mecânico desse carro há mais de cinco anos…     Só faltou ele confessar que
falta pouco para construir uma casa em Padre Bernardo às minhas custas, graças à “bendita” Chalana…
Costumo afirmar o seguinte: existem quatro maneiras diferenciadas de sentir emoções na própria pele em uma viagem: emoções
medianas, fortes,  espetaculares e caóticas.
Primeiro passo é comprar uma Caravan (de preferência ano 1982 como a que possuo) sem verificar sua origem.
Emoções medianas: revisar o carro, calibrar pneus e partir para destino conhecido e próximo.
Emoções fortes: não revisar o carro, nem verificar níveis de óleo e água do radiador, nem calibragem dos pneus,
pneu de estepe, ferramentas, lanterna, etc. e viajar para local acima de 300 Km, de preferência com estrada de terra no percurso.
Emoções espetaculares: todos os itens acima e partir, sem destino, numa estradade poeira e pó rumo a lugar desconhecido por
mais de um dia de viagem.
O carro se encarregará do resto da história. No mínimo, o aventureiro ficará muito puto de raiva. No máximo escreverá um romance
que pode vir a ser um best-seller.                                    No entanto, cabe afirmar que, para curtir emoções caóticas,há a necessidade de se adquirir um Fiat 147 – de preferência ano1982 (possuí um que me deu 148 problemas), cuja epopéia a que passei já é uma outra estória, digna de
um romance de suspense.
Para finalizar, esclareço que mandei trocar o vestido da Chalana (pintar), os pares de sapato (pneus), o molejo (suspensão)
e coloquei novo marca-passo no coração (cabeçote do motor). Vai ficar linda. Zeradinha.Pronta para novas aventuras.
Quem tem carro velho, tem história pra contar.

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Descubra que lugar é este.

Cena aérea de Porto Velho, final anos 80

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A Ponte de Bananeiras

A Ponte de Bananeiras, em Guajará-Mirim, pelas lentes de Octacilio Souza, assessor e fotógrafo oficial do Governo do Território Federal do Guaporé

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Rondônia "unido" contra a dengue

Neste out-door, alguma coisa irritou os mosquitos da dengue. Acho que foi a concordância...

Neste out-door,  para não irritar ainda mais os carapanãs transmissores da dengue que são sensíveis e  andam bravíssimos picando todo mundo por qualquer coisa, acharia mais coerente que colocassem ou “Estado de Rondônia unido contra a dengue” ou “Rondônia unida contra a dengue”.

O que vocês acham ? … Sai prá lá, carapanã da muléstia….

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Rondônia “unido” contra a dengue

Neste out-door, alguma coisa irritou os mosquitos da dengue. Acho que foi a concordância...

Neste out-door,  para não irritar ainda mais os carapanãs transmissores da dengue que são sensíveis e  andam bravíssimos picando todo mundo por qualquer coisa, acharia mais coerente que colocassem ou “Estado de Rondônia unido contra a dengue” ou “Rondônia unida contra a dengue”.

O que vocês acham ? … Sai prá lá, carapanã da muléstia….

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Chapinha (atualizado)

Aldenir Campos Paes, o "Chapinha", velho companheiro de jornadas na extinta TV Educativa Canal 2, de Porto Velho

Chapinha sai de trás das câmeras e é entrevistado no Programa Papo News, da TV Record News , canal 58, hoje às 11:30, também na ViaCabo e com reprises durante a semana.
Chapinha, e seu irmão Alcivam, foram alguns dos pioneiros que trabalharam no CEPAV, Centro de Produção Audio-Visuais Pe. Landell de Moura, idealizado pelo então Secretário de Esporte e Cultura, Vitor Hugo e por seu adjunto, Isaias Vieira dos Santos.
O CEPAV foi o embrião do que seria depois a TVE Madeira-Mamoré, projeto que tive o orgulho de capitanear juntamente com o Célio Hugo, e que depois , em outras etapas, teve a adesão de diversos jornalistas e produtores que hoje labutam na imprensa rondoniense. Por lá passaram, Nelson Townes de Castro, José Carlos Sá, Sérgio Melo ( que apresentava o telejornal diário Jornal 2, com 30 minutos de duração), o Luiz Brito, Sinara Guatimozin,  Carlos Levy, Jurandir Costa,  Ruben Torrico, Luiz Alves de Medeiros, João Kerdy e tantos outros, inclusive os que conseguiram sucatear e liquidar de vez com o canal de comunicação que poderia até hoje estar prestando serviços para a comunidade. A primeira antena ficava em cima do prédio do Tribunal de Contas. E a derradeira, uma moderna superturnstile está até hoje apodrecendo em cima da caixa dágua da Caerd, ao lado do hotel Aquarius, para quem quiser ver e comprovar a veracidade destas informações. ( Inclusive está circulando um livro que pretende traçar a trajetória  da imprensa caripuna. Ainda não tive a oportunidade de ler, mas vamos conferir se o autor foi mesmo a fundo na pesquisa e ouviu as fontes que estão aí , disponíveis e abundantes, ou ficou só no confortável, mas medíocre,  “ouvi dizer” .)

A TVE teve a primeira unidade externa portátil U-Matic da região, uma Sony DXC 1800 de um tubo e um gravador VO 4800, de 3/4 de polegada. A própria TV Rondônia fazia suas externas com uma máquina chamada BVU 200 , transportada num carrinho de supermercado e uma extensão de fio num rolo.

O "portátil" VO 4800 pesava uns 5 quilos e era acoplado à câmera por um cabo


Das diversas figuras que passaram pelo saudoso Canal 2,  teve uma que com seu enorme arcabouço intelectual e visão de futuro alojados no cabeção chato,  insistiu em apagar fitas com conteúdo histórico para gravar um importantíssimo Misto X Ferroviário. Você se lembra ?  Nem eu.
Lembranças, lembranças. Acho até que Chapinha estava junto quando capotou o nosso único carro que servia tanto para serviços burocráticos como para as externas.  Algum tempo depois, um caminhão de tora passou por cima do velho Fiat 147 da TVE , em Ariquemes, destruindo-o. Eu estava dentro mas não sofri qualquer lesão. O motorista escapou por pouco e mesmo assim ficou internado uns dias com suspeita de traumatismo craniano.
Mas esta e outras histórias serão contadas mais à frente. Vamos ver a entrevista do Chapinha que deve ter muita coisa prá contar.

Atualizado com o comentário de Nelson Townes :
Tomara que o Chapinha não esqueça que ele era o par permanente, com trocas apenas para dar tempo para a mudança de pauta, do sempre lúcido e inteligente Edson Lustosa e da não menos inteligente, sempre ultra-produzida – incluindo um aroma discreito de Fleurs de Rocaille – e charmosa Cristina Arcanjo, nossos repórteres de externas. Eles encaravam qualquer pauta, e cada qual a mais desafiadora. E nunca furavam as pautas. Uma vez o vice-governador Orestes Muniz (notem que a TV era do Estado), vendo-se em apuros diante de uma pergunta sobre um escândalo no governo Jerônimo Santana, perguntou pra Cristina: “Afinal, vocês são de uma TV do governo ou da oposição?” A brava Cristina respondeu: “Somos da TV Madeira-Mamoré, e o senhor ainda não respondeu a minha pergunta”. Ele não respondeu e a matéiria foi “Orestes se recusa a falar sobre… (e aí vinha a história). Éramos respeitados e nosso telejornal obrigou a TV Rondônia a reformatar o dela porque estávamos começando a roubar audiência. A primeira que fizeram foi mudar o prefixo musical. Eles usavam uma musiquinha que lembrava o tema de Tom & Jerry. O jornal da TVE entrava de sola com a música “Orient Express”, de Jean Michel Jarre. Espero que o Chapinha lembre do editorial que inventamos no meio do telejornal, anos antes de o Arnaldo Jabor surgir com isso na TV Globo. Que ele lembre da denúncia que eu fiz do mercúrio nos peixes do rio Madeira. qiando comprei no mercado e levei um tambaqui de verdade pro estúdio, coloquei numa mesa diante da câmera e despejei mercúrio sobre o peixe, enquanto falava algo bem humorado sobre nosso novo prato regional, o peixe contaminado. Como era mercúrio cromo (afinal, não precisávamos ser tão realistas, era só uma caricatura de um fato), o peixe foi lavado e degustado mais tarde pela equipe da TV. Lembre do dia, Chapinha, eu que eu pedi que você filmasse as Três Caixas d’Água e girasse a câmera de forma a parecer que tombavam sobre o bairro do Caiari. Era uma crítica ao meu primo, secretário da Cultura, Abelardo Castro, por se descuidar de providências para o tombamento do monumento de sua conservação. Fomos, aliás. os primeiros a denunciar ferrugem nas bases das Caixas d’Água. O Abelardo, chefe supremo da TVE, como secretário de Estado, assistiu ao lado do governador Jerônimo Santana, essa crítica contra ele num televisor do arraial da Flor do Maracujá. Ele olhou pro relógio e disse: “Governador, quero que senhor veja como está a TV Educativa que o Beto e o Nelson estão tocando. O Nelson montou um telejornal muito bom.” Aí apareceu o editorial mostrando as Caixas d’Água com as bases enferrujadas tombando (desabando) sobre o bairro do Caiari, tendo como fundo sonoro a “Abertura 1812″, de Tchaikovsck, no ponto em que a orquestra num crescendo funde a música com sons de canhões disparando em Moscou na guerra contra Napoleão, (no nosso caso, eram tiros que faziam tremer as Caixas d’Água, pois instruí Chapinha a dar uns tapas na câmera antes de virar a imagem de ponta cabeça) antes de seu desabamento. A TVE criticava o próprio secretário da Cultura, o próprio governo. Mas, Jeônimo adorou a crítica, riu muito. O Abelardo Castro até que estava engolindo bem a história. Ficou uma fera comigo só quando o Jerônimo, ainda rindo, pegou no braço dele e disse: “Pô, Abelardo, até o teu primo te goza!” E eu morava com o Abelardo, na Vila Cujubim (hoje Sedam). De qualquer forma, nem o Abelardo, nem o Jerônimo, nem o Oestes Muniz, ninguém se metia na nossa linha editorial. Havia liberdade total .Fazíamos uma TV quase artesanal (tive que caçar em São Paulo um gerador de caracteres que ela não tinha e ninguém encontrava). A TV tinha crescente audiência até ser sucateada por gente que hoje é até motivo de orgulho profissional em gente que não conhece nossa história e não sabe, por exemplo, que o Chapinha é um desses caras veteramos da nossa imprensa cujo trabalho e realizações deixa no chinelo o currículo de muito rei da cocada preta por aí.

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